Maysa Lisboa, 8º semestre de Relações Internacionais

  O coletivo artístico russo Pussy Riot, autodefinido como uma banda de rua militante, punk e feminista, emerge como um exemplo significativo de como a arte e a performance podem se constituir como formas legítimas de ação política no sistema internacional. 

Suas intervenções públicas, ao denunciarem o autoritarismo, o patriarcado e a repressão estatal na Rússia, ultrapassaram as fronteiras nacionais, mobilizando redes globais de solidariedade, atraindo atenção midiática internacional e tensionando normas relacionadas à liberdade de expressão, aos direitos humanos e aos direitos das mulheres. 

Nesse sentido, o Pussy Riot desafia as fronteiras tradicionais das Relações Internacionais ao ampliar a compreensão sobre quem pode atuar politicamente e de que maneira o poder é contestado no cenário global.

O Pussy Riot foi formado entre o verão e o outono de 2011, a partir da dissidência de integrantes do grupo radical de arte urbana Voina. Nadya Tolokonnikova e Ekaterina Samutsevich, insatisfeitas com os limites das formas tradicionais de protesto político na Rússia, buscaram construir uma alternativa explicitamente feminista que articulasse música punk, performance artística e ativismo político. 

A criação do coletivo ocorreu em um contexto de aprofundamento do autoritarismo russo, marcado pelo anúncio da candidatura de Vladimir Putin a um terceiro mandato presidencial, pela repressão à oposição política e por denúncias recorrentes de corrupção e fraude eleitoral.

Desde sua concepção, o Pussy Riot se definiu como uma “banda de rua militante, punk e feminista”, organizada de maneira horizontal, anônima e fluida. Inspirado por movimentos como as Riot Grrrls e as Guerrilla Girls, o coletivo incorporou referências do feminismo contemporâneo, citando autoras como Simone de Beauvoir e Judith Butler.

 A ausência de exemplos semelhantes no cenário russo levou suas integrantes a criarem deliberadamente um modelo próprio de resistência, no qual o corpo feminino e o espaço público se tornaram arenas centrais de disputa política.

As ações do grupo consistiam em performances públicas não autorizadas realizadas em locais simbólicos, filmadas e posteriormente divulgadas online. Entre suas primeiras intervenções destacam-se Free the Cobblestones (2011), apresentada em vagões de metrô e bondes em protesto contra as eleições parlamentares, e Death to Prison, Freedom to Protest (2011), que defendia a liberdade de manifestação e a solidariedade feminista e LGBT, em referência à prisão de opositores políticos. 

Em 2012, o Pussy Riot intensificou sua crítica direta ao governo com a música Putin Peed Himself, apresentada na Praça Vermelha, desafiando simbolicamente o centro do poder estatal russo. 

O episódio mais conhecido do coletivo ocorreu em fevereiro de 2012, com a performance Punk Prayer (“Virgem Maria, Mãe de Deus, expulse Putin!”), realizada na Catedral de Cristo Salvador, em Moscou. A ação criticava a aliança entre a Igreja Ortodoxa Russa e o governo Putin, denunciando o conservadorismo religioso e o nacionalismo autoritário. Pouco depois, Nadya Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Ekaterina Samutsevich foram presas sob a acusação de “vandalismo motivado por ódio religioso”. 

O julgamento atraiu atenção internacional e foi amplamente condenado por organizações de direitos humanos como uma violação à liberdade de expressão. Tolokonnikova e Alyokhina foram condenadas a dois anos de prisão em colônias penais femininas, enquanto Samutsevich teve sua pena suspensa em apelação.

Mesmo após o encarceramento e a libertação em 2013, o Pussy Riot manteve sua atuação política, realizando performances durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, em 2014, e interrompendo a final da Copa do Mundo da FIFA em 2018, em protesto contra a violência policial e o autoritarismo estatal. 

O grupo foi concebido como uma estrutura aberta e em constante transformação, sustentando a ideia de que “qualquer pessoa pode ser Pussy Riot” ao adotar suas máscaras e se engajar em ações contra a injustiça.

A análise do Pussy Riot à luz da teoria feminista das Relações Internacionais, especialmente a partir das contribuições de Cynthia Enloe, permite compreender como o poder internacional se sustenta na invisibilização das mulheres e na naturalização de hierarquias de gênero. 

Em Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics (2014), Enloe argumenta que a política internacional não se limita aos espaços formais do Estado, sendo produzida também no controle dos corpos, nas normas culturais e nas estruturas simbólicas que sustentam o militarismo e o nacionalismo. Nesse sentido, o Pussy Riot evidencia como o autoritarismo russo se apoia em uma masculinidade militarizada e conservadora, na qual mulheres dissidentes são tratadas como ameaças à ordem política e moral.

Complementarmente, a perspectiva pós-colonial de María Lugones contribui para a compreensão dessas dinâmicas ao destacar a colonialidade do poder, do gênero e do saber. Em Heterosexualism and the Colonial / Modern Gender System (2007), Lugones demonstra como o sistema moderno-colonial impõe normas rígidas de gênero e sexualidade, hierarquizando corpos e subjetividades.

Embora a Rússia não se enquadre nas narrativas clássicas do colonialismo ocidental, o caso do Pussy Riot revela a reprodução de lógicas coloniais internas, marcadas pela imposição de normas de gênero, pelo silenciamento de vozes dissidentes e pela hierarquização de corpos considerados desviantes. 

A repressão estatal às integrantes do coletivo pode, assim, ser interpretada como parte de um sistema que articula autoritarismo, patriarcado e colonialidade, limitando as possibilidades de existência política fora dos padrões hegemônicos.

A trajetória do Pussy Riot demonstra, portanto, como práticas artísticas feministas podem operar como formas relevantes de ação política nas Relações Internacionais contemporâneas. Ao longo de sua atuação, o coletivo expôs as conexões entre autoritarismo, nacionalismo e controle de gênero no contexto russo.

Ao mesmo tempo em que internacionalizou sua luta por meio da circulação midiática e da mobilização de redes transnacionais de apoio. Assim, o Pussy Riot não apenas desafia estruturas opressivas específicas, mas também contribui para a ampliação crítica do campo das Relações Internacionais, questionando quem pode agir politicamente, quais vozes são legitimadas e de que maneira resistências feministas e decoloniais podem reconfigurar a compreensão da política internacional.

Referências

ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. Berkeley: University of California Press, 2014.

LUGONES, María. Heterosexualism and the Colonial / Modern Gender System. Hypatia, v. 22, n. 1, p. 186–209, 2007.

PUSSY RIOT. Pussy Riot: A history of feminist punk protest. Disponível em: https://pussyriot.love/history/. Acesso em: 03 jan. 2026.