Thaís Carvalho, internacionalista formada pela UNAMA

A violência contra a mulher configura-se como um fenômeno estrutural, profundamente enraizado em relações históricas de desigualdade de gênero, que atravessa fronteiras culturais, políticas e econômicas. Conforme aponta Engel (2020), a discriminação e a violência de gênero acompanham, infelizmente, as mulheres ao longo de todo o ciclo de vida, manifestando-se desde a infância até a velhice, comprometendo o acesso a direitos fundamentais e inviabilizando, em muitos casos, a garantia de condições mínimas para uma vida digna.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2025, mais de 800 milhões de mulheres foram vítimas de algum tipo de violência em escala global, das quais 316 milhões sofreram violência perpetrada por parceiros íntimos e 263 milhões por indivíduos desconhecidos (Laboissière, 2025). Esses dados evidenciam a magnitude e a complexidade do fenômeno, revelando uma realidade persistente que afeta mulheres em diferentes contextos sociais e culturais e demonstra que a violência de gênero ultrapassa o âmbito doméstico, configurando-se como um grave problema de dimensão mundial.

Essas ações estão diretamente relacionadas ao fato do sistema internacional estar estruturado a partir de uma sociedade heteropatriarcal, na qual as relações de poder desiguais entre homens e mulheres são historicamente produzidas e continuamente reproduzidas (Enloe, 2014). Nesse contexto, a violência contra a mulher perpassa desde ações cotidianas frequentemente naturalizadas, como o assédio, a desqualificação e a violência psicológica, até expressões extremas em larga escala, como a violência sexual sistemática em contextos de guerra e conflito armado. 

Essas diferentes formas de violência não são desconectadas, mas integram uma mesma estrutura de violência de gênero que sustenta e reforça relações desiguais de poder entre homens e mulheres. Em contextos de crise, militarização e nacionalismo exacerbado, o corpo feminino é reiteradamente utilizado como instrumento de dominação, intimidação e controle simbólico, evidenciando como o sistema patriarcal recorre de maneira recorrente à violência de gênero para reafirmar hierarquias e exercer poder (Enloe, 2014).

Em Gaza, por exemplo, uma especialista independente do Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos denunciou que a população civil, em particular mulheres e meninas palestinas, tem sido submetida a uma onda de violência que, segundo tal perita, pode ser caracterizada como genocida, uma vez que as ações beligerantes têm desestruturado vidas, destruído infraestrutura social e atingido desproporcionalmente mulheres, incluindo a destruição de serviços de saúde reprodutiva essenciais e imposição de condições de vida que ameaçam diretamente a continuidade física e psicológica da população feminina local (Organização das Nações Unidas, 2025).

Nesse sentido, a Teoria Feminista das Relações Internacionais oferece importantes contribuições para a compreensão da violência contra a mulher enquanto um problema que transcende a esfera privada e se insere no campo da política internacional. A teórica feminista Cynthia Enloe (2014), argumenta em sua obra Bananas, Beaches and Bases, que o sistema internacional não pode ser compreendido apenas como um espaço de negociações formais entre Estados, mas como uma estrutura que depende ativamente do controle, do silenciamento, da violência contra as mulheres e da manipulação das identidades de gênero para se manter e se reproduzir enquanto uma ordem heteropatriarcal. 

A autora demonstra que as dinâmicas internacionais se sustentam por meio de práticas cotidianas frequentemente invisibilizadas, que envolvem as vidas, o trabalho – muitas vezes não remunerado–, e os comportamentos socialmente regulados das mulheres em diferentes partes do mundo. Desse modo, ao questionarem e resistirem aos papéis que lhes são historicamente impostos, as mulheres revelam um potencial significativo de desestabilizar e transformar as estruturas sobre as quais o sistema internacional se mantém (Enloe, 2014).

Apesar da gravidade desse cenário, é fundamental destacar as reações e resistências protagonizadas por mulheres em diferentes partes do mundo. Movimentos feministas, organizações da sociedade civil e redes transnacionais de ativismo têm desempenhado papel central na denúncia da violência de gênero, na formulação de políticas públicas e na ampliação do debate público (Noelle, 2020). Essas mobilizações têm contribuído para a visibilização da violência contra a mulher como uma violação de direitos humanos e para o fortalecimento das mulheres enquanto sujeitas políticas ativas.

Dessa forma, a violência contra a mulher no mundo pode ser compreendida a partir da tensão entre sombras e luzes: de um lado, a persistência de estruturas que perpetuam a desigualdade e a violência, e de outro, a crescente resistência e organização das mulheres na luta por direitos, dignidade e justiça. Conclui-se que o enfrentamento desse problema exige não apenas marcos legais eficazes, mas também transformações culturais profundas, políticas públicas integradas e o fortalecimento da participação feminina nos espaços de decisão, tanto no âmbito nacional quanto internacional.

REFERÊNCIAS

ENGEL, C. L. A Violência Contra a Mulher. In: FONTOURA, N; REZENDE, M; QUERINO, A. C. (org.). Beijing +20: avanços e desafios no Brasil Contemporâneo. Brasília: Ipea, 2020. p. 159-216.

ENLOE, C. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 2. ed. 2014. Berkeley: University of California Press.

LABOISSIÈRE, P. OMS: 840 milhões de mulheres no mundo foram alvo de violência. Agência Brasil, 2025. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2025-11/oms-840-milhoes-de-mulheres-no-mundo-foram-alvo-de-violencia>. Acesso em: 06 jan. 2026.

NOELLE, M. Especialistas destacam atuação da sociedade civil como fundamental no enfrentamento às violências contra as mulheres. UNFPA, 2020. Disponível em: <https://brazil.unfpa.org/pt-br/news/especialistas-destacam-atua%C3%A7%C3%A3o-da-sociedade-civil-como-fundamental-no-enfrentamento-%C3%A0s>. Acesso em: 06 jan. 2026.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Gaza: UN expert denounces genocidal violence against women and girls. 2025. Disponível em:<https://www.ohchr.org/en/press-releases/2025/07/gaza-un-expert-denounces-genocidal-violence-against-women-and-girls>. Acesso em: 06 jan. 2026.