Sofia Dias, acadêmica do 2º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A COP 30, em curso em Belém do Pará, assume importância singular ao posicionar os povos originários no centro das negociações climáticas internacionais. A conferência ocorre no bioma amazônico — elemento estratégico para a estabilidade ecológica planetária — e mobiliza uma presença recorde de representantes indígenas. Entretanto, apesar da ampla participação, apenas 14% dos indígenas brasileiros presentes obtiveram credenciamento para acessar os espaços formais de tomada de decisão, particularmente a Blue Zone, área restrita às negociações oficiais (CLIMATE CHANGE NEWS, 2025). Esse dado evidencia que, embora a visibilidade tenha aumentado, o protagonismo efetivo permanece limitado.

Durante as sessões oficiais e paralelas do encontro, lideranças indígenas reivindicam que seus saberes, práticas territoriais e prioridades políticas sejam incorporados de maneira estruturante à ação climática global. Representantes de diversas regiões socioculturais afirmaram que a centralidade indígena não pode se restringir à representatividade simbólica, defendendo a inclusão direta em decisões e a garantia de respeito ao consentimento livre, prévio e informado (AGÊNCIA BRASIL, 2025). As demandas destacam que o reconhecimento formal da importância dos povos originários não pode ser apartado do acesso real às arenas de negociação.

Em documento divulgado pela própria organização da conferência, afirma-se que o conhecimento indígena, aliado ao acesso direto a financiamento climático, constitui pilar das políticas de adaptação e deve ser incorporado de forma explícita aos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) (COP30, 2025). Ainda assim, o reconhecimento descritivo desses pilares não se traduz automaticamente em mecanismos que assegurem poder decisório, revelando a persistência de assimetrias estruturais.

A insuficiência do protagonismo indígena nas arenas decisórias da COP 30 pode ser analisada de maneira consistente à luz da teoria marxista. Karl Marx, em O Capital, ao examinar a dinâmica interna do modo de produção capitalista, identifica o rompimento do metabolismo social entre humanidade e natureza como uma das consequências estruturais da lógica de acumulação.

Para Marx (2017), esse sistema promove a apropriação predatória dos recursos naturais sem reposição dos ciclos ecológicos, convertendo terra, territórios e populações em objetos subordinados às exigências da valorização do capital. Assim, a crise ambiental não constitui um fenômeno externo ao capitalismo, mas expressão de sua própria racionalidade histórica.

Nesse sentido, os povos originários, cujos modos de vida produzem relações ecossistêmicas sustentáveis, representam alternativas concretas ao metabolismo social rompido. A restrição de seu acesso aos espaços de decisão da COP30 ilustra a permanência da lógica de concentração de poder descrita por Marx, segundo a qual aqueles que detêm controle sobre os meios de produção — e, por extensão, sobre a gestão do território — também monopolizam as decisões sobre o futuro ambiental do planeta.

A criação de espaços participativos na governança climática — como a COP 30 — não pode se limitar a reconhecer simbolicamente as contribuições indígenas, pois isso não altera a estrutura de poder que historicamente os marginaliza. Conforme Marx (2017), a terra representa uma “condição universal da produção e da vida humana”, o que impede sua redução a mero recurso explorável.

Aplicado ao contexto da conferência, esse postulado implica que a presença dos povos originários nas negociações climáticas deve ser acompanhada de poder decisório efetivo, incluindo a possibilidade de voto e veto sobre questões que incidem diretamente sobre seus territórios. Sem isso, a governança climática internacional reproduz a lógica de expropriação própria do capitalismo e mantém intactas as assimetrias que sustentam a atual crise ecológica.

Portanto, a COP 30, ao ocorrer em Belém, no coração da Amazônia, deixa evidente que a crise climática é estrutural e atravessa relações de poder históricas. O verdadeiro êxito da conferência dependerá da capacidade de transformar a participação indígena em influência vinculante. Apenas assim será possível caminhar rumo à restauração do metabolismo social entre humanidade e natureza, conforme previsto na crítica marxista — e construir uma política climática global alinhada a princípios de justiça ecológica e social.

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA BRASIL. Indígenas do mundo cobram na COP30 centralidade na ação climática. 13 nov. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-11/indigenas-do-mundo-cobram-na-cop30-centralidade-na-acao-climatica

CLIMATE CHANGE NEWS. Despite record turnout, only 14% of Indigenous Brazilians get access to COP30 decision-making spaces. 13 nov. 2025. Disponível em: https://www.climatechangenews.com/2025/11/13/despite-record-turnout-only-14-of-indigenous-brazilians-get-access-to-cop30-decision-making-spaces

COP30. Conhecimento indígena e financiamento direto são pilares da adaptação climática. 12 nov. 2025. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/conhecimento-indigena-e-financiamento-direto-sao-pilares-da-adaptacao-climatica

MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2017.