Maria Eduarda Perdigão, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama.

Ficha Técnica:

Ano: 2025

Gênero: Romance/Slice of Life

Diretor: Kim Won-seok

Distribuição: Netflix

País de Origem: Coréia do Sul

O K-drama “Se a vida te der Tangerinas” (2025), dirigido por Kim Won-seok e estrelado por atores de renome como IU e Park Bogum, aborda temas como resistência, cotidiano e principalmente, a força feminina. Ambientado na Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, a partir da década de 1950, a série acompanha a história de vida dos personagens Oh Ae-sun e Yang Gwan-sik através das narrações de Yang Geum-myeong, filha mais velha do casal de protagonistas (Esperatti, 2025).

A trajetória de Oh Ae-sun começa ainda em sua infância, filha de uma haenyeo – mergulhadoras livres que trabalham com a pesca de frutos do mar –, a mãe de Ae-sun a encorajava a seguir seus sonhos, acreditando que dessa forma protegeria a filha, mantendo-a longe da vida árdua e infeliz do trabalho de haenyeo. Enquanto a protagonista, movida pela força e determinação inabaláveis herdadas de sua mãe, anseia por escapar da ilha em que vive, sonhando em virar uma renomada poetisa.

Entretanto, os sonhos de Ae-sun são arruinados quando a personagem se enxerga presa no ciclo inquebrável da sociedade patriarcal da época, repassando seus sonhos e oportunidades para a filha, Yang Geum-myeon, encorajando-a a acreditar que pode alcançar todos os seus objetivos de vida.

Carregando o peso de sonhos interrompidos, o precoce amadurecimento e a frustração por não poder escolher o rumo de sua própria vida em seu contexto social, Ae-sun acaba enfrentando inúmeras dificuldades durante grande parte da vida onde, juntamente com Yang Gwan-sik, transforma-se em expressão de resistência e resiliência perante a realidade desigual que os assola.

Apesar de pouco comum, Gwan-sik, cônjuge da protagonista, é retratado como um homem diferente de qualquer outro para a realidade da época. Ele não constrói sua masculinidade através da dominância e da opressão dos desejos de Ae-sun ou de sua filha, pelo contrário, sua masculinidade é marcada pelo reconhecimento da importância das decisões tomadas por Ae-sun e de seu apoio incondicional a esposa, indo contra a todas às normas enraizadas na sua estrutura familiar marcada pelo patriarcalismo.

Nesse viés, o K-drama pode ser interpretado à luz da Teoria Feminista das Relações Internacionais (RI), vertente que busca ampliar a compreensão dos conceitos das relações internacionais formulados, majoritariamente, através de uma visão patriarcal. Acabando por desconsiderar as contribuições femininas para o entendimento das dinâmicas internacionais, tratando mulheres e outras expressões de gênero como margens da sociedade (Smith, 2018).

Nesse sentido, a teórica feminista das Relações Internacionais, J. Ann Tickner, apresenta em sua obra “Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post–Cold War Era” (2001), uma crítica aos paradigmas tradicionais das RI. Para Tickner (2001), conceitos centrais da disciplina como poder, segurança e racionalidade são, majoritariamente, construídos a partir de valores masculinos, acabando por marginalizar experiências associadas ao cotidiano e ao cuidado, tradicionalmente atribuídas às mulheres. Dessa forma, a teórica propõe uma redefinição de conceitos, onde as experiências humanas e inseguranças vividas no dia a dia sejam incorporadas e entendidas como expressões políticas para além do Estado, demonstrando que a exclusão das experiências femininas é intencional e resulta da definição hierarquizada da política internacional.

Em “Se a vida te der Tangerinas“, essa perspectiva se manifesta nas trajetórias das três gerações de mulheres apresentadas no K-drama – A mãe de Ae-sun, Ae-sun e sua filha, Yang Geum-myeon –, evidenciando como as estruturas de gênero podem se reproduzir, mas também podem se transformar ao longo do tempo. Enquanto as histórias de Ae-sun e de sua mãe refletem o contexto de negociação de desejos, restrições e invisibilização, a trajetória de Yang Geum-myeon simboliza a reconfiguração das estruturas impostas. Reforçando assim, o argumento de Tickner (2001) de que a política não é limitada ao Estado, sendo manifestada diariamente através do cotidiano feminino.

Por fim, “Se a vida te der Tangerinas” destaca a resistência feminina através de espaços de afeto, afirmando que mesmo em contextos marcados por perdas, silêncio e limitações, as transformações podem ocorrer pela resiliência e construção de pertencimento. Onde a delicadeza, memória e cuidado são capazes de ressignificar a vida comum, transformando até as vivências mais simples em experiências profundamente significativas.

REFERÊNCIAS:

ESPERATTI, Luana. Crítica | Se a Vida Te Der Tangerinas. 2025. Disponível em: https://entretetizei.com.br/critica-se-a-vida-te-der-tangerinas-e-um-k-drama-delicado-nostalgico-e-cheio-de-afeto-sobre-sonhos-mulheres-fortes-e-amores-que-duram-a-vida-inteira/ Acesso em: 16 Jan 2026

SMITH, Sarah. Introducing Feminism in International Relations Theory. 2018. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/01/04/feminism-in-international-relations-theory/ Acesso em: 17 Jan 2026.

TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post–Cold War Era. 2001. Columbia University Press.