Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais

Uma das principais artistas mais emblemáticas da brasileira, sendo dona de um inconfundível vozeirão, Margareth Menezes é figura de extrema importância para a cultura país como cantora, compositora, atriz, gestora cultural, empresária e atual ministra da Cultura do Brasil (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2023), possui uma trajetória que ultrapassa o campo artístico ao dialogar com cultura, política e relações internacionais. 

Nascida em 1962 em Salvador, Margareth teve forte contato com a música já na infância, tanto pela influência de sua família que tinham o costume de se reunir em volta de aparelho de som, quanto também pelo envolvimento natural com a cultura que ecoava nas ruas de onde cresceu. Mas antes de se destacar na música, Margareth descobriu os palcos e sua própria expressividade por meio do grupo teatral da sua própria escola, o Centro Integrado de Educação Luiz Tarquínio (NOVA BRASIL, 2023). 

A migração para a música ocorreu de forma natural, impulsionada por apresentações em bares e festivais de Salvador e assim, em 1986 inicia a sua carreira musical, intercalando entre a música e o teatro. Seu primeiro grande marco ocorreu em 1987, com o lançamento do disco Margareth Menezes e a explosão da música “Faraó (Divindade do Egito)”, o primeiro samba-reggae gravado no Brasil, que se tornou um hino no Carnaval baiano. A partir dali, Margareth consolida sua identidade artística baseada na fusão entre ritmos afro-baianos e referências da diáspora africana (MARGARETH MENEZES, s.d.).

Nos anos seguintes, Margareth ultrapassa fronteiras nacionais e se insere no cenário internacional da world music, especialmente após o álbum Elegibô (1988) conquistar reconhecimento nos Estados Unidos e na Europa. Sua sonoridade, associada à potência vocal, a posicionou como representante cultural do Brasil em circuitos globais, marcando presença na Billboard, turnês pela Europa, EUA e África, consolidando o afropop brasileiro como linguagem global (Carnaxé, s.d.).

Já ao longo dos anos 1990 e 2000, realizou turnês internacionais, participou de festivais de grande relevância e também fortaleceu sua relação com projetos socioeducativos. A criação da Fábrica Cultural, na Ribeira (Salvador), marca uma virada: Margareth, ao lado da empresária baiana Jaqueline Azevedo, se torna também agente de transformação social, transformando o Antigo Galpão em investimento de formação profissional, economia criativa e fortalecimento de jovens negros e periféricos, sendo hoje uma forte organização social que desenvolve projetos nos eixos de Cultura, Educação e Sustentabilidade (MARGARETH MENEZES, s.d.).

A partir de 2023, Margareth entra em outra dimensão pública ao assumir o Ministério da Cultura no terceiro governo Lula (Moreira, 2023). Sua gestão está sendo marcada pela reconstrução institucional do MinC ao reativar políticas nacionais, fortalecer o Sistema Nacional de Cultura, ampliar editais para cultura preta e periférica e pela reafirmação da cultura como vetor estratégico para o desenvolvimento e para a projeção internacional do Brasil, o reposicionando no debate cultural global (Fernandez, 2025).

Assim, tornou-se referência global do afropop brasileiro, do ativismo cultural e da atuação institucional. Está entre as 100 mulheres negras que mais influenciam no mundo pela Most Influential People of African Descent (MIPAD), instituição reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) e é membro da IOV Unesco como embaixadora da Cultura Popular (MINISTÉRIO DA CULTURA, s.d.). Sua diplomacia cultural representou o Brasil em eventos internacionais e reforçou o papel da arte como instrumento de aproximação entre povos, especialmente no contexto da COP 30 e da economia criativa (Agência Gov, 2025).

Sua carreira segue articulando identidade, diplomacia cultural e protagonismo em uma escala transnacional, fazendo de Margareth um exemplo significativo de como a cultura opera como ponte entre sociedades e como ferramenta de poder simbólico no sistema internacional. Neste sentido, sua trajetória pode ser compreendida a partir da articulação entre o Construtivismo e o Pós-Colonialismo, duas abordagens que colocam identidade, cultura e poder simbólico no centro da análise das relações internacionais.

Sob a ótica construtivista, especialmente a partir de Alexander Wendt (1999), identidades e normas moldam os interesses e o comportamento dos atores no sistema internacional. Margareth Menezes constrói sua carreira internacional a partir de uma identidade afro-brasileira afirmada, transformando elementos culturais locais em linguagem global (Cultura UOL, 2025). 

Suas músicas, suas performances e sua atuação institucional estão redefinindo percepções externas sobre o Brasil, operando como práticas de diplomacia cultural ao mostrar que a cultura não é apenas reflexo do poder estatal, mas sim um mecanismo ativo de construção da sociedade brasileira, sendo reflexo também da reconstrução da reputação internacional do país, onde a própria ministra já afirma que “A cultura brasileira é uma das mais respeitadas internacionalmente” (Cultura UOL, 2025).

Já a perspectiva pós-colonial aprofunda essa análise ao evidenciar como a trajetória de Margareth desafia estruturas históricas de dominação cultural. Autores como Frantz Fanon, Edward Said e Homi Bhabha ajudam a compreender como sua produção artística rompe com representações eurocêntricas e subalternizadas da cultura negra (Bueno, 2025).

A atuação internacional de Margareth não busca se igualar aos padrões hegemônicos, mas promover uma lógica de reexistência cultural, na qual o Brasil aparece não como consumidor, mas como produtor legítimo de cultura global (Marques, 2025). Como ministra, essa lógica se amplia: ao fortalecer políticas para culturas tradicionais, negras e periféricas, Margareth institucionaliza uma visão pós-colonial da cultura, que confronta desigualdades históricas de acesso, visibilidade e poder, mostrando que este também se constrói a partir da memória, da identidade e da afirmação de vozes historicamente silenciadas.

Portanto, a trajetória de Margareth Menezes evidencia que cultura, identidade e política são dimensões indissociáveis das relações internacionais contemporâneas. Sua atuação, do palco ao ministério, demonstra como a arte pode operar como ferramenta diplomática, instrumento de justiça simbólica e mecanismo de confronto das heranças coloniais. Ao articular ancestralidade, internacionalização e gestão pública, Margareth Menezes se consolida como uma figura representativa para compreender o papel da cultura no mundo globalizado.

REFERÊNCIAS

AGÊNCIA GOV. Margareth Menezes defende cultura como força de mobilização climática. Agência Gov, 2025. Disponivel em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202509/margareth-menezes-defende-cultura-como-forca-de-mobilizacao-climatica-em-barcelona. Acesso em: 12 jun. 2026.

BUENO, Guilherme. Pós-colonialismo e Pós-positivismo nas Relações Internacionais. ESRI, 2025. Disponível em: https://esri.net.br/pos-positivismo-e-pos-colonialismo-guia-completo/#fundamentos-do-pos-colonialismo. Acesso em: 12 jun. 2026.

CARNAXÉ. Margareth Menezes. Carnaxé, s.d. Disponível em: https://www.carnaxe.com.br/history/busca/margarethmenezes2.htm. Acesso em: 12 jun. 2026.

CULTURA UOL. “A cultura brasileira é uma das mais respeitadas internacionalmente”, afirma ministra Margareth Menezes. Cultura UOL, 2025. Disponível em: https://cultura.uol.com.br/entretenimento/noticias/2025/09/30/14855_a-cultura-brasileira-e-uma-das-mais-respeitadas-internacionalmente-afirma-ministra-margareth-menezes.html. Acesso em: 12 jun. 2026.

FERNANDEZ, Victor. Margareth Menezes celebra 63 anos como símbolo da reconstrução cultural do Brasil. Revista Nova Imagem, 2025. Disponível em: https://revistanovaimagem.com.br/margareth-menezes-celebra-63-anos-como-simbolo-da-reconstrucao-cultural-do-brasil/. Acesso em: 12 jun. 2026.

MARGARETH MENEZES. Fábrica Cultural. Margareth Menezes, s.d. Disponível em: https://margarethmenezes.com.br/fabrica-cultural/. Acesso em: 12 jun. 2026.
MARGARETH MENEZES. Bio Margareth Menezes. Margareth Menezes, s.d. Disponível em: https://margarethmenezes.com.br/category/bio/. Acesso em: 12 jun. 2026.