
Victor Oliveira – internacionalista formado pela UNAMA
Não se sabe, ao certo, de onde veio a expressão “a esperança é a última que morre”. Repetida como um mantra, acredita-se que seja um amálgama de tradições, sofrendo influências da religião, do teatro grego e de correntes filosóficas. Embora as Relações Internacionais se ocupem da análise do sistema internacional e das dinâmicas de poder dentro da sociedade internacional, as análises de Relações Internacionais guardam um toque de “a esperança é a última que morre.”
Ao término do ano de 2025, continuamos observando problemas que tínhamos há alguns anos. Alguns, parecem ter uma solução temporária, como o conflito na Faixa de Gaza, ou até mesmo o imbróglio entre Rússia e Ucrânia. Para além desses, é preciso ver questões que as Relações Internacionais se debruçam com mais atenção – e lançar luzes sobre questões que são sumariamente omitidas.
2026 será um ano de decisões muito importantes, e do desdobramento de ações de anos anteriores. Em termos gerais, eleições no Brasil, Israel, Alemanha, Canadá e as midterm elections nos Estados Unidos podem indicar modificações profundas na geopolítica. Além disso, é preciso prestar atenção aos possíveis planos de paz na Ucrânia e o futuro da Faixa de Gaza.
O aumento das tensões no Mar do Sul da China podem envolver outros atores e colocar Beijing numa posição mais bélica. O Japão, por sua vez, vem mostrando que não abrirá mão do uso da força caso seja necessário. Nas Américas, a presença estadunidense cada vez mais forte ameaça a estabilidade – se é que podemos falar de tal – no Mar do Caribe e na América do Sul. Na Europa, questões econômicas e sociais podem ser o combustível para alimentar mais a chama de grupos extremistas que se mostram presentes no cenário político regional.
Ao mesmo tempo, discussões sobre energia sofrem um desdobramento paradoxal. Por um lado, discute-se, como a COP bem mostrou, a urgência de transformações que aliem as boas práticas ambientais ao desenvolvimento econômico; e observa-se que o aumento do uso de IAs exige um esforço energético para o qual o mundo ainda não tem respostas claras. Soma-se a isso as futuras e atuais extrações de petróleo em áreas de ecossistemas sensíveis e temos uma conta que, simplesmente, não fecha.
Ainda pode-se ver mais ataques a regiões onde há reatores nucleares na Ucrânia e Rússia. No rol de eventos possíveis e que não são amplamente divulgados, um redesenho da África pode desencadear mais instabilidade e, consigo, uma nova leva de fluxos migratórios forçados. Esse ponto, inclusive, é um dos quais mais será discutido na agenda interna da Europa, que pode dar vazão a mais grupos extremistas.
Diante de todos esses pontos, que podem tornar 2026 um ano de decisões muito importantes, pode-se questionar: onde está o multilateralismo? Talvez uma resposta coordenada de instituições possa indicar caminhos, mas a voz do unilateralismo parece virar um coro. Ainda assim, o multilateralismo parece ser a tônica de grupos já não-tão emergentes, como os BRICS, mas que escondem os reais interesses de países em determinadas situações – nas quais parecem agir contrariamente ao que propagam em fóruns de discussão internacional.
Ainda que 2026 prometa ser um ano decisivo, as Relações Internacionais precisam prevalecer como um campo que indica caminhos e desvenda outros. Esta é uma ciência que surgiu para entender por que se faz guerra – e ainda são feitas. O sonho de Paz Perpétua de Kant ainda é evocado quando os Estados querem. O Direito Internacional Humanitário parece perder o timing de discussões sangrentas e duradouras. Não se sabe, todavia, se a solução virá do multilateralismo. Mas a resolução de problemas, certamente, terá que vir daí.
Por isso, a esperança é a última que morre bem que poderia ser: A guerra é a continuação da política por outros meios.
