
Tiago Callejon Santos – Internacionalista formado pela Universidade da Amazônia
A virada de um ano velho para um novo sempre gera consigo novas perspectivas para o futuro e, com isso, gera-se animosidades, esperanças, estabelecimentos de metas e a realização de sonhos e conquistas das pessoas comuns. Naturalmente, esta realidade não reverbera apenas no âmbito pessoal ou singular de cada pessoa, mas também em âmbitos mais complexos e macroscópicos, como na área de Relações Internacionais a partir da realidade dos Estados, das Organizações Internacionais e da Sociedade Civil, além de outras perspectivas de grandes relevâncias.
O Sistema Internacional está sempre em movimento e, portanto, uma vez que as suas dinâmicas não estão passíveis à estagnação, compreende-se que novos modelos de dinamismo estarão sempre cabíveis às realidades sensíveis que reverberam os humanos e os componentes do Cenário Global das Relações Internacionais, sejam elas as realidades econômicas, políticas, geopolíticas, militarismo, os esportes, as territorialidades, o ambientalismo, a luta de classes e assim por diante (Immerse Education, 2025).
Tratando-se especificamente dos esportes, segundo o portal The Traveller(2026), para 2026 estão previstos mais de 23 eventos esportivos de grande relevância e estrutura, configurando um calendário extremamente denso e volumoso, superando até mesmo anos anteriores em termos de volume de competições, com destaque para: os jogos olímpicos de inverno em Milão, o final da Liga dos Campeões da Europa, em Budapeste, o Super Bowl, nos EUA, e, é claro, a grande e maior competição esportiva de todo o Planeta, a Copa do Mundo de Seleções da FIFA, que ocorrerá nos Estados Unidos.
Sobre a Copa do Mundo de Seleções da FIFA, inicialmente, é importante ressaltar que se trata do maior e principal evento de futebol do mundo, tendo a sua primeira edição ocasionada em 1930, no Uruguai, perpetuando até os dias atuais, onde irá estabelecer a sua 23° edição da competição em 2026, nos EUA, Canadá e México (Lucki, 2025). Em segunda ordem, a Copa do Mundo é vista como a maior competição esportiva do mundo devido ao seu grande prestígio e engajamento mundial, refletindo em números assustadores de movimentação de direitos econômicos e visibilidade que nenhuma outra competição possui.
A exemplo, Burton (2025) expõe que a audiência da Copa do Mundo masculina de Seleções, em sua última edição, possuiu uma audiência de 5 bilhões de indivíduos, enquanto a segunda competição – demonstrad no mesmo gráfico informativo – deteve uma audiência de 3,5 bilhões de pessoas. Outrossim, segundo o portal Inside FIFA (2022), a final da última Copa do Mundo, entre Argentina e França, demonstrou um pico máximo de 1,5 bilhões de pessoas assistindo, um aumento considerável à edição anterior, de 2018, onde o pico máximo de visualizadores fora de 1,12 bilhões de pessoas, portanto, mostrando a excessiva e crescente força desta competição como tal, com foco na grande, decisiva e derradeira partida do torneio.
Por ser uma competição tão grandiosa e prestigiada, a Copa do Mundo de Seleções acaba por ocasionar influências em outros contextos constituintes da realidade sensível e perene das coisas, sobretudo em âmbitos da política e da geopolítica, os quais estão passíveis à polêmicas e controvérsias.
É o caso, por exemplo, do que ocorreu no sorteio da Copa do Mundo, em 05 de dezembro de 2025, onde o então presidente dos EUA, Donald Trump, recebeu o inédito prêmio de “Prêmio da Paz da Fifa”, pelos seus esforços e contribuições ao cessar-fogo temporário entre Israel e Gaza (BBC News, 2025). Tal fato fora visto sob muitas polêmicas e controvérsias, tendo em vista que o mesmo presidente é comumente associado à falas, descrições e padrões comportamentais conturbados, os quais não zelam pela paz dos povos e dos territórios.
Esse acontecimento torna-se ainda mais cômico e paradoxal quando se observa o que a FIFA e a UEFA fizeram com a Rússia em 2022. Devido aos desdobramentos da guerra russo-ucraniana e, obviamente, da invasão russa ao território ucraniano, a Rússia fora banida de realizar partidas amistosas oficiais e de participar de competições internacionais da futebol que são geridas pelas duas entidades, além de receber a punição da não participação dos times russos em competições oficiais destas duas delegações, conforme demonstra Martins (2025), sob o pretexto de estar prejudicando a paz e a boa relação entre os povos que poderiam estar unidos sob o pretexto do futebol.
E, como se já não bastasse tudo isso, para tornar tudo ainda mais incoerente e alheio à realidade, no dia de 03 de janeiro de 2026, os EUA, sob os comandos de Donald Trump, realizaram uma intervenção militar na Venezuela, transgredindo e rasgando as definições estabelecidas das bases fundamentais do Sistema Internacional moderno dos Estados soberanos, definidos desde o Tratado de Westfália em 1648. Ademais, neste referido Tratado foram constituídos pilares substanciais do Direito Internacional e das Relações Internacionais, como a Igualdade Jurídica, a Autopreservação dos Povos, a Soberania Estatal e a Não Intervenção (Fratantonio, 2003)
Sob a interpretação destes acontecimentos à luz das Relações Internacionais, torna-se viável e apropriado citar o Construtivismo Social definido por Alexander Wendt. Em sua obra “Social Theory of International Politics (1999)”, o autor afirma, em várias linhas, que as regras e as normas não operam de maneira automática, mas são socialmente construídas, aplicadas e interpretadas conforme as sociedades as observam e as definem. Estas mesmas regras e normas passam por processos orgânicos de evolução e construção analítica, chegando ao estabelecimento de uma conclusão final. Portanto, as identidades, os interesses e as relações de poder são moldadas conforme vão surgindo estas configurações socialmente construídas, o que reverbera no âmbito geral das Relações Internacionais, influenciando os vários organismos que compõem o mesmo.
Desta forma, o Construtivismo Social está perfeitamente em acordo com as temáticas gerais propostas nas exemplificações deste artigo, uma vez que, conforme já demonstrado, o Sistema Internacional é dinâmico e as Normas estipuladas no Direito Internacional – como a paz, a soberania e não intervenção – são aplicadas e interpretadas de maneira socialmente construída, portanto, as ações da FIFA, dos Estados e da mídia comum agem com base em significados compartilhados, não somente em regras fixas, e é por isso que se observa uma punição aplicada à Rússia pela FIFA, mas não se observa uma mesma aplicação de sanção aos EUA, os quais foram legitimados, de maneira simbólica, junto da figura de Donald Trump, com o prêmio de “Prêmio da Paz da Fifa”.
A pergunta que permanece, portanto, é esta: será se tal como a Rússia, os EUA também serão devidamente punidos de participar destas competições internacionais e a Copa do Mundo deixará de ser sediada nos Estados Unidos? Aparentemente não, pois até o momento não houve nenhuma definição ou aviso prévio por parte da Fifa em possíveis sanções aos EUA, e nem aparenta ter para o mais tardar, o que torna tudo mais incoerente e vexatório.
Bom, opiniões e polêmicas à parte, o fato é que o ano de 2026 será um grande ano para a história da humanidade no que concerne o âmbito dos esportes internacionais, porque para além das grandes competições esportivas internacionais que irão movimentar e balançar todo o mundo e irão causar grandes doses de divertimento, os esportes estão comumente relacionados às políticas dos Estados e dos organismos que compõe o Sistema Internacional.
Como se observa, o campo de estudos de Relações Internacionais também se relaciona com a análise dos Esportes, pois possui reverberações políticas, econômicas, sociais e culturais, sendo dever de todo internacionalista analisar, compreender e estudar os fenômenos e os impactos que os esportes causam ao cenário internacional como um todo, e nisto estão incluídos as grandes competições, mas, é claro, de forma mais específica, a Copa do Mundo de Seleções, o maior de todos os eventos.
Referências:
THE TRAVELLER. OS PRINCIPAIS EVENTOS ESPORTIVOS DE 2026. Portal The Traveller; Brasil, 2026. Disponível em https://thetraveller.com.br/os-principais-eventos-esportivos-de-2026/ Acesso em: 03 de jan. 2026.
LUCKI, Fernanda Zalcman. Calendário das principais competições de esportes Olímpicos de 2026: veja a agenda. Portal Olympics – PT. Publicado em 28 de dezembro de 2025, Brasil. Disponível em https://www.olympics.com/pt/noticias/calendario-principais-competicoes-esportes-olimpicos-2026 Acesso em: 03 de jan. 2026.
BURTON, Chris. Super Bowl, Copa do Mundo ou Liga dos Campeões – qual evento tem maior audiência no planeta?; Portal Goal. Publicado em 03 de fevereiro de 2025. Disponível em https://www.goal.com/br/notícias/super-bowl-copa-do-mundo-ou-liga-dos-campeoes-qual-evento-tem-maior-audiencia-no-planeta/blte4afd89eb81e1148 Acesso em: 03 de jan. 2026.
FIFA. In numbers – Fifa World Cup Qatar 2022; Portal Inside FIFA. Disponível em https://inside.fifa.com/tournament-organisation/world-cup-2022-in-numbers Acesso em: 03 de jan. 2026.
BBC News Brasil. O prêmio da paz criado pela FIFA é concedido a Trump em sorteio da Copa do Mundo. BBC News Brasil. Publicado em 5 de dezembro de 2025. Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cj4qe1y9eqvo Acesso em: 03 de jan. 2026.
MARTINS, Leonardo. Saiba por que a Rússia está proibida pela Fifa de disputar competições. CNN News Brasil. Publicado em 07 de maio de 2025. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/futebol-internacional/saiba-por-que-a-russia-esta-proibida-pela-fifa-de-disputar-competicoes/ Acesso em: 03 de jan. 2026.
FRATANTONIO, Raquel Perini. A Soberania e o Mundo Globalizado. Portal Jus.com.br, Brasil; Publicado em 17 de setembro de 2003. Disponível em https://jus.com.br/artigos/4325/a-soberania-e-o-mundo-globalizado?utm_source=chatgpt.com
What is a International System? Its Role in International Relations. Portal Immerse Education. Atualizado em 15 de novembro de 2025. Disponível em https://www.immerse.education/beyond-syllabus/international-relations/what-is-an-international-system-in-international-relations/
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge; New York: Cambridge University Press, 1999. Disponível em https://oa.mg/work/10.1017/cbo9780511612183?utm_source=chatgpt.com
