Lucas Cardoso – Acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial representou um marco decisivo na história política e internacional do país. Ao enviar a Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater na Europa, o governo de Getúlio Vargas buscou afirmar o Brasil no cenário internacional e fortalecer sua posição diplomática junto às potências aliadas. No entanto, a experiência da guerra produziu efeitos internos profundos, especialmente com o retorno dos pracinhas, que contribuíram para o desgaste e, posteriormente, para a queda do regime autoritário do Estado Novo (Fausto, 2015).

Durante as décadas de 1930 e início dos anos 1940, o Brasil vivia sob o Estado Novo (1937–1945), regime ditatorial instaurado por Getúlio Vargas, caracterizado pela centralização do poder, censura à imprensa e repressão política. Internacionalmente, o país adotava uma política externa pragmática, tentando equilibrar relações com os Estados Unidos e com a Alemanha nazista, buscando vantagens econômicas e industriais (Ferraz, 2005).

A eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, intensificou as pressões sobre o Brasil para que definisse sua posição no conflito. A importância estratégica do território brasileiro, especialmente do Nordeste, tornou o país fundamental para os interesses norte-americanos. Ao mesmo tempo, ataques de submarinos alemães a navios mercantes brasileiros, em 1942, provocaram forte comoção popular e enfraqueceram a política de neutralidade mantida até então (Cervo, 2011).

Durante o conflito, comunidades de imigrantes alemães, italianos e japoneses residentes no Brasil passaram a ser alvo de desconfiança e repressão por parte do Estado Novo. O governo Vargas implementou políticas de vigilância e controle cultural, como o fechamento de escolas estrangeiras, a proibição do uso de línguas não portuguesas em espaços públicos e a censura à imprensa comunitária. Muitos imigrantes sofreram prisões arbitrárias, perseguições e confiscos de bens, mesmo sem vínculo direto com o Eixo, o que evidenciou o caráter autoritário do regime e aprofundou tensões sociais no interior do país (Seyferth, 1999).

Em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra às potências do Eixo e passou a integrar oficialmente o bloco aliado. Esta decisão representou uma inflexão na política externa brasileira e fortaleceu a aliança com os Estados Unidos, resultando em apoio econômico, militar e tecnológico. A criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) foi um dos principais frutos dessa aproximação estratégica (Ferraz, 2005).

A Força Expedicionária Brasileira (FEB) foi criada em 1943 e enviada à Itália em 1944, reunindo cerca de 25 mil soldados. A FEB participou de batalhas decisivas, como Monte Castello, Montese e Fornovo di Taro, enfrentando condições climáticas severas, limitações logísticas e preconceito por parte de aliados. Apesar das dificuldades iniciais, os pracinhas demonstraram capacidade de combate e contribuíram para a vitória aliada na campanha da Itália (Maximiano, 2010).

Nos anos finais do conflito, o esforço de guerra intensificou contradições internas do Estado Novo. Enquanto o Brasil lutava contra os regimes totalitários na Europa, mantinha internamente um sistema político autoritário, sem eleições livres e com restrições às liberdades civis. Esta incoerência tornou-se cada vez mais evidente para militares, intelectuais e setores urbanos, ampliando as pressões por mudanças políticas  (Maximiano, 2010).

Com o encerramento da guerra em 1945, os pracinhas retornaram ao Brasil trazendo experiências adquiridas em sociedades democráticas e em ambientes politicamente plurais. O contato com valores como cidadania, liberdade de expressão e participação política contrastava fortemente com a realidade brasileira sob o Estado Novo, estimulando questionamentos ao regime vigente (Castro, 2012).

Os ex-combatentes passaram a integrar e fortalecer movimentos em defesa da redemocratização, da anistia política e da realização de eleições livres. Tornaram-se símbolos vivos da contradição do regime varguista, pois haviam combatido o fascismo no exterior enquanto permaneciam submetidos a um governo autoritário em seu próprio país, contribuindo para a perda de legitimidade do Estado Novo (D’araújo, 2000).

Em outubro de 1945, Getúlio Vargas foi deposto por um movimento político-militar que encerrou o Estado Novo. A experiência da guerra acelerou esse desfecho ao ampliar a mobilização social e evidenciar os limites do regime autoritário. A deposição de Vargas abriu caminho para a redemocratização, culminando na Constituição de 1946 e na retomada das instituições democráticas (Castro, 2012).

A atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial pode ser analisada a partir do Realismo Clássico, especialmente das ideias de Hans Morgenthau (2003). Segundo esta abordagem, os Estados agem com base em interesses nacionais e na busca por poder e segurança no sistema internacional. O alinhamento do Brasil aos Estados Unidos e o envio da FEB refletem uma estratégia de maximização de ganhos políticos, econômicos e militares. Contudo, o caso brasileiro também demonstra como decisões no plano internacional podem produzir impactos profundos na política doméstica, reforçando a interdependência entre política externa e estrutura interna do Estado.

Referências:

CASTRO, Celso. A volta do combatente: o retorno dos pracinhas e a redemocratização. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2012.

CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. 5. ed. Brasília: Editora UnB, 2011.

D’ARAÚJO, Maria Celina. O Estado Novo. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Edusp, 2015.

FERRAZ, Francisco César Alves. Os brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

MAXIMIANO, Cesar Campiani. Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: GRUA, 2010.

MORGENTHAU, Hans J. A política entre as nações: a luta pelo poder e pela paz. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003

SEYFERTH, Giralda. A política de nacionalização no Estado Novo. Rio de Janeiro: Museu Nacional, 1999.