Keity Oliveira, Pedro Henrique de Aviz e Stefany Campolungo, internacionalistas formados pela UNAMA

Ficha Técnica:

Ano: 2022

Direção: James Cameron

Gênero: Ficção Científica

Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures

País de Origem: Estados Unidos

O filme “Avatar – O Caminho da Água” conta a história de Jake Sully após 10 anos da Batalha de Pandora, a qual consistia no embate entre humanos e os Na’vi. A obra foca no relacionamento entre Ney’tiri e Jake, demonstrando suas inconstâncias na vida conjugal, além de desafios que ambos enfrentam na aldeia devido às suas atividades singulares dentro da dinâmica  da região.

O filme veio com a proposta de expandir e melhorar os aspectos elogiados no primeiro filme, sobretudo na parte gráfica. Apesar de não ter conseguido ser inovador como seu antecessor, a crítica, no geral, recebeu bem a continuação da obra, que faturou mais de 2 bilhões de reais e quebrou diversos recordes, o que demonstra a boa receptividade do público em relação à franquia. 

A teoria pós-colonial nas Relações Internacionais surgiu como uma crítica contundente ao eurocentrismo e às narrativas hegemônicas que estruturam o campo desde sua consolidação no pós-Segunda Guerra. Inspirada em autores como Edward Said, Gayatri Spivak, Homi Bhabha e Achille Mbembe, essa abordagem enfatiza como os impactos históricos do colonialismo seguem presentes nas formas contemporâneas de poder, saber e representação. 

A análise pós-colonial questiona a construção discursiva do “Outro”, revelando como populações não ocidentais são frequentemente reduzidas a estereótipos ou silenciadas. Ao mesmo tempo, evidencia a persistência da colonialidade do poder, que se manifesta por meio de relações desiguais de dominação econômica, apropriação cultural e imposição epistemológica, mesmo após o término formal dos impérios coloniais. Nesse sentido, a mídia, a literatura e o cinema tornam-se espaços centrais para compreender como certas hierarquias são naturalizadas ou contestadas na cultura global.

É justamente dentro desse enquadramento que Avatar: O Caminho da Água (2022), de James Cameron, oferece um terreno fértil para análise. A trama se desenrola anos após os eventos do primeiro filme, com Jake Sully e Neytiri vivendo em relativa harmonia com seus filhos e com o povo Na’vi. A paz, porém, é interrompida quando a corporação Resources Development Administration – RDA (Administração de Desenvolvimento de Recursos, em português) retorna a Pandora com um projeto de colonização ainda mais agressivo, impulsionado tanto pela destruição ambiental na Terra quanto pelo interesse econômico dos recursos naturais da lua. 

A narrativa acompanha a fuga da família Sully para o território dos Metkayina, um clã adaptado ao ambiente marinho, explorando de maneira intensa sua relação espiritual com o oceano e com os tulkuns, criaturas marinhas altamente inteligentes. À medida que a presença humana se expande, a violência ambiental, a exploração predatória e o uso militar da tecnologia intensificam o conflito entre Na’vi e colonizadores.

Sob uma perspectiva pós-colonial, o filme evidencia, de forma explícita, elementos centrais da lógica colonial moderna. A chegada da RDA a Pandora reproduz a racionalidade expansionista que historicamente marcou os projetos imperiais: ocupar terras consideradas “vazias”, transformar o ambiente em recurso e legitimar a própria presença por meio de discursos civilizatórios ou salvacionistas. 

A justificativa de que a humanidade precisa migrar devido ao colapso da Terra ecoa o mito histórico da missão civilizadora, que, em diferentes contextos, justificou a expropriação de povos indígenas e a devastação de ecossistemas inteiros. A violência estrutural imposta pelos humanos desde a caça industrial dos tulkuns até a imposição de bases militares, ilustra a colonialidade do poder, cujos mecanismos articulam exploração econômica, militarismo e negação da alteridade.

Ao mesmo tempo, o filme, embora crítico ao colonialismo, incorpora certas tensões típicas da representação hollywoodiana. Apesar de exaltar o protagonismo dos Na’vi, a narrativa ainda recorre a elementos que reforçam estereótipos do “bom selvagem”, retratando esses povos como intrinsecamente puros, espirituais e harmoniosos (Said, 1978). Da mesma forma, o protagonismo de Jake Sully mantém o padrão narrativo do estrangeiro que atravessa mundos e desempenha papel central na organização da resistência, o que reitera uma hierarquia simbólica problematizada por autores como Gayatri Spivak.

No entanto, a resistência dos Na’vi assume grande importância ao longo do filme e se articula com debates pós-coloniais sobre agência subalterna. A valorização da cosmologia indígena, visível na conexão com Eywa e na reciprocidade com a natureza, desafia epistemologias ocidentais que desqualificam saberes não científicos. O clã Metkayina, em especial, demonstra que formas alternativas de conhecimento baseadas em espiritualidade, cuidado e reciprocidade ecológica são não apenas legítimas, mas fundamentais para a sobrevivência coletiva. Essa valorização de epistemologias marginalizadas dialoga com os esforços pós-coloniais de recuperar narrativas silenciadas e questionar a hegemonia do pensamento ocidental moderno, conforme Bhabha (1994).

A transformação do coronel Quaritch em avatar, por sua vez, aprofunda o debate sobre apropriação colonial. Sua incorporação de um corpo Na’vi sem internalizar seus valores ou sua cosmologia representa uma forma de ocupação simbólica que se assemelha àquilo que pensadores pós-coloniais identificam como violência epistêmica: tomar elementos culturais do colonizado enquanto se nega sua humanidade e se instrumentaliza seu modo de vida (Spivak, 1988). A incapacidade dos humanos de reconhecer a complexidade cognitiva dos tulkuns é outro ponto relevante, pois evidencia como o colonizador tende a reduzir o Outro, humano ou não humano, a objeto de extração.

Por fim, a relação entre destruição ambiental e colonialidade é central na narrativa. A caça aos tulkuns e a devastação dos oceanos de Pandora remetem diretamente às formas reais de extrativismo que incidem sobre territórios colonizados ou periféricos, onde a vida local é comumente sacrificada em nome da lucratividade. Essa dimensão ecológica da colonialidade é discutida por autores como Achille Mbembe e Rob Nixon, que analisam como violências ambientais e socioeconômicas recaem de maneira desigual sobre povos historicamente subalternizados.

A partir de uma leitura pós-colonial, o filme de James Cameron não apenas retrata um conflito entre os povos, mas expõe as continuidades históricas da colonialidade na contemporaneidade: seja por meio da exploração ambiental, da imposição de narrativas hegemônicas ou da apropriação cultural praticada pelos humanos. 

Com certos limites característicos das grandes produções hollywoodianas, a centralização do herói estrangeiro e traços orientalistas na construção dos Na’vi, a obraabre espaço para a valorização de cosmologias alternativas, modos de vida não ocidentais e formas de resistência coletiva. A força dos Metkayina, o protagonismo dos povos de Pandora e a reciprocidade ecológica colocam o filme como um importante contraponto às lógicas extrativistas que estruturam tanto o enredo quanto as dinâmicas reais do sistema internacional. 

Ao articular críticas ambientais e as hierarquias coloniais, o filme dialoga diretamente com os debates pós-coloniais e reforça a importância da reimaginação das estruturas que moldam as percepções do “Outro” e do próprio planeta.

REFERÊNCIAS

BHABHA, Homi K. The Location of Culture. London: Routledge, 1994.

CAMERON, James. Avatar: The Way of Water. EUA: 20th Century Studios, 2022. Filme.

SAID, Edward W. Orientalism. New York: Pantheon Books, 1978.

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Can the Subaltern Speak? In: NELSON, Cary; GROSSBERG, Lawrence (orgs.). Marxism and the Interpretation of Culture. Chicago: University of Chicago Press, 1988.