Keity Oliveira e Lara Lima (Internacionalistas formadas pela UNAMA)

A Vila da Barca, situada em Belém do Pará, constitui um dos espaços urbanos que melhor revelam as permanências da lógica colonial na Amazônia contemporânea. Sua formação, marcada pela ocupação de ribeirinhos que buscavam proximidade com o rio e alternativas de moradia frente ao avanço desordenado da urbanização, expressa não apenas um fenômeno socioeconômico, mas sobretudo uma estrutura histórica que condiciona quem tem direito à cidade e sob quais condições esse direito se efetiva.

Ao longo do século XX, conforme Dias (2025), a cidade expandiu-se de modo profundamente desigual, reservando às populações negras, pobres e oriundas de tradições ribeirinhas as margens físicas e simbólicas do espaço urbano, ao passo que os investimentos públicos foram sistematicamente canalizados para regiões valorizadas e destinadas às elites econômicas.

Nesse processo, a Vila da Barca consolidou-se como uma representação concreta do racismo estrutural presente nas dinâmicas de produção da cidade, pois a precarização de seus habitantes não é ocasional, mas consequência direta de políticas de planejamento que naturalizam a desigualdade e reproduzem hierarquias raciais herdadas da colonização, como observam análises recentes sobre o tema.

Compreender a situação da Vila da Barca requer, portanto, mobilizar o conceito de racismo estrutural, que descreve um conjunto de práticas e mecanismos institucionais que distribuem oportunidades e vulnerabilidades de maneira desigual.

Essa perspectiva evidencia como a ocupação de áreas de risco e a exclusão de determinados grupos do acesso ao saneamento básico, à infraestrutura e aos equipamentos públicos não foram eventos circunstanciais, mas expressões de um modelo de urbanização que nunca reconheceu esses sujeitos como parte legítima do projeto de cidade, conforme Bullard (2005).

A associação histórica entre pobreza, negritude e espaços socialmente desvalorizados consolidou uma imagem de naturalidade da precariedade, frequentemente mobilizada para justificar a ausência de investimentos públicos nas comunidades de palafitas.

Nesse viés, a própria existência da Vila da Barca enquanto área negligenciada, conforme Dias (2025), torna evidente que o racismo estrutural se corporifica no território e produz desigualdades concretas, tangíveis e cotidianas, que repercutem na vida dos moradores de modo profundo e persistente.

A essa dinâmica se soma o racismo ambiental, entendido como a exposição desproporcional de comunidades vulnerabilizadas aos impactos negativos do ambiente e ao descaso das políticas públicas de infraestrutura e saneamento. A Vila da Barca, como uma das maiores áreas de palafitas da América Latina (Vilela, 2025), é afetada diariamente pela ausência de coleta de esgoto, abastecimento regular de água e manejo adequado de resíduos, que se acumulam sob as casas e se misturam ao movimento das marés.

Os moradores convivem com doenças relacionadas à insalubridade e com riscos estruturais constantes. Essas condições são frequentemente interpretadas de maneira naturalizada pelo poder público, mas análises críticas demonstram que se tratam de produtos diretos de políticas urbanas seletivas (Dias, 2025), que reforçam desigualdades raciais e socioambientais.

A preparação de Belém para sediar a COP30 tornou ainda mais visíveis tais contradições. A instalação de uma estação elevatória destinada a transportar e tratar o esgoto proveniente de uma área nobre da cidade, direcionando parte desse fluxo para a Vila da Barca, sem consulta prévia à população, despertou protestos e denúncias públicas de racismo ambiental, conforme reportagem do Brasil de Fato (2025).

Para os moradores e movimentos sociais, essa decisão é expressão clara das hierarquias raciais e territoriais que organizam o espaço urbano: enquanto regiões privilegiadas são protegidas e requalificadas, a comunidade é novamente posicionada como destino final dos impactos negativos da urbanização. A queda de casas na comunidade durante o período da COP30, amplamente noticiada (Amorim, 2025), reforçou a percepção de negligência, demonstrando que, mesmo diante de visibilidade internacional, as condições de vida da Vila da Barca permanecem ignoradas pelo Estado.

Essas práticas remetem ao conceito de colonialidade urbana, que descreve a persistência de estruturas e imaginários coloniais na organização das cidades contemporâneas. Em Belém, essa colonialidade manifesta-se tanto na distribuição desigual da infraestrutura quanto na representação simbólica dos territórios. A separação entre “cidade formal” e “cidade invisível” (Dias, 2025), que marca a experiência urbana de Belém, revela como hierarquias raciais se inscrevem no espaço e definem quais áreas são dignas de valorização e quais são tratadas como descartáveis.

A proximidade física entre a Vila da Barca e regiões nobres, como a área da Nova Doca, evidencia que a divisão territorial não é geográfica, mas política e racial. Além disso, discursos que caracterizam a comunidade como “problema urbanístico” ou “área de risco” cumprem papel importante na manutenção da desigualdade, pois despolitizam a precariedade e responsabilizam os moradores por condições estruturais historicamente produzidas.

Nesse sentido, pensar a Vila da Barca exige ir além da compreensão tradicional de vulnerabilidade urbana. Trata-se de reconhecer que a desigualdade observada é produto direto de um processo histórico de exclusão, que combina negligência estatal, políticas urbanas excludentes e uma lógica racial que atravessa a formação da cidade.

Superar essa realidade implica promover políticas urbanas baseadas em justiça socioambiental, participação comunitária e reparação territorial. Isso inclui assegurar que moradores participem das decisões sobre o futuro da comunidade e garantir investimentos públicos duradouros que enfrentam não apenas a dimensão material da precariedade, mas também suas dimensões simbólicas e políticas.

A luta da Vila da Barca, portanto, não é apenas por saneamento ou habitação, mas por dignidade, reconhecimento e cidadania plena.

Em síntese, a Vila da Barca revela não apenas uma disputa por território, mas também uma disputa por existência e reconhecimento em uma cidade marcada por desigualdades historicamente produzidas. Romper com a lógica colonial que persiste na definição de quem pode viver com dignidade e quem é condenado à margem exige ação efetiva do poder público e engajamento da sociedade civil. Defender a Vila da Barca, portanto, é defender a construção de um futuro urbano verdadeiramente justo, plural e democrático, no qual todos tenham direito à cidade em sua plenitude.

A situação vivida cotidianamente na Vila da Barca é apenas mais um retrato ampliado de inúmeros outros territórios urbanizados sob lógicas semelhantes de exclusão estrutural. Segundo Pedro Vilela, da Agência Brasil (2025), essas comunidades enfrentam dinâmicas que repetem o mesmo padrão de ausência deliberada de investimentos, estigmatização social, criminalização da pobreza e políticas públicas que reforçam vulnerabilidades em vez de superá-las. Trata-se de uma problemática que ultrapassa fronteiras locais e ecoa não apenas na Amazônia, mas em diferentes contextos urbanos do mundo.

Diante do exposto, recomendamos o documentário “Oh Vila da Barca” (2024), dirigido por Júnior Braga. A obra retrata mais de um século de resistência dessa comunidade localizada na Baía do Guajará, em pleno centro de Belém, e reconstrói sua história a partir das vozes dos moradores, de suas memórias e lutas cotidianas. O filme evidencia como a Vila da Barca não apenas resiste às pressões urbanísticas e aos processos de invisibilização, mas também afirmar sua identidade coletiva, suas práticas culturais e seu direito à cidade.

<https://www.youtube.com/watch?v=c5QGt-otEF4>

Além disso, recomenda-se a websérie “Racismo Ambiental: Terras, Territórios, Tecnologias”, (2023), realizada pelo Instituto de Referência Negra Peregum Uneafro Brasil. O filme expõe como o abandono histórico do poder público às comunidades racializadas amplia os efeitos das mudanças climáticas no Brasil. A narrativa se desenvolve a partir das experiências de quem vive diretamente os desastres socioambientais, trazendo à tona suas percepções e trajetórias.

<https://www.youtube.com/watch?v=NOwJ9CatLmI>

Também recomendamos o site da Vila da Barca, que reúne a história da comunidade, os projetos desenvolvidos ao longo dos anos e as iniciativas que fortalecem a luta por direitos e reconhecimento. A plataforma disponibiliza registros essenciais sobre o processo de ocupação, a memória coletiva, as ações culturais e as mobilizações políticas que moldaram a trajetória da Vila.

Site: <https://share.google/lhYIrhW5DyGm8n17N>

Instagram: <https://www.instagram.com/viladabarca?igsh=ZnhwODB3a204MHEy

REFERÊNCIAS

AMORIM, Cecília Alves. Em Belém, cidade-sede da COP30, 10% da população vive em risco de inundações e alagamentos em meio ao crescimento urbano desordenado. Infoamazônia. Publicado em: 01 de julho de 2025. Disponível em: < https://infoamazonia.org/2025/07/01/em-belem-cidade-sede-da-cop30-10-da-populacao-vive-em-risco-de-inundacoes-e-alagamentos-em-meio-ao-crescimento-urbano-desordenado/ > Acesso em: 07 de dezembro de 2025.

BULLARD, R. D. Dumping in Dixie: Race, Class, and Environmental Quality. Westview Press, 2005.  

DIAS, Alciane Carvalho. Externalização da degradação: racismo ambiental, segregação urbana e a violação de direitos na Vila da Barca, Belém (PA). INTERNACIONAL DA AMAZÔNIA. Publicado em: 21 maio 2025. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2025/05/21/externalizacao-da-degradacao-racismo-ambiental-segregacao-urbana-e-a-violacao-de-direitos-na-vila-da-barca-belem-pa/.

VILELA, Pedro Rafael. COP30: Vila da Barca, em Belém, expõe desafios da justiça climática. Reportagem Agência Brasil. Publicado em: 19 de novembro de 2025. Disponível em: < https://agenciabrasil.ebc.com.br/meio-ambiente/noticia/2025-11/cop30-vila-da-barca-em-belem-expoe-desafios-da-justica-climatica > Acesso em: 07 de dezembro de 2025.