Amanda Olegário – Internacionalista formada pela Unama.

Fundada em 12 de janeiro de 1616 sob a égide da colonização portuguesa, a capital paraense abrange um território de ocupação milenar, nomeado pelo povo indígena Tupinambá como Mairi (AMORIM, 2025). Assim, Belém demonstra que carrega uma herança ancestral e cultural que se une à modernidade de um grande centro urbano.

De um lado, observa-se uma metrópole moderna ladeada pela memória dos tempos coloniais e da Belle Époque (NEVES, 2015). De outro, revela-se um rio que sustenta um modo de vida tradicional e a riqueza natural amazônica.

Essa amálgama entre o urbano e o ancestral posiciona a cidade como um ator político e cultural único no sistema internacional, capaz de mediar o diálogo entre a preservação dos saberes tradicionais e o desenvolvimento econômico.

Segundo Santos et al (2025), Belém possui uma biodiversidade rica, relevante riqueza cultural e localização estratégica por estar situada às margens da Baía do Guajará e do rio Guamá, sendo considerada “portal de entrada da Amazônia”. Isso torna a cidade um ponto ideal para governança climática e inovação urbana, mas também pode ser palco de disputas políticas por conta da exploração de recursos naturais (BARROS, 2025).

Desde o período colonial, a região amazônica se insere nas dinâmicas geopolíticas globais de forma complexa. Como aponta Cavalcante (2024), essa inserção foi historicamente marcada por projetos de integração territorial e expansão econômica voltados ao acesso das suas matérias-primas, muitas vezes perpetuando um legado de marginalização das populações tradicionais e ocultando o papel dos amazônidas como guardiões do bioma.

O autor Krenak (2019) enfatiza que preservar os territórios indígenas e salvaguardar os modos de vida ancestrais devem servir como instrumentos de resistência contra o modelo de desenvolvimento hegemônico, como o uso do sonho como ferramenta de aprendizado e conexão com o mundo.

Ao propor o sonho como ferramenta de aprendizado e conexão com o mundo, Krenak (2019) nos propõe a adiar o “fim do mundo” através de uma mudança de perspectiva sobre nossa relação com a terra. No contexto da cidade de Belém, essa resistência manifesta-se na retomada de Mairi enquanto presença viva, onde o passado indígena passa a se tornar um projeto de futuro.

Sob a ótica da teoria pós-colonial das Relações Internacionais, a capital paraense deixa de ser apenas um objeto de exploração do Estado ou de potências estrangeiras para se tornar ator ativo no âmbito da governança climática e inovação a partir de suas raízes, praticando o chamado giro epistemológico na “geopolítica do conhecimento” (JÚNIOR; ALMEIDA, 2023).

Em outros termos, essa redefinição ontológica combate o discurso hegemônico, o qual construiu o colonizado como um “Outro” subalterno, silenciando os saberes dos povos tradicionais (JÚNIOR; ALMEIDA, 2023). Da mesma forma, isso se interliga com o conceito de “colonialidade do poder” desenvolvido pelo autor Aníbal Quijano, que explicita que ainda persistem padrões coloniais de dominação na modernidade nas relações de poder, saber e identidade (INTERNACIONAL DA AMAZÔNIA, 2025).

A COP30 foi uma manifestação dessa quebra do conhecimento hegemônico colonial, demonstrando que os saberes e as práticas indígenas são a chave para alcançar metas relacionadas à proteção ambiental e combate às mudanças climáticas. Diversos protestos foram espalhados pela cidade para dar voz a essas populações marginalizadas (REPÓRTER BRASIL, 2025), a fim de terem suas demandas atendidas na elaboração do acordo final.

Com isso, o legado que a cidade de Belém projeta é o de uma metrópole que busca a modernização e o desenvolvimento para além das narrativas de subalternidade, reafirmando sua autonomia global sem abandonar suas raízes ancestrais.

Comemorar os 410 anos de Belém nos convida a enxergar a cidade não como uma paisagem estática, mas como um território vivo, onde memórias e heranças pulsam em meio à urbanidade contemporânea que se forma ao redor. Afinal, um povo sem consciência de seu passado não possui os instrumentos necessários para construir seu futuro.

REFERÊNCIAS

AMORIM, Cecília. Mairi já existia antes da “invenção” de Belém. Belém: Portal Carta Amazônia, 24 ago. 2024. Disponível em: https://cartaamazonia.com.br/mairi-ja-existia-antes-da-invencao-de-belem/. Acesso em: 5 jan. 2026.

CAVALCANTE, Maria Madalena de Aguiar. A Amazônia no centro da geopolítica global. Terra Livre, São Paulo, ano 39, v. 2, n. 63, jul./dez. 2024.

BARROS, Marcelo. Amazônia em disputa: de ONGs internacionais à geopolítica global. Belo Horizonte, 2025. Disponível em: https://diariodeminas.com.br/amazonia-em-disputa-de-ongs-internacionais-a-geopolitica-global/. Acesso em: 5 jan. 2026.

ELÍBIO, Antônio; ALMEIDA, Carolina. Epistemologias do Sul: Pós-colonialismos e os estudos das Relações Internacionais. Cadernos do Tempo Presente, [S. l.], n. 14, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/tempo/article/view/2684. Acesso em: 5 jan. 2026.

INTERNACIONAL DA AMAZÔNIA. Pensamentos internacionalistas: Aníbal Quijano e o pós-colonialismo na América Latina. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2025/07/29/pensamentos-internacionalistas-anibal-quijano-e-o-pos-colonialismo-na-america-latina/. Acesso em: 5 jan. 2026.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

NEVES, Ivânia dos Santos. EtniCidades: os 400 anos de Belém e a presença indígena. Revista Moara, Belém, n. 43, p. 138-148, jan./jun. 2015.

REPÓRTER BRASIL. Protestos em Belém fazem contraponto a tom otimista da COP30. São Paulo, 20 nov. 2025. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2025/11/protestos-belem-contraponto-tom-otimista-cop30. Acesso em: 5 jan. 2026.

SANTOS, Darlan Bispo dos; CASTRO, Marco Aurélio Amaral de; MONTEIRO, Sandra Maria Costa; SILVA, Erick Viana da. Desenvolvimento de cidades inteligentes: Desafios e avanços da cidade de Belém do Pará. REVISTA ACADÊMICA DA LUSOFONIA, [S. l.], v. 2, n. 7, p. 1–23, 2025. DOI: 10.69807/2966-0785.2025.112. Disponível em: https://revistaacademicadalusofonia.com/index.php/lusofonia/article/view/112. Acesso em: 5 jan. 2026.