Victtor Rodrigues Calderaro Pereira – internacionalista formado pela UNAMA

A Pan-Amazônia se estende por cerca de 40% da área continental da América do Sul,  é o bioma que possui a maior biodiversidade do planeta e que guarda sob suas imensas florestas, cuja cobertura vegetal concentra um potencial farmacêutico incalculável, concentrando cerca de 30% da disponibilidade mundial de água doce (BRASIL, 2020b). 

Além disso, seu subsolo abriga grandes reservas de minérios e de terras raras, o que a torna uma fonte de poder relativo e atrativa a cobiça de nações estrangeiras, fomentando um grande interesse em monopolizar a exploração de suas riquezas naturais. 

O Brasil é o país que exerce domínio sobre a maior parte do Bioma Amazônico, detém cerca de 70% do tamanho total da Amazônia, fato que lhe impõe a necessidade de manter capacidades militares adequadas para assegurar sua soberania sobre esse ativo extremamente cobiçado (BRASIL, 2020b). 

Internamente, a Amazônia Legal — termo cunhado pelo Governo Brasileiro para permitir uma melhor gestão dos projetos de integração e desenvolvimento regional — é a área que corresponde a extensão do bioma amazônico e que compõe cerca de 60% do território nacional, estendendo-se por nove estados brasileiros, como: Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Acre, Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão (BRASIL, 2020b). 

A enorme extensão territorial da Amazônia brasileira, sua baixa densidade demográfica e as dificuldades de mobilidade na região, bem como seus recursos minerais, seu potencial hidroenergético e a valiosa biodiversidade que abriga, exigem a efetiva presença do Estado, com vistas à sua defesa e à sua integração com as demais regiões do País, contribuindo para o desenvolvimento nacional (BRASIL, 2020a, Item 2.2.11).

Desde a década de 1960, o Brasil tem buscado impor sua presença militar na Amazônia, a partir da expansão da quantidade de organizações militares destacadas no bioma e da criação de centros para instrução de militares, com especialização em combate em ambiente de Selva (BRASIL, 2024). A partir das diretrizes apresentadas pela Estratégia Nacional de Defesa e Política Nacional de Defesa, assim como pelo Livro Branco da Defesa Nacional, ambos elaborados pelo Ministério da Defesa, o país busca continuamente reafirmar sua posição soberana sobre  a região. 

A análise da soberania brasileira ganha profundidade quando contrastada com as vertentes Ofensiva e Defensiva da teoria Neorrealista das Relações Internacionais, inclusive, tendo em vista que historicamente a corrente Defensiva tem norteado a política de defesa do nacional, desde o período da redemocratização. 

Com relação a desestabilização e a perda de soberania, é possível compreender, a luz do neorrealismo, diversos aspectos importantes em torno do comportamento dos Estados e do Modus Operandi utilizado por Hegemonias Regionais para consumar suas intenções em subjugar Estados com menores capacidades de projeção de poder, como é o caso brasileiro, diante da característica Anárquica do Sistema Internacional.

Sobre esse fato, a partir da visão apresentada pelo professor Kenneth Waltz, sob o campo do Neorrealismo Defensivo, argumenta-se que os Estados buscam incessantemente sobreviver à anarquia sistêmica, logo, seu apelo prioritário não diz respeito à necessidade de acúmulo imediato de poder, mas sim manter sua posição na arena de disputas internacionais (WALTZ, 2001). Além disso, Waltz assegura que as principais causas de Guerra podem ser analisadas a partir do componente humano, é a natureza humana que influencia a racionalidade estratégica dos Estados e as suas inclinações para a guerra (CASTRO, 2012).

Desse modo, como política de Estado, o Brasil destina seu poderio militar exclusivamente para a defesa territorial e para a manutenção de sua soberania, por rejeitar categoricamente o caráter beligerante e, invariavelmente, imperialista em torno da anexação de novos territórios e da projeção de poder sobre as regiões de influência. 

Por outro lado, a corrente Neorrealista Ofensiva, preconizada pelo teórico John Mearsheimer (2001), afirma que para além da necessidade de sobreviver à condição anárquica, os Estados buscam o aumento de seu poder-relativo para alcançarem o status de Hegemonia Regional, fato que diverge da cosmovisão de Waltz (GUIMARÃES, 2021). Nesse sentido, o Sistema Internacional, enquanto arena anárquica de disputas, tende a encorajar os estados a buscarem oportunidades para maximizar seu poder em relação aos demais estados (MEARSHEIMER, 2001).

A vertente ofensiva, apesar de carregar enormes críticas relacionadas a sua concepção, que mistura preceitos imperialistas e intervencionistas, é amplamente utilizada por grandes potências, como os Estados Unidos e a Rússia, por exemplo, para movimentarem o tabuleiro geopolítico de suas zonas de influência e exercer domínio sobre Estados menores. 

Essas interferências políticas e militares em países adjacentes aos seus territórios, ou em seus backyards, visam impedir o crescimento de nações que possam representar riscos à sobrevivência da potência ou a criação de alianças que possam enfraquecer seu poder-relativo, o que limitaria o acesso dessas potências a territórios, matérias primas e recursos.

Um fato recente, sem precedentes na América do Sul, foi a recente invasão norte-americana ao território venezuelano, um país país vizinho ao Brasil e uma nação igualmente amazônida, sob o pretexto do combate ao tráfico internacional de drogas, que tinha por finalidade a derrubada do Governo ditatorial de Nicolás Maduro e culminou em sua extração e posterior encarceramento em uma penitenciária em Nova Iorque (BROOKS, 2026). 

Claramente, a intenção norte-americana, data ênfase nos aspectos neorrealistas, visava a desestabilização geopolítica regional, o acesso facilitado às reservas de petróleo, a prioridade na exploração de outras fontes de riqueza abundantes no país e a deposição de um governo que estava alinhado a potências rivais, que minavam a influência dos estadunidenses na região.

Por fim, para o Brasil, o episódio venezuelano altera a percepção de risco no entorno estratégico da Amazônia. Se o Neorrealismo Defensivo prega a busca pelo equilíbrio de poder regional, a presença de uma potência exógena operando militarmente na fronteira amazônica desestabiliza esse balanço. O reaparelhamento da capacidade de defesa brasileira, portanto, deixa de ser apenas uma questão de segurança territorial para tornar-se uma questão de sobrevivência.

O desafio brasileiro, diante da anarquia sistêmica, é manter sua postura defensiva sem parecer vulnerável às pretensões ofensivas de outros Estados. Nesse caso,  torna-se necessário dissociar a imagem de uma Amazônia compreendida como “patrimônio da humanidade” e “pulmão do mundo”, para defender a ideia de uma Amazônia indivisível e brasileira.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Ministério da Defesa. Política Nacional de Defesa e Estratégia Nacional de Defesa: PND e END 2020. Brasília: Ministério da Defesa, 2020a. 

BRASIL. Ministério da Defesa. Livro Branco de Defesa Nacional. Brasília: Ministério da Defesa, 2020b.

BRASIL. Exército Brasileiro. A história do Centro de Instrução de Guerra na Selva. 2024. Disponível em:<https://cigs.eb.mil.br/institucional/o-cigs&gt;. Acesso em: 3 jan. 2026. 

BROOKS, Darío. Hora a hora, como foi a operação que capturou Maduro, segundo os EUA. BBC News Mundo, 3 jan. 2026. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/articles/cwy81524g39o>. Acesso em: 3 jan. 2026.

CASTRO, Thalles. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: FUNAG, 2012.

GUIMARÃES, Feliciano Sá. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Contexto, 2021. 

MEARSHEIMER, John. The Tragedy of Great Power Politics. Norton, 2001. 

WALTZ, Kenneth. Man, The State and War: a theoretical analysis. New York: Columbia University Press, 2001.