
Lucas Cardoso – Acadêmico do 6° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A Guerra Civil Espanhola (1936–1939) foi um dos conflitos mais marcantes do período entreguerras, refletindo as tensões ideológicas entre fascismo, comunismo e democracia liberal. Mais do que uma disputa interna, transformou a Espanha em um campo de testes para as potências que em breve se enfrentariam na Segunda Guerra Mundial. O conflito revelou a fragilidade das instituições internacionais e mostrou como crises domésticas podiam adquirir dimensões geopolíticas. Assim, tornou-se um marco nas Relações Internacionais ao evidenciar o entrelaçamento entre ideologia, poder e segurança (Graham, 2005).
O declínio do Império espanhol iniciou-se no século XVII, com crises econômicas, derrotas militares e a perda de colônias que reduziram sua influência global. No século XIX, a Espanha enfrentava instabilidade política e resistência às mudanças liberais, expressas nas Guerras Carlistas (1833–1876), entre absolutistas e liberais. A Guerra Hispano-Americana de 1898 marcou o colapso final do império, com a perda de Cuba, Porto Rico, Filipinas e Guam para os Estados Unidos. O “Desastre de 98” abalou o orgulho nacional e mergulhou o país em crise. No início do século XX, a Espanha buscava reconstrução interna, dividida entre tradição e modernização (Graham, 2005).
O rei Afonso XIII teve papel central na instabilidade política da Espanha nas primeiras décadas do século XX. Seu reinado foi marcado por crises sucessivas, insatisfação popular e fracassos na condução de políticas internas e externas, como a desastrosa Guerra do Rif, no Marrocos. Para conter a desordem social e o avanço das ideias republicanas e socialistas, o monarca apoiou o golpe militar de Miguel Primo de Rivera em 1923, instaurando uma ditadura que prometia restaurar a ordem e modernizar o país (Thomas, 2010).
A Revolução Russa de 1917 havia despertado o medo do comunismo entre as elites e militares espanhóis, enquanto a Crise de 1929 agravou a miséria e o desemprego, alimentando greves e movimentos populares. A economia fragilizada e a crescente polarização política criaram um ambiente de radicalização ideológica. Neste contexto, comunistas, socialistas e anarquistas ganharam força entre as massas, enquanto setores conservadores e católicos se aproximavam de ideais autoritários, vendo na repressão e na centralização do poder a única forma de preservar a ordem social (Beevor, 2007).
A abdicação do rei Afonso XIII, em 1931, encerrou a monarquia e deu início à Segunda República Espanhola, marcada por reformas e intensas divisões políticas. As mudanças que buscavam modernizar o país e limitar o poder da Igreja e do Exército provocaram forte reação conservadora. Neste contexto surgiu o movimento falangista, fundado em 1933 por José Antonio Primo de Rivera, inspirado no fascismo italiano e voltado à defesa da unidade nacional e do combate ao marxismo. Seu discurso autoritário rapidamente ganhou espaço no cenário de instabilidade que dominava a Espanha (Graham, 2005).
O general Francisco Franco ganhou destaque durante a instabilidade política dos anos 1930. Após a vitória da Frente Popular em 1936, setores conservadores e militares conspiraram contra a República, e Franco, conhecido por sua atuação no Marrocos, liderou o levante militar iniciado em julho, que se transformou em guerra civil após o fracasso do golpe em algumas regiões. Assumindo a liderança nacionalista, Franco consolidou seu poder em meio ao conflito. Em agosto de 1936, na Batalha de Badajoz, suas tropas tomaram a cidade após intensos combates e executaram milhares de prisioneiros republicanos, em um massacre que chocou o mundo (Beevor, 2007).
O episódio evidenciou a brutalidade do conflito e chamou a atenção da imprensa estrangeira, mas não resultou em uma ação internacional efetiva. As principais potências europeias, temendo a expansão da guerra e influenciadas por interesses políticos, adotaram uma política de não intervenção, limitando-se a condenações diplomáticas. Esta postura, no entanto, favoreceu os nacionalistas, que continuaram recebendo apoio militar da Alemanha nazista e da Itália fascista, enquanto os republicanos enfrentavam o isolamento internacional (Preston, 2006).
A União Soviética teve papel importante no apoio aos republicanos, enviando armas, aviões e conselheiros, além de organizar as Brigadas Internacionais com voluntários de vários países. Este auxílio, embora limitado e influenciado por interesses políticos de Moscou, foi essencial para sustentar a resistência republicana diante da superioridade militar dos nacionalistas e do apoio que estes recebiam da Alemanha e da Itália (Thomas, 2010).
As mulheres participaram ativamente em ambos os lados do conflito. No campo republicano, atuaram como milicianas, enfermeiras e líderes, simbolizando as conquistas da Segunda República, como o direito ao voto, maior acesso à educação e ao divorcio. Já entre os nacionalistas, seu papel foi voltado ao apoio religioso e familiar, refletindo os valores tradicionais defendidos por Franco. Mesmo interrompidos pela ditadura, esses avanços marcaram um importante passo na emancipação feminina na Espanha (Preston, 2006).
A Guerra Civil Espanhola foi marcada por extrema violência e repressão em ambos os lados. Execuções em massa, perseguições políticas e religiosas, bombardeios à civis e destruições de cidades inteiras, como Guernica, simbolizaram o terror vivido pela população. Tanto republicanos quanto nacionalistas recorreram à violência para eliminar opositores e consolidar o controle territorial, transformando o conflito em uma guerra total, onde o medo e a vingança se tornaram instrumentos políticos. Milhares de pessoas foram presas, torturadas ou mortas, deixando cicatrizes profundas na sociedade espanhola (Preston, 2006).
Nos momentos finais da guerra, entre 1938 e 1939, os nacionalistas de Franco avançaram sobre o território republicano, já enfraquecido pela escassez de recursos e pela falta de apoio internacional. As principais cidades republicanas caíram uma a uma, e em abril de 1939 Madrid se rendeu, encerrando oficialmente o conflito. A vitória nacionalista instaurou uma ditadura sob Francisco Franco, que duraria até 1975, marcada pela censura, perseguição política e reconstrução autoritária do Estado espanhol (Beevor, 2007).
A Guerra Civil Espanhola pode ser analisada sob o Liberalismo Institucional de Robert Keohane (1984), que destaca a importância de instituições internacionais fortes para promover cooperação e reduzir conflitos. O caso espanhol evidenciou o fracasso da Liga das Nações em mediar o confronto e impedir sua escalada. A política de não intervenção adotada por França e Reino Unido mostrou os limites da cooperação diante de interesses nacionais. Assim, sob a ótica de Keohane (198), a guerra reflete como a falta de instituições eficazes e de governança global favorece o isolamento dos Estados e o predomínio da força sobre a diplomacia.
Referências:
BEEVOR, Antony. A Batalha pela Espanha: a Guerra Civil Espanhola 1936–1939. Rio de Janeiro: Record, 2007.
GRAHAM, Helen. The Spanish Civil War: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press, 2005.
KEOHANE, Robert O. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy. Princeton: Princeton University Press, 1984.
PRESTON, Paul. The Spanish Civil War: Reaction, Revolution and Revenge. London: Harper Perennial, 2006.
THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
