
Ana Gabriela Silva – Acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Em sua história, o Brasil pouco se envolveu em conflitos armados contra outros países. Sempre prezando pela resolução pacífica de conflitos e almejando um lugar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o Brasil participou de algumas missões de paz realizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU), entre elas a mais longa foi a MINUSTAH no Haiti.
As missões de paz são operações realizadas pela ONU para ajudar países que estejam ou que sofreram com conflitos e crises, seja interno ou entre nações, fornecendo suprimentos, doações, ajuda financeira etc., para que o local e os civis consigam se reestabelecer e chegar a paz (Mello, 2022). Apesar do envio de tropas ao local, estas não são para combater ou ajudar uma parte no conflito, sua finalidade é proteger e defender os civis.
O Brasil participou de mais de 50 missões de paz, entre elas a Crise Suez (UNEF I), que infelizmente foi considerada um fracasso, apesar dos esforços as partes não conseguiram chegar a um consenso e a ONU retirou as tropas do local; a ONUC aconteceu no Congo na década de 1960, a força aérea brasileira conseguiu salvar missionários e freiras mesmo sob forte ataque de rebeldes locais (Ibidem).
A MINUSTAH é uma das missões mais conhecidas e durou 13 anos. O Haiti foi a principal colônia francesa nas Américas, e em 1804, após a Revolução Haitiana iniciada no ano de 1791, o Haiti tornou-se independente, desagradando a França que perdeu sua colônia, o novo país então, teve que pagar uma indenização a ex-metrópole. Longe de alcançar a paz que queria, foi ocupado pelos Estados Unidos entre 1915 e 1934, sob alegação de que a invasão seria para a proteção dos interesses de estadunidenses e estrangeiros; de 1957 a 1986 o Haiti viveu sob a ditadura de François Duvalier e de seu filho Jean-Claude Duvalier (Morais, 2018).
Em eleições realizadas em 1990 o padre Jean-Bertrand Aristide conquistou a presidência. Pressionado pela França, Estados Unidos e alguns opositores, ele deixou a presidência em 2004, alegando que era para evitar um banho de sangue. Seu sucessor foi o Bonifacio Alexandre, presidente da Suprema Corte do Haiti, foi quem solicitou ajuda da ONU para acalmar os ânimos dentro do país. A MINUSTAH, tinha como objetivo levar ajuda humanitária, promover a normalidade institucional, restabelecer a segurança e proteger os direitos humanos, eles ajudaram com alimentos e roupas, na manutenção de escolas, atendimentos médicos e odontológicos (Ibidem).
A ajuda humanitária ao Haiti estava sob o comando do Brasil, com a participação de outros 15 países. Quando a situação começava a se estabilizar, um terremoto atingiu o país fazendo com que o Conselho de Segurança renovasse a operação. As tropas, que acreditavam estar próximas do fim da missão, precisaram permanecer e intensificar o apoio, apesar de outras nações se mobilizarem, mais recursos chegarem, seis anos depois o Haiti ainda tentava se recuperar, quando o furacão Matthew atingiu o território, obrigando todo o processo de assistência perdurar (Morais, 2018).
No ano seguinte ao furacão, a ONU organizou a retirada das tropas aos poucos do país, ação esta que era uma vontade comum entre todos, as eleições já haviam sido feitas e a ordem estava minimamente estabelecida. Neste tempo que as tropas passaram no Haiti houve vários problemas, nem tudo foram boas ações humanitárias, ocorreram várias violações aos direitos humanos, entre elas muitas denúncias de violência contra mulheres e crianças, desde privação de alimento até abuso sexual, prostituição e não reconhecimento de paternidade, além disto, um surto de cólera levado por soldados do Nepal, ocasionando muitas mortes (Ibidem).
Os generais também reclamaram da administração da ONU, dizendo que a organização deveria ter pessoas especializadas para distribuir corretamente o dinheiro das doações e ajudar a população. Ao invés disto, as doações ficavam travadas ou eram mal distribuídas fazendo com que a situação se prolongasse. Ademais, nos primeiros cinco anos, 50% das crianças estavam sem acesso a escola e anos depois este quadro não mudou, mesmo com a UNICEF e outras agências especializadas denunciando a ineficácia do sistema utilizado (Estarque, 2014).
Do ponto de vista geral e externo, a missão no Haiti foi bem-sucedida, conseguiram manter o país sem grandes complicações, porém, olhando internamente, muitos problemas e consequências dos acontecimentos ainda continuavam. Como disse um dos generais responsáveis pela operação, não houve mudanças ou melhorias sociais (Ibidem).
Essa falha no sistema apenas reforça o que Johan Galtung (1969) esclarece em sua teoria, de que o problema está na forma dos acontecimentos, mudanças profundas em todas as áreas que produzem violência, estrutural, cultural e direta com guerras e conflitos, deveriam ser feitas (Oliveira, 2024). As tropas no local não bastaram, da mesma forma que eles ajudaram, prejudicaram a população, internamente muitos problemas ainda seguem, poderia ter saído melhor com toda a ajuda que recebeu, porém, as falhas presentes no sistema como um todo não tornou isto possível.
Referências
ESTARQUE, Marina. Dez anos de Minustah põem à prova modelo brasileiro de missão de paz. DW. 06 de jun. 2018. Disponível em <https://www.dw.com/pt-br/dez-anos-de-minustah-p%C3%B5em-%C3%A0-prova-modelo-brasileiro-de-miss%C3%A3o-de-paz/a-17684450https://www.dw.com/pt-br/dez-anos-de-minustah-p%C3%B5em-%C3%A0-prova-modelo-brasileiro-de-miss%C3%A3o-de-paz/a-17684450> Acesso em: 17 de jan. 2026
MELLO, Jane. Participações brasileiras em Missões de Paz da ONU. Fatos Militares. 20 de jun. 2022. Disponível em <https://fatosmilitares.com/participacoes-brasileiras-em-missoes-de-paz-da-onu/#MINUSTAH_8211_Haiti> Acesso em: 17 de jan. 2026
MORAIS, Pâmela. MINUSTAH: o Brasil na Missão de Paz no Haiti. Politize! 09 de out. 2018. Disponível em <https://www.politize.com.br/minustah-missao-de-paz-no-haiti/> Acesso em: 17 de jan. 2026.
OLIVEIRA, Gilberto Carvalho de. Johan Galtung e a paz por meios pacíficos. Le Monde diplomatique Brasil. 21 de fev. 2024. Disponível em <https://diplomatique.org.br/johan-galtung-paz/> Acesso em: 17 de jan 2026.
