Heloisa Valente – internacionalista formada em Relações Internacionais pela UNAMA

Em 2023 veio à tona, de forma global, a decisão histórica de uma Conferência das Partes ser sediada em uma capital amazônica — Belém do Pará. Em contrapartida, as primeiras impressões de alguns veículos da mídia brasileira — centralizados no eixo sul-sudeste — e da mídia estrangeira, perpetuaram o preconceito historicamente sofrido pela região norte, tentando retratar que a sede da 30ª COP seria, então, um lugar exótico permeado de obstáculos, sendo o maior deles a Floresta Amazônica (Machado, 2025). Sendo assim, uma região que já tanto é excluída — do Brasil e do planeta — deveria permanecer na exclusão.

A escolha da sede, no entanto, justifica-se pela narrativa da cooperação global. O Neoliberalismo, um dos mais importantes paradigmas das Relações Internacionais, traz a discussão acerca da colaboração necessária entre os diversos atores do Sistema Internacional, indo além da concentração de poder nas mãos dos Estados: nessa conversa incluem-se, também, membros da sociedade civil, importantes players do mercado e organizações não-governamentais, por exemplo. 

Nesse sentido, todos estes atores estão entrelaçados pela chamada Interdependência Complexa, teoria desenvolvida por Joseph Nye e Robert Keohane. Esta teoria expõe que a profunda ligação — e dependência — econômica entre os países os força a evitar conflitos, os levando a cooperar a fim de evitar perdas para todos os lados, sendo influenciada pela lógica capitalista de prezar sempre pelo ganho e posteriormente, a acumulação. Dessa forma, o intuito seria resolver problemas globais, com soluções globais, por intermédio de ferramentas de Governança Global.

Um exemplo deste sistema é, justamente, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) — aderida por 196 países — como ferramenta global para a tentativa de resolução para a crise climática, que também é global. Sendo assim, a escolha de Belém como sede para a reunião da Convenção destaca o compromisso dos Estados, principalmente o Brasil, em prolongar essa cooperação e incluir os demais atores além-Estado, como os Povos Originários, no debate, demonstrando também preocupação com a conservação e valorização da Amazônia.

Toda essa narrativa, entretanto, se demonstra contraditória. Apesar da inclusão de atores historicamente excluídos de discussões importantes, a realização da COP 30 em Belém não apaga o descaso e violência sofridos por esses atores. A nível nacional, os povos indígenas sofreram assassinatos, violações territoriais (CIMI, 2024) e entre outras violências. A nível municipal, Belém vive uma extensa precariedade no saneamento básico, na mobilidade urbana e na oferta de serviços públicos essenciais (Marinho, sd).

A preparação da cidade para a Conferência contou com a realização e finalização de novas obras e com a finalização de antigas, estas que precisaram da iminente visita de líderes mundiais para que fossem concretizadas, evidenciando o descaso da administração pública da capital com a população. É necessário destacar, também, que a maioria destes feitos serviram para o “embelezamento” e valorização financeira de áreas da cidade, e não para a mitigação de problemas da metrópole (Altino, 2025)

Acompanhando a desconsideração com indígenas e a população local, a COP servirá de polo mercadológico internacional, com a proposta do governo federal de realizar uma “integração mundial dos mercados de carbono” (D’Auria, 2025). Sobre isso, é válido destacar a reflexão de Ailton Krenak de suas obras, onde o filósofo afirma que a natureza não deveria ser um recurso natural à disposição dos homens, sendo necessário que a humanidade se desprenda da terra (Krenak, 2019).

Essa reflexão revela que a sede da COP 30 — a Amazônia — pouco a pouco torna-se um grande cassino, onde as moedas de aposta são as vidas de cada cidadão que depende das decisões dos grandes líderes globais.

Mostra-se, portanto, que por mais necessários que sejam, e independente de sua localização, os grandes eventos de Governança Global não estão a serviço dos indivíduos que, diariamente, sofrem as consequências das decisões dos atores que exercem o poder nos fóruns de debate mundial, evidenciando uma dinâmica de poder baseada em uma lógica capitalista excludente.

REFERÊNCIAS

BRASIL propõe integração mundial dos mercados de carbono na COP30. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/brasil-propoe-integracao-mundial-dos-mercados-de-carbono-na-cop30. Acesso em: 2 nov. 2025.

JATOBÁ, Daniel; LESSA, Antônio Carlos A.; OLIVEIRA, Henrique de. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2013.

MACHADO, I. A cobertura preconceituosa da imprensa RJ-SP sobre a COP-30 em Belém. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/a-cobertura-preconceituosa-da-imprensa-rj-sp-sobre-a-cop-30-em-belem/.

MIOTTO, T. Relatório Violência Contra Povos Indígenas no Brasil – 2024: primeiro ano de vigência da Lei do Marco Temporal foi marcado por conflitos e violência contra povos em luta pela terra | Cimi. Disponível em: https://cimi.org.br/2025/07/relatorioviolencia2024/.

VER. Neorrealismo, neoliberalismo e neomarxismo: um debate necessário. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2020/04/17/neorrealismo-neoliberalismo-e-neomarxismo-um-debate-necessario/. Acesso em: 2 nov. 2025.