Pedro Paes, acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais

Berta Isabel Cáceres Flores nasceu em 4 de março de 1971, em La Esperanza, Honduras. Desde jovem, ela foi influenciada pelo ativismo de sua mãe, uma enfermeira e líder comunitária que acolhia refugiados e lutava pelos direitos dos mais pobres. Crescendo em um ambiente de resistência e solidariedade, Berta desenvolveu uma consciência crítica sobre as injustiças sociais e ambientais que afetavam seu povo, especialmente os indígenas Lenca, dos quais fazia parte. Essa formação moldou sua trajetória como uma das mais importantes lideranças indígenas e ambientalistas da América Latina (Portal Assobiar, s.d.).

Na década de 1990, Berta ajudou a fundar o Conselho Cívico de Organizações Indígenas e Populares de Honduras (COPINH), uma entidade dedicada a proteger os direitos dos povos nativos, suas terras e os recursos naturais. Por meio do COPINH, ela conduziu protestos contra iniciativas exploratórias que colocavam em risco as áreas ancestrais do povo Lenca, como a construção de represas, atividades de mineração e o corte ilegal de árvores. O seu trabalho se caracterizou por unir o engajamento das comunidades, a colaboração global e a oposição não violenta.

Uma das passagens mais marcantes em sua trajetória de luta foi sua resistência à edificação da usina hidrelétrica de Agua Zarca, erguida sobre o rio Gualcarque, um local de grande significado espiritual para o povo Lenca. O empreendimento, bancado por corporações estrangeiras, foi alvo de críticas por ignorar o direito das comunidades nativas de serem consultadas previamente, como previsto na Convenção 169 da OIT. Berta encabeçou manifestações, organizou denúncias e obteve considerável apoio global, culminando na desistência de investidores cruciais do projeto.

O trabalho de Berta Cáceres a projetou globalmente. Em 2015, recebeu o Prêmio Goldman, tido como o “Nobel do Meio Ambiente”, por defender a natureza e os direitos dos povos nativos. Essa fama, porém, a colocou sob ameaças contínuas. Em 2 de março de 2016, ela foi morta em casa, um ato que chocou o mundo e mostrou os perigos que ativistas ambientais enfrentam na América Latina (Goldman Environmental, s.d.).

A sua morte não interrompeu sua batalha. Sua imagem se transformou em um ícone mundial da luta indígena e do meio ambiente. Grupos sociais, entidades de direitos humanos e ambientalistas seguem divulgando suas denúncias e cobrando justiça. O caso também intensificou discussões sobre o papel de empresas e bancos em iniciativas que desrespeitam direitos humanos e o meio ambiente (UOL, 2023).

Portanto, a relevância de Berta Cáceres ultrapassa as divisas de Honduras. Ela personifica a convergência entre a equidade para com o meio ambiente, os direitos dos povos originários e a autonomia das comunidades. Sua história demonstra de que maneira as contendas regionais se ligam a engrenagens mundiais de espoliação e opressão. Ao preservar o rio Gualcarque, Berta não unicamente salvaguardava uma área, mas igualmente confrontava um padrão de progresso alicerçado na apropriação indevida e na brutalidade.

A perspectiva decolonial, defendida por autores como Aníbal Quijano, apresenta um olhar perspicaz para entender a batalha de Berta Cáceres. Quijano sustenta que a persistência da colonialidade do poder, herança do colonialismo europeu, ainda se faz presente nas organizações sociais, financeiras e de conhecimento da atualidade. Essa colonialidade se mostra na imposição de um padrão de progresso ocidental, na desvalorização dos saberes nativos e na opressão dos povos originários. A decolonialidade, desse modo, sugere a quebra dessas ordens e a importância de outras maneiras de viver e de aprender (Quijano, 2005).

Dentro dessa visão, Berta Cáceres emerge como um símbolo de resistência decolonial. Sua luta transcendia a questão territorial, abraçando uma cosmovisão que celebra a conexão espiritual com o meio ambiente, a independência dos povos e a busca pelo bem-estar coletivo. Ao enfrentar o extrativismo e expor a violência arraigada contra os indígenas, Berta questionava a racionalidade colonial do capital e do avanço. Sua jornada e herança personificam a decolonialidade em prática, uma revolta contra a colonialidade do poder e uma declaração de futuros alternativos viáveis.

REFERÊNCIAS:

GOLDMAN ENVIRONMENTAL PRIZE. Berta Cáceres – Goldman Environmental Prize. Disponível em: https://www.goldmanprize.org/recipient/berta-caceres/. Acesso em: 7 dez. 2025.

PORTAL ASSOBIAR. Berta Cáceres: ativista ambiental e líder indígena. Disponível em: https://portalassobiar.com.br/destaque-01/berta-caceres-ativista-ambiental-e-lider-indigena/. Acesso em: 7 dez. 2025.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 1, n. 45, p. 117–131, 2005.

UOL ECOA. Conheça Berta Cáceres, ativista morta por lutar por indígenas de Honduras. 30 abr. 2023. Disponível em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2023/04/30/conheca-berta-caceres-ativista-morta-por-lutar-por-indigenas-de-honduras.htm. Acesso em: 7 dez. 2025.