Marília Corrêa Martins – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
A educação na Amazônia brasileira reflete as profundas contradições de uma região que representa grande importância para o planeta, cuja imensa riqueza biocultural coexiste com ciclos históricos de desigualdade. O sistema educacional, ao mesmo tempo em que luta contra heranças coloniais, enfrenta desafios logísticos e sociais monumentais, configurando-se como uma potencial ferramenta de transformação e, paradoxalmente, como um espelho das desigualdades estruturais persistentes (CRUZ; PORTELLA, 2024).
Nesse sentido, para compreender essa realidade complexa, é essencial ir além dos indicadores tradicionais e adotar uma lente crítica sobre o poder e a produção de conhecimento. Por isso, a teoria decolonial, originada no campo das Relações Internacionais e do pensamento crítico, oferece o instrumental de análise necessário para desvelar como as estruturas de poder e os modelos epistemológicos impostos pela colonização continuam a moldar as realidades locais, sobretudo a educacional (TORRES; MOREIRA, 2023).
A teoria decolonial, articulada por Aníbal Quijano, sustenta que a colonização estabeleceu uma “colonialidade do poder” que sobrevive às independências formais, organizando a sociedade por meio de hierarquias raciais e controlando a produção do conhecimento. No contexto educativo amazônico, essa colonialidade se manifesta em currículos que frequentemente ignoram ou inferiorizam os saberes ancestrais, as línguas indígenas e as cosmovisões dos povos da floresta, podendo transformar a escola em um aparelho de assimilação cultural (TORRES; MOREIRA, 2023). O desafio, portanto, é desconstruir essa lógica e reconstruir as práticas pedagógicas a partir da participação popular e das singularidades do local, transformando os educandos em sujeitos ativos de sua formação e promovendo a “justiça cognitiva” (TORRES; MOREIRA, 2023).
Sob esse viés, quando observados em dados concretos, a urgência de uma transformação radical no sistema educacional amazônico fica evidente. O Índice de Progresso Social (IPS) de 2025 coloca os estados da Amazônia Legal entre os piores do país, com o Amazonas em 19º e o Pará em 27º lugar. No componente “Acesso ao Conhecimento Básico”, municípios paraenses estão entre os piores avaliados nacionalmente (G1 AMAZONAS, 2025). Essa situação é agravada por uma pobreza estrutural que atinge mais da metade da população do Amazonas, contexto em que a educação, longe de ser um equalizador, muitas vezes reflete e aprofunda as desigualdades sociais pré-existentes (VOCATIVO, 2023).
Os indicadores educacionais específicos apontam para um quadro desafiador: na Amazônia Legal, apenas 72,6% dos jovens de 15 a 17 anos estão no Ensino Médio, taxa inferior à média nacional de 82,3%. A evasão escolar é maior e o atraso atinge quase um terço dos estudantes. Para as crianças mais novas, o acesso é ainda mais restrito, com apenas 25,6% delas frequentando creches, um número muito abaixo da média brasileira, o que evidencia uma grave escassez de oferta, especialmente nas zonas rurais (CRUZ; PORTELLA, 2024).
Entretanto, uma análise puramente quantitativa baseada em métricas urbanocêntricas pode produzir uma leitura distorcida e colonial da realidade, ao desconsiderar contextos culturais, modos de vida tradicionais e relações específicas com o território, estigmatizando assim populações inteiras (ZORZAL, 2026).
Assim, a análise decolonial nos obriga a reler os dados oficiais. A elevada procura pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) na região pode ser interpretada não apenas como um déficit, mas como uma busca ativa por certificação por parte de populações cujo percurso foi interrompido por barreiras geográficas e econômicas. Da mesma forma, o fechamento massivo de escolas rurais pode representar uma pressão que consolida um modelo de desenvolvimento excludente, expulsando famílias do campo em favor de um projeto de agronegócio e urbanização (BOEHN, 2025). A educação se revela, portanto, como uma peça fundamental em um jogo de forças políticas e econômicas muito mais amplo.
Em síntese, é possível analisar que a verdadeira riqueza da educação na Amazônia reside em seu potencial para ser o oposto do que a colonialidade projetou para ser. Experiências como escolas bilíngues, a “Escola da Floresta” e a luta diária de professores de comunidades tradicionais são reflexos de uma prática educativa decolonial. Elas sinalizam a necessidade de políticas públicas que partam do reconhecimento da diversidade como um ativo, garantindo financiamento, valorizando a carreira docente e combatendo a precarização que atinge quase metade dos professores estaduais amazônidas (BOEHN, 2025; CRUZ; PORTELLA, 2024). Conclui-se, portanto, que o futuro da região dependerá da capacidade de forjar um projeto educativo que enfrente os desafios de infraestrutura com um compromisso inabalável com a descolonização do saber.
REFERÊNCIAS:
AMAZÔNIA REAL. Amazônia: desafios no acesso à educação indígena. Terra Indígena, 5 out. 2022. Disponível em: https://terrasindigenas.org.br/es/noticia/220264. Acesso em: 19 jan. 2026.
BOEHN, Camila. Resultados ruins na educação é efeito da ‘naturalização da desigualdade’. Amazonas Atual, 2025. Disponível em: https://amazonasatual.com.br/resultados-ruins-na-educacao-e-efeito-da-naturalizacao-da-desigualdade/. Acesso em: 19 jan. 2026.
CRUZ, Tássia; PORTELLA, Juliana. A Educação na Amazônia Legal: Diagnóstico e Pontos Críticos. Amazônia 2030, 2024. Disponível em: https://amazonia2030.org.br/educacao-na-amazonia-legal/. Acesso em: 19 jan. 2026.
G1 AMAZONAS. Estudo aponta que Amazonas tem desempenho abaixo da média nacional no Índice de Progresso Social. G1, 16 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2025/07/16/estudo-aponta-que-amazonas-tem-desempenho-abaixo-da-media-nacional-no-indice-de-progresso-social.ghtml. Acesso em: 18 jan. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Foundational Essays on the Coloniality of Power. Organização de Walter D. Mignolo, Rita Segato e Catherine E. Walsh. Durham: Duke University Press, 2024.
TORRES, Leonardo Colossi; MOREIRA, Janine. Perspectiva decolonial e educação: reflexões a partir de experiências. Revista Psicologia Política, v. 23, n. 58, p. 676-692, 2023. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2023000300676. Acesso em: 19 jan. 2026.
VOCATIVO. IBGE: 55% da população do Amazonas vive na pobreza. Vocativo, 7 dez. 2023. Disponível em: https://vocativo.com/2023/12/07/ibge-55-da-populacao-do-amazonas-vive-na-pobreza/. Acesso em: 18 jan. 2026. ZORZAL, Diego (Org.). IDH, Amazônia e os limites dos indicadores globais de desenvolvimento. Revista Oeste, 20 jan. 2026. Disponível em: https://revitaoe.com.br/idh-amazonia-criterios-onu-analise/. Acesso em: 20 jan. 2026.

