Thaís Carvalho, internacionalista formada pela Unama

Ficha Técnica:

Ano: 2025

Diretor: Kleber Mendonça Filho 

Distribuidora: Vitrine Filmes e MK2 Films

Gênero: Drama. História. Nacional. Policial. Thriller.

Países de origem: Brasil

Vencedor de dois Globos de Ouro – Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Filme de Drama, concedido a Wagner Moura –, o longa-metragem brasileiro O Agente Secreto é ambientado no Recife de 1977. A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário que deixa São Paulo e se refugia na capital pernambucana na tentativa de escapar da violência política que o cercava. No entanto, a tão desejada tranquilidade logo se revela ilusória, quando ele descobre que dois assassinos foram contratados para tirar sua vida (CineBH, 2025).

Sob a direção de Kleber Mendonça Filho, a obra resgata a memória da ditadura militar a partir do cotidiano pernambucano. Em contraste com muitos filmes do eixo Sul-Sudeste que abordam o período por meio de confrontos diretos e explícitos, a repressão é retratada de maneira mais sutil, construída por um ritmo narrativo lento, pela sensação constante de vigilância e pela presença permanente de uma ameaça latente (Zago, 2025). 

Confira o trailer de ‘O Agente Secreto’ (2025)

O protagonista, um professor universitário nordestino especializado em tecnologia, passa a ser perseguido após contrariar um grande empresário aliado à ditadura, tendo sua vida profundamente abalada ao descobrir que está ameaçado de morte. Diante disso, ele se refugia em Recife em busca do filho, muda de nome e emprego, e alimenta o desejo de recomeçar a vida em outro lugar, longe da violência e da opressão impostas pelo próprio país.

É a partir de sua chegada à cidade e da permanência no Edifício Ofir que o público é gradualmente apresentado a outros “refugiados” políticos que vivem no prédio sob os cuidados de Dona Sebastiana, o que amplia a compreensão do clima de apreensão e medo que permeava o cotidiano daqueles que, de alguma forma, resistiam ao regime. Nesse contexto, a película se vale do suspense e de um humor satírico para refletir sobre temas como repressão e a memória até então esquecida de um país, mostrando de maneira sensível como o autoritarismo ultrapassa a esfera política e afeta profundamente as relações humanas e a vida cotidiana.

O diretor evidencia também como o Estado autoritário constrói uma narrativa de “nós e os outros”, na qual determinados sujeitos passam a ser enquadrados como ameaças à ordem estabelecida. Essa lógica se manifesta de forma clara na perseguição ao conhecimento e ao saber, simbolizados na figura de Marcelo, um professor universitário cuja atuação intelectual o transforma em alvo do regime.

Além disso, é construído o sentimento de vigilância permanente reforçado visualmente por meio dos retratos do presidente Ernesto Geisel expostos em prédios públicos, recorrentes em diversos takes do filme. Essas imagens funcionam como lembretes constantes da presença do poder estatal, mesmo quando a violência não se manifesta de forma explícita, contribuindo para a internalização do medo e para a naturalização do controle no cotidiano dos personagens.

Dentro das Relações Internacionais, a obra cinematográfica pode ser analisada sob a ótica da Teoria da Securitização, desenvolvida por Barry Buzan, Ole Wæver e Jaap de Wilde na obra Security: A New Framework for Analysis (1998). Essa abordagem parte do pressuposto de que ameaças à segurança não são dadas de forma objetiva, mas socialmente construídas por meio de discursos e práticas que enquadram determinados sujeitos, ideias ou comportamentos como perigos existenciais à ordem estabelecida. Ao serem securitizados, esses elementos deixam de pertencer ao âmbito da política cotidiana e passam a justificar medidas excepcionais, como a intensificação da vigilância, a suspensão de direitos e o uso da repressão, tornando o medo um instrumento central de controle social.

Stritzel (2014) evidencia que a securitização ocorre por meio de speech acts, isto é, atos de fala realizados por autoridades com legitimidade política, capazes de convencer a sociedade de que algo representa uma ameaça urgente. Uma vez aceita essa narrativa, práticas extraordinárias passam a ser não apenas toleradas, mas legitimadas. Essa perspectiva se encaixa de maneira precisa na narrativa de O Agente Secreto, ao evidenciar como o regime militar brasileiro securitiza o conhecimento e o pensamento crítico, representados na figura de Marcelo. Ao transformar o intelectual em ameaça à segurança nacional, o Estado legitima sua perseguição e produz um ambiente de medo constante, reforçado tanto por práticas de vigilância quanto por símbolos de poder.

Por fim, o longa se consolida como um relevante instrumento de reflexão crítica para as Relações Internacionais ao resgatar a memória de um período da história brasileira que, ainda hoje, permanece pouco debatido. Ao fazê-lo, o filme evidencia os efeitos duradouros do autoritarismo na conformação do Estado, da sociedade e das práticas de poder, ressaltando como essas experiências seguem inscritas na memória coletiva do país.

REFERÊNCIAS

BUZAN, B.; WAEVER, O.; WILDE, J. Security: A New Framework for Analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.

CINEBH. O Agente Secreto. 2025. Disponível em:<https://cinebh.com.br/filme/o-agente-secreto/>. Acesso em 12 jan. 2026.

STRITZEL, H. Securitization theory and the Copenhagen School. In: Security in translation: Securitization theory and the localization of threat. London: Palgrave Macmillan UK, 2014. p. 11-37.

ZAGO, T. “O Agente Secreto”: quando a memória e a paranoia se tornam as armas mais afiadas da história. Café História, 2025. Disponível em: <https://www.cafehistoria.com.br/o-agente-secreto-critica/>. Acesso em: 12 jan. 2026.