Luca Zampollo – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Ao redor do globo, sempre haverá conflitos armados, sejam problemas internos de um país ou externos, como uma disputa regional entre duas ou mais nações. Apesar do senso comum de que a guerra é ruim e traz consigo o nível mais rasteiro das relações entre os seres humanos, elas ainda continuam ocorrendo em pleno século XXI, uma era onde a humanidade contempla horizontes nunca imaginados em tempos passados, como a inteligência artificial avançada a patamares assustadores ou uma evolução da corrida espacial iniciada no século anterior.

Agora  já se torna possível uma suposta competição internacional pela colonização do espaço sideral, assim como, de seus recursos naturais. Ainda assim, com todo este progresso, as desavenças humanas continuam por se resolver de uma maneira arcaica e vil como confrontos armados. É necessário, portanto, entender a razão para a aquisição de armas e equipamentos militares de tão fácil acesso e desta maneira, compreender que, se existe a produção de tal material, é porque existe uma demanda e, obviamente, entidades lucrando com esta produção.

É importante notar a relação entre as guerras e a condizente cobertura midiática. Por exemplo, conflitos que estão em alta, seja por motivos enviesados ou não, tendem a receber mais noticiário da mídia global. Enquanto as situações, cada vez mais polarizadas e, portanto, atrativas para a indústria das armas, no Leste Europeu ou no Crescente Fértil do Oriente Médio recebem horas intermináveis de atenção, com razão, outras regiões do planeta, em especial a periferia do mundo e países não ocidentais como Mali, Iêmen, Mianmar, Somália, Sudão, Chade e outros lugares que se encontram com entreveros internos como Paquistão, Síria e Iraque, recebem mínima ou nenhuma atenção da mídia mainstream. Isso pode ser analisado pelo pensador da teoria pós-moderna das relações internacionais James Der Derian, com seu conceito de infowar, ou seja, a velocidade da reprodução e o conteúdo da notícia moldam a visão do público geral acerca de determinada situação, podendo fazer uma guinada de opiniões para o lado que seja mais interessante no momento (DER DERIAN, 2001). 

Partindo dos pressupostos da teoria supracitada, é notável que se a atenção do globo está para as armas fornecidas para onde a mídia ocidental dedica sua cobertura jornalística, vide Kiev e Gaza, peca-se em não prestar atenção na venda ou contrabando de armas, por vezes em proporções muito maiores, para desafios sociais em lugarejos remotos de Moçambique que os telespectadores nunca se preocuparam de fato, mas que enfrentam desafios difíceis como a presença de grupos ou regimes violentos, como o  grupo jihadista Al-Shabab na região de Cabo Delgado, que gladiam contra entidades resistentes opositoras, neste caso, as forças de segurança moçambicanas com o auxílio da polícia ruandesa, deixando uma crise de refugiados, sequestros e pessoas em situação de vulnerabilidade (HUMAN RIGHTS WATCH, 2025). 

No âmbito das relações internacionais, isso pode ser considerado uma cartografia violenta, conceito do teórico pós-moderno Michael Shapiro, que argumenta que através do mapeamento de ocorrências beligerantes, torna-se nítida a dinâmica de poder da geopolítica e aquilo que os poderosos do mundo julgam valer a pena falar ou não sobre (SHAPIRO, 1997). Grande exemplo disso são as guerras proxy, onde nações menos desenvolvidas do Sul Global são abastecidas com armamento de empresas privadas ou estatais estrangeiras para lutarem por interesses de nações mais desenvolvidas do Norte Global, nomeadamente, a recente guerra entre Congo e Ruanda por minerais e terras raras (THE OAKLAND INSTITUTE, 2025), sendo que na verdade, Ruanda era auxiliada pela França, que embora condene ações agressivas de grupos paramilitares, possui, historicamente, seus objetivos particulares naquela e em demais regiões africanas (BRUIN POLITICAL REVIEW, 2025).

Tendo isso em vista, a indústria bélica aproveita e se utiliza da mídia para fomentar questões, através de um construto propagandista, que sejam benéficas para a mesma, em sua grande maioria, tornando o povo a apoiar uma medida armamentista. A exemplo deste fator, temos a fabricação de narrativa para justificar a invasão e ocupação do Iraque em 2003, onde o governo norte-americano, juntamente com as empresas petroleiras como a Halliburton, companhias de defesa privadas como a Blackwater (BOOKINS, 2007), utilizadas como sicários e forças paralelas aos exércitos legítimos de cada nação, que visavam o lucro próprio, às custas, muitas vezes, da vida de civis iraquianos e da desestabilização da região, gerando problemas pertinentes até os dias atuais, como o vácuo de poder no país após a morte de Saddam Hussein que, por consequência daria espaço ao barbarismo do Estado Islâmico e também, de certa maneira, a insatisfação coletiva com os governos da área que levaria ao advento da Primavera Árabe e ao aumento da hegemonia militar de Israel, agora que este país se encontrava sem muitas resistências eficazes no local. Portanto, para cada míssil Tomahawk incinerando os céus de Bagdá, isso significava mais demanda para a produção em larga escala  dos mesmos.

Ainda usando os Estados Unidos da América como um exemplo do modus operandi de seu complexo industrial-militar, é argumentado que a participação estadunidense na Segunda Guerra Mundial, foi uma das razões pelas quais o país saiu da Grande Depressão, período de enorme escassez e dificuldade financeira originário da quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Durante os anos da guerra, o governo americano gastou cerca de 250 milhões de dólares por dia (BBC, 2023). 

Os efeitos disso se estenderam às empresas e aos cidadãos comuns, trazendo-lhes mais prosperidade. Havia quase pleno emprego e os salários aumentaram, milhões de empregos foram criados nesse boom do militarismo e da produção industrial intensamente pesada. Os rendimentos médios dos 20% dos trabalhadores com menor renda cresceram cerca de 68% (BBC, 2023). Está demonstrando-se, portanto, uma indústria bastante lucrativa e que, pelos demais acontecimentos da história americana, o governo estava disposto a continuar utilizando-a em diferentes métodos e acontecimentos.

Observa-se que os ganhos destes conglomerados empresariais é altamente rentável no capitalismo selvagem sem fronteiras. Denota-se que, as receitas obtidas, em 2023, com a venda de armas e serviços militares das 100 maiores empresas do setor aumentaram em média 4,2% em relação a 2022, atingindo U$ 632 bilhões de dólares, um valor muito superior ao estimado que seria necessário para erradicar a fome no mundo, sendo este de U$ 540 bilhões, como indica o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) (BRASIL 254, 2024).

Este dado especifica que empresas russas e do Oriente Médio apresentam parcelas substanciais dentre os números, embora, seja registrado uma crescente manufatura de armamentos ao redor do mundo inteiro em anos recentes. Ressaltando a questão da importância de grandes dimensões da produção de armas para o establishment e o lobby de investidores, donatários e também policymakers do Estado norte-americano, quarenta e uma das 100 maiores empresas de produção e comercialização de armamentos estão localizadas nos Estados Unidos e, em 2023, declararam receitas de 317 bilhões de dólares, 2,5% a mais que em 2022. Desde 2018, as cinco empresas, parte de um oligopólio das maiores companhias contratantes de estratégias e meios de defesa, no topo do ranking mundial elaborado pelo SIPRI estão sediadas nesse país: Lockheed-Martin, RTX, Northrop Grumman, Boeing e General Dynamics (BRASIL 247, 2024). 

Em suma, é notoriamente indispensável que haja uma demanda pública para sugerir ou mesmo apresentar reformas e mudanças na maneira como a indústria bélica é usada por Estados nacionais, ou vice-versa, já que, muitas vezes os Estados encontram-se pressionados para favorecer os requerimentos das grandes corporações de seus países, que podem financiar campanhas, projetos de desenvolvimento e afins. Por isso, talvez seja idílico pensar que movimentos populares possam, de fato realizar uma mudança efetiva em um sistema que está estabelecido quase intrinsecamente aos governos. No entanto, não é uma ideia ilusória  defender que nas administrações nacionais futuras, máquina da guerra cesse e a valorização da vida humana seja a real prioridade no âmbito internacional e moral da governança, substituindo assim, os lucros com a banalidade da violência e a morte de inocentes que são vistos apenas como estatísticas ou danos colaterais, por um lucro com as conquistas humanitárias alcançadas e uma possível, porém ainda muito distante da presente realidade, paz na Terra.

REFERÊNCIAS

BBC. The impact of World War Two on the US people. Disponível: https://share.google/JJH9lKD9oGArGS9hV. Acesso em: 14/01/2026.

BRASIL 247. Quem realmente ganha com a guerra. Disponível: https://www.brasil247.com/blog/quem-lucra-com-as-guerras. Acesso em: 15/01/2026.

BRUIN POLITICAL REVIEW. A Story of Hypocrisy: The EU, Rwanda, and M23. Disponível em: https://bruinpoliticalreview.org/articles?post-slug=a-story-of-hypocrisy-the-eu-rwanda-and-m23. Acesso: 18/01/2026. 

BROOKINGS. The Dark Truth about Blackwater. Disponível em: https://www.brookings.edu/articles/the-dark-truth-about-blackwater/. Acesso: 18/01/2026.

DER DERIAN, James. Virtuous War: Mapping the Military-Industrial-Media-Entertainment-Network. Ano de Publicação: 2001.  Acesso em 17/01/2026.

HUMAN RIGHTS WATCH, Moçambique: Aumentam os sequestros de crianças por grupos armados no norte do país. Disponível: https://www.hrw.org/pt/news/2025/06/24/mozambique-armed-groups-child-abductions-surge-in-north. Acesso: 18/01/2026.

SHAPIRO, Michael. Violent Cartographies: Mapping Cultures of War. Ano de Publicação: 1997. Acesso em 17/01/2026.

THE OAKLAND INSTITUTE, M23, Rwanda’s Proxy to Secure Control of Congolese Wealth. Disponível: https://www.oaklandinstitute.org/report/shafted/m23-rwandas-proxy-secure-control-congolese-wealth. Acesso: 18/01/2026.