Gabriela Vaz,
acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais

O passaporte musical desta semana destaca o ativista climático, comunicador e DJ Eric Terena. O artista é conhecido por mesclar músicas eletrônicas com cantos tradicionais indígenas e sons contemporâneos. Ele também é um dos fundadores do coletivo “Mídia Índia”, que atua na defesa dos direitos e da comunicação indígena no Brasil (UOL ecoa, 2022).

Eric Marky Terena, do povo indígena Terena, nasceu em 1993 na terra indígena Cachoeirinha, no Mato Grosso do Sul. Quando ele nasceu, seus pais haviam acabado de se mudar para Campo Grande, onde fundaram a primeira associação de moradores indígenas da capital, um espaço de acolhimento e apoio às famílias indígenas recém-chegadas. Aos 16 anos, Eric trabalhava como DJ em formaturas e casamentos e, em 2012, ingressou no curso de Jornalismo, onde participou de movimentos estudantis pela defesa dos direitos indígenas
(Awure, 2024). Eric afirma que, na cultura Terena, a música é sua principal conexão com as raízes (Campo Grande news, 2022).

Sua carreira tem sido marcada por apresentações em diversos países, tanto em festivais internacionais como em espaços dedicados à agenda climática global, incluindo eventos como Global Citizen e às COPs. Em suas performances, Eric busca defender e valorizar a cultura indígena, além de levar uma mensagem de preservação da natureza e de fortalecimento da identidade dos povos originários.

A trajetória musical de Eric Terena pode ser analisada à luz da teoria pós-colonial nas Relações Internacionais, que evidencia como heranças de dominação colonial ainda influenciam quem tem voz e legitimidade no cenário global. De acordo com a Gayatri Spivak, em “Can the Subaltern Speak?” (1988), os subalternos – grupos historicamente marginalizados, como os povos indígenas – são silenciados pelas estruturas dominantes, mesmo em sociedades formalmente independentes (Spivak, 1988).

Além disso, a disputa por voz no cenário global também pode ser relacionada ao conceito de colonialidade do poder, apresentado por Aníbal Quijano. Segundo o autor, mesmo após o fim formal do colonialismo, persiste uma estrutura global que hierarquiza saberes, culturas e identidades. Essa colonialidade define quais conhecimentos são considerados válidos e quem é reconhecido como produtor legítimo de conhecimento.

Nesse sentido, a atuação de Eric Terena como músico, comunicador e ativista funciona como uma forma de resistência epistemológica: ao trazer narrativas indígenas para o cerne das discussões climáticas globais, ele quebra com a lógica que historicamente relegou os saberes tradicionais a uma posição subalterna. Diante disso, quando artistas como Eric Terena ocupam palcos globais e afirmam suas identidades, eles desafiam essa lógica de silenciamento e reivindicam um espaço que historicamente lhes foi negado.

REFERÊNCIAS

ÀWÚRE. O propósito na música do DJ Eric Terena. Disponível em: https://www.awure.com.br/o-proposito-na-musica-do-dj-eric-terena/. Acesso em: 10 nov. 2025.


LIA HAMA; THIAGO YAWANAWA. UOL Ecoa. DJ e ativista, Eric Terena é cofundador do Mídia Índia. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/eric-terena-dj-e ativista-cofundou-a-midia-india/. Acesso em: 10 nov. 2025.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.


SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the Subaltern Speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (Org.). Marxism and the Interpretation of Culture. Urbana: University of Illinois Press, 1988. Pag. 271–313. Disponível em: https://jan.ucc.nau.edu/~sj6/Spivak%20CanTheSubalternSpeak.pdf. Acesso em: 10 nov. 2025.

TORRES, Thailla. Campo grande news. Eric já viu muitas ameaças, mas ano como DJ levou música ancestral ao topo. Disponível em: https://www.campograndenews.com.br/lado-b/comportamento-23-08-2011- 08/eric-ja-viu-muitas-ameacas-mas-ano-como-dj-levou-musica-ancestral-aotopo. Acesso em: 15 nov. 2025.