Caio Farias Martins

Marcelo Eduardo Alves de Brito

Nos últimos anos, a crescente preocupação com os limites ambientais do planeta tem impulsionado novas formas de compreender a relação entre sociedade, produção e consumo. Entre essas abordagens, o modelo circular desponta como um caminho possível para reorganizar práticas consolidadas e enfrentar os desafios impostos pelo acúmulo de resíduos e pela exploração intensiva de recursos naturais.

Longe de ser apenas um conjunto de técnicas de reaproveitamento, esse modelo representa uma transformação sistêmica na forma como bens são produzidos, utilizados e reinseridos no sistema econômico. Por isso, este artigo tem por objetivo analisar os efeitos da economia reciclável sobre a cadeia produtiva, o comportamento do consumo e as implicações internacionais desse modelo.

Logo, ao transformar resíduos em oportunidade e ao estimular escolhas mais responsáveis, a economia reciclável redefine comportamentos, pressiona cadeias produtivas e reorienta agendas políticas. Nesse sentido, analisar seus impactos torna-se essencial para compreender as novas dinâmicas que emergem tanto no âmbito produtivo quanto no consumo, bem como suas implicações sociais e internacionais.

A economia reciclável modifica a cadeia produtiva ao reinserir resíduos como matéria-prima, reduzindo a extração de recursos naturais e estimulando processos mais eficientes (MENDES, 2020). Isso leva empresas a revisarem métodos, adotarem tecnologias de reaproveitamento e reduzirem custos. A produção deixa de ser linear e passa a operar em ciclos contínuos, o que aumenta a competitividade. Essas mudanças fortalecem práticas sustentáveis que passam a orientar todo o processo produtivo.

No consumo, o modelo circular altera a forma como o público escolhe produtos, valorizando impacto ambiental, origem dos materiais e destino final das embalagens (SILVA; BARROS, 2019). Esse comportamento pressiona empresas a se adaptarem e incentiva o surgimento de produtos mais duráveis. O consumo se torna expressão de valores ambientais e reforça práticas de descarte correto. Assim, reduz-se o volume de resíduos e amplia-se a cultura de responsabilidade ambiental.


Participação do resíduo plástico que é reciclado, por região, entre 2000 e 2019.


Fonte: Our World in Data (2024)

Como mostra o gráfico acima, apenas uma pequena fração do plástico produzido globalmente é reciclada, mesmo em regiões que apresentam políticas e infraestruturas mais avançadas. Isso demonstra que, apesar da mudança de percepção dos consumidores e da valorização crescente de práticas ambientalmente responsáveis, a reciclagem ainda opera em níveis muito inferiores ao necessário para enfrentar o volume crescente de resíduos.

Portanto, o gráfico evidencia os limites estruturais da economia reciclável quando depende exclusivamente da reciclagem, reforçando a necessidade de transformações mais amplas nos padrões de produção e consumo.

A partir desse cenário, torna-se necessário ampliar o debate para além das dimensões produtivas e de consumo. Como os fluxos de resíduos, os mercados de materiais reaproveitados e as políticas ambientais envolvem múltiplos países, o tema passa naturalmente ao plano internacional. É nesse ponto que a discussão ambiental se conecta às dinâmicas globais e às instituições multilaterais, permitindo compreender como o modelo circular se insere nas Relações Internacionais.

Ademais, nas Relações Internacionais, os impactos da economia reciclável podem ser analisados pelo Institucionalismo Liberal, especialmente na perspectiva de Robert Keohane. De maneira análoga, o teórico destaca o papel das instituições internacionais na cooperação entre países e crê que as mesmas são atores com capacidade de reduzir as incertezas e facilitam a cooperação internacional (KEOHANE, 1984).

Por conseguinte, questões como reciclagem, resíduos e fluxos de materiais reaproveitados ultrapassam fronteiras tornando-se uma temática global no qual exigem um regime internacional para ordenar o sistema internacional. Assim, instituições internacionais demonstram sua importância dentro deste processo adquirindo um papel de coordenadoras ao criar regimes e normas que orientam políticas sustentáveis e fortalecem a interdependência entre países.

Embora esse modelo sustentável melhore a qualidade urbana e estimule inovação, ele também revela limites importantes: a reciclagem por si só não altera o padrão de consumo excessivo nem a dependência de materiais de curto ciclo de vida (COSTA, 2021).

Ademais, as empresas ganham credibilidade ao adotar práticas sustentáveis, porém muitas ainda recorrem ao greenwashing, entendido como o uso estratégico de marketing verde sem mudanças reais nos processos produtivos, o que reduz a eficácia estrutural do modelo.

Em síntese, a economia reciclável revela-se um instrumento fundamental para repensar os rumos da produção e do consumo no século XXI. Ao reinserir materiais no ciclo produtivo, ela reduz custos, diminui a pressão sobre os recursos naturais e estimula novos padrões tecnológicos e organizacionais nas empresas.

Por isso, no campo do consumo, transforma percepções individuais e coletivas, promovendo escolhas mais conscientes e ampliando a responsabilidade ambiental dos cidadãos. No plano internacional, evidencia a necessidade de cooperação entre Estados e a atuação das instituições multilaterais.

Entretanto, embora esta estrutura de produção represente um avanço na busca pelo desenvolvimento sustentável, sua efetividade depende de transformações estruturais mais amplas, que integrem mudanças profundas nos modos de produzir, consumir e cooperar internacionalmente, somente com essa abordagem sistêmica será possível consolidar um modelo verdadeiramente sustentável e alinhado às exigências ambientais e sociais contemporâneas.

Referências:

COSTA, Mariana. Economia reciclável e inovação sustentável no Brasil. São Paulo: Atlas, 2021.

KEOHANE, Robert. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.

MENDES, Carla. Sustentabilidade e cadeias produtivas circulares. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2020.

OUR WORLD IN DATA. Plastic recycling rates are increasing, but slowly, in many regions. 2024. Disponível em: https://ourworldindata.org/data-insights/plastic-recycling-rates-are-increasing-but-slowly-in-many-regions

SILVA, João; BARROS, Helena. Consumo sustentável e comportamento ambiental do consumidor. Brasília: UnB Editora, 2019.