
Sabrina Sena – Especialista em Comércio Exterior e Docente de Relações Internacionais
A integração da Amazônia ao comércio exterior brasileiro permanece como um dos principais desafios estruturais do desenvolvimento nacional. Apesar de concentrar ativos estratégicos fundamentais para a economia global contemporânea, como biodiversidade, recursos hídricos, minérios críticos e elevado potencial bioeconômico, a região ainda ocupa uma posição periférica nas estratégias nacionais de inserção internacional.
Historicamente, a Amazônia foi incorporada às políticas de desenvolvimento e comércio exterior de maneira fragmentada, com pouco diálogo entre o governo central e as especificidades territoriais, logísticas e socioambientais da região. Esse distanciamento resultou em políticas públicas homogêneas, pouco sensíveis às assimetrias regionais, o que contribuiu para a baixa competitividade da região no comércio internacional. Ao mesmo tempo, esse cenário revela uma grande oportunidade estratégica, sobretudo diante da crescente centralidade da Amazônia nos debates globais sobre sustentabilidade, transição energética e segurança econômica.
Do ponto de vista operacional, a logística constitui o principal gargalo do comércio exterior amazônico. A configuração geográfica e climática da região, marcada por grandes distâncias, elevada pluviosidade e desafios técnicos à infraestrutura de transporte e armazenagem, impõe custos adicionais às operações de exportação e importação. No entanto, tais características não devem ser interpretadas como impedimentos intransponíveis, mas como condicionantes que exigem soluções adaptadas à realidade regional.
Paradoxalmente, a Amazônia possui um enorme potencial logístico subutilizado, especialmente no que se refere às hidrovias e aos portos, que poderiam atuar como importantes vetores de competitividade. A ausência de investimentos estruturados, planejamento de longo prazo e eficiência operacional tem impedido a transformação dessa vantagem natural em um diferencial estratégico efetivo no comércio exterior.
Outro elemento central refere-se à formulação das políticas públicas de comércio exterior no Brasil, ainda fortemente orientadas por uma lógica nacional homogênea. A Amazônia, contudo, não pode ser tratada como uma região produtiva convencional. Suas especificidades ambientais, sociais, logísticas e geoeconômicas exigem um recorte regional próprio, capaz de alinhar desenvolvimento econômico, sustentabilidade, geração de valor local e inserção qualificada nas cadeias globais.
A ausência dessa abordagem territorializada limita a capacidade da região de atrair investimentos, agregar valor às suas exportações e reduzir sua dependência de produtos primários. Experiências internacionais demonstram que políticas de comércio exterior pensadas de forma territorializada podem atuar como instrumentos de coesão nacional, redução de desigualdades regionais e fortalecimento da segurança econômica.
A infraestrutura exerce papel decisivo na atração de investimentos voltados ao comércio exterior. A carência histórica de investimentos em logística, energia e integração multimodal eleva custos, reduz previsibilidade e afasta investidores. Nesse contexto, iniciativas como a implementação de Zonas de Processamento de Exportação representam um avanço estrutural importante, ao criar condições institucionais para a industrialização local, a agregação de valor e o fortalecimento das cadeias produtivas regionais. Esses instrumentos permitem que os insumos amazônicos cheguem ao mercado internacional com maior valor agregado e menor vulnerabilidade logística, contribuindo para uma inserção mais estratégica da região no comércio global.
A bioeconomia desponta como uma das principais oportunidades para redefinir o papel da Amazônia no comércio exterior. Ao combinar ciência, tecnologia e inovação com o uso sustentável da biodiversidade, a bioeconomia permite agregar valor aos produtos amazônicos sem comprometer o bioma. Além disso, responde diretamente às exigências dos mercados internacionais, cada vez mais orientados por critérios ambientais, sociais e de governança, rastreabilidade e cadeias de baixo carbono. A consolidação desse modelo produtivo pode transformar a Amazônia de exportadora de matéria-prima em referência internacional de desenvolvimento sustentável, inovação e competitividade.
Os desafios do comércio exterior na Amazônia são, portanto, multidimensionais e interdependentes. Envolvem deficiências logísticas e energéticas, ausência de políticas públicas regionalizadas, baixa agregação de valor, dificuldades de acesso a financiamento, tecnologia e inteligência de mercado, além da necessidade permanente de conciliar crescimento econômico, preservação ambiental e segurança territorial.
Superar esses entraves exige planejamento estratégico, investimentos públicos e privados coordenados, inovação tecnológica e uma visão de longo prazo que reconheça a Amazônia como ativo estratégico do Brasil no sistema internacional. Quando o comércio exterior é pensado de forma territorializada, ele deixa de concentrar riqueza e passa a integrar o país como um todo, contribuindo para um desenvolvimento mais equilibrado, soberano e sustentável.
