Thais Vitória Borges – Internacionalista

A década de 1980 marca dentro das Relações Internacionais o período de seu terceiro grande debate, este que é caracterizado não por um choque entre perspectivas divergentes, mas sim por uma bifurcação entre neorrealistas e neoliberais (Pereira, 2015, p. 316). 

Dentre os pensadores que contribuíram para as RI neste período, Susan Strange se destaca pelas suas análises dos processos econômicos no sistema internacional. A cientista social é central na área de Economia Política Internacional (EPI). Ela se destacou por sua especialização em temas como o capital financeiro, a natureza do poder dos EUA no período pós-guerra e, crucialmente, a necessidade de integrar os estudos de Economia e Ciência Política. Seu trabalho mais notável, segundo Alencar e Nunes (2018), reside na análise das relações monetárias internacionais e sua profunda conexão com as dinâmicas de poder.

Uma de suas obras mais influentes, The Retreat of the State (1996), sustenta que a autoridade do Estado-nação se encontra em processo de declínio, sendo progressivamente substituída pela ascensão do poder dos mercados globais e de diferentes formas de autoridade não estatais. 

Nessa obra, a autora propõe uma estrutura teórica inovadora para a análise da economia política internacional, ampliando os conceitos de poder e de política de modo a abarcar uma multiplicidade de atores além do Estado. Entre esses novos agentes incluem-se as corporações transnacionais (TNCs), organizações criminosas, grandes firmas de auditoria e contabilidade, bem como burocracias internacionais, que passam a exercer influência significativa na dinâmica global contemporânea (Ibid, 1996).

Com base nessa nova realidade, a autora voltou-se para a análise dos processos que estruturam o sistema econômico, ressaltando a importância de investigar como se configuram as relações de poder nas quais terceiros intervêm nas interações bilaterais entre os diversos agentes que compõem o sistema. A partir dessa abordagem, Strange desenvolve o conceito de Poder Estrutural, entendido como a capacidade de moldar as estruturas fundamentais da economia global, dentro das quais os demais atores do sistema internacional (como Estados, instituições, organizações internacionais e empresas) atuam e interagem (Alencar; Nunes, 2018).

Ademais, em States and Markets (2004), a cientista social propõe uma nova forma de compreender a política econômica mundial. Partindo do pressuposto de que a economia e a política frequentemente operam de modo dissociado, a autora busca integrá-las por meio de uma análise estrutural que evidencia as inter-relações e os efeitos recíprocos entre Estados e mercados. Dessa maneira, Strange contribui para o debate que ocorria no campo das RI na época, ao sugerir uma abordagem mais ampla e interconectada entre as esferas política e econômica.

REFERÊNCIAS

 ALENCAR, F. B.; NUNES, L. S. F. Susan Strange: poder estrutural e hierarquia monetária, uma breve discussão. Revista de Geopolítica, v. 9, n. 1, p. 125-142, 2018.

PEREIRA, Demetrius Cesario; ROCHA, Rafael Assumpção. Debates teóricos em Relações Internacionais: origem, evolução e perspectiva do “embate” Neo-Neo. Monções: Revista de Relações Internacionais da UFGD, v. 3, n. 6, p. 313-328, 2015.

SARFATI, Gilberto. Teorias de relações internacionais. Editora Saraiva, 2000.

STRANGE, Susan. States and markets. States and Markets, p. 1-304, 2004.

STRANGE, Susan. The retreat of the state: The diffusion of power in the world economy. Cambridge university press, 1996.