
Keity Oliveira, Pedro Henrique de Aviz e Stefany Campolungo, internacionalistas formados pela UNAMA
Ficha Técnica:
Ano: 2016
Direção: Byron Howard e Rich Moore
Gênero: Animação, Aventura
Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures.
País de Origem: Estados Unidos
O filme “Zootopia” (2016), é um dos maiores sucessos de bilheteria da história das animações da Disney. A obra superou diversos recordes cinematográficos, conquistou o Oscar de “Melhor Animação” em 2017 e superou a marca de 1 bilhão de dólares em bilheteria mundial. A continuação da obra: “Zootopia 2” (2025), também bateu recordes no ano passado e promete continuar o legado de excelência da animação (Jacobs, 2016).
O filme é ambientado na cidade de Zootopia, onde diversos animais falantes tentam conviver em harmonia e equilíbrio, apesar de suas diferenças. Nesse meio, acompanhamos a jornada de Judy Hopps, uma novata na força policial da cidade que é constantemente subestimada por ser uma coelha. Durante a obra, Judy fica responsável por achar uma lontra perdida e, durante sua investigação, se aproxima da raposa Nick Wilde, um charlatão da cidade (Seitz, 2016).
A dupla consegue achar a lontra desaparecida, entretanto a resolução do caso os leva para um mistério político ainda mais complexo de Zootopia em que predadores estavam ficando selvagens e atacando os cidadãos da cidade. Dessa forma, Nick e Judy descobrem que a vice-prefeita da cidade era a culpada por planejar os ataques e instaurar a insegurança e o preconceito entre presas e predadores, controlando a cidade através do medo (Silveira, 2016).
A Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais parte da crítica à universalização dos valores ocidentais e à persistência das hierarquias herdadas do colonialismo no sistema internacional. Mesmo após os processos formais de descolonização, categorias como “civilizado”, “atrasado”, “perigoso” ou “incapaz” continuam organizando relações globais e legitimando práticas de controle, vigilância e violência (Bhabha, 1998). Essa perspectiva denuncia como o Outro é produzido discursivamente como ameaça ou problema, sendo constantemente colocado em uma posição de inferioridade ontológica. Assim, o pós-colonialismo não se limita à análise histórica do colonialismo, mas investiga seus desdobramentos contemporâneos na produção de identidades, políticas de segurança e regimes de exclusão.
Nesse contexto, o pensamento de Frantz Fanon oferece uma contribuição central para compreender os processos de desumanização que estruturam essas relações. Fanon (2008) analisa o colonialismo como um sistema que atua simultaneamente sobre o corpo, a mente e o imaginário social, produzindo o colonizado como um ser incompleto, cuja humanidade é constantemente negada. Em “Pele Negra, Máscaras Brancas” (2008), o autor demonstra como o sujeito subalternizado internaliza as imagens negativas impostas pelo colonizador, vivendo uma experiência de alienação profunda. Já em “Os Condenados da Terra” (1968), Fanon evidencia como a violência colonial é constitutiva da ordem social e como a resistência surge como tentativa de recomposição da humanidade negada. A desumanização, portanto, não é apenas simbólica, mas estruturante das relações de poder.
Essa lógica fanoniana pode ser claramente observada em Zootopia (2016), por meio da divisão simbólica entre presas e predadores. Embora o discurso oficial da cidade afirme que todos coexistem pacificamente, os predadores são historicamente associados à agressividade e à violência, sendo constantemente vigiados e tratados como ameaça latente. Quando uma crise se instala e alguns predadores passam a agir de forma violenta, a reação institucional é imediata: políticas de controle, segregação e medo coletivo são direcionadas a todo um grupo, independentemente de suas ações individuais (Fanon, 2008). Esse processo reflete o mecanismo descrito por Fanon (2008), no qual o Outro é reduzido a uma identidade fixa e perigosa, legitimando sua exclusão em nome da segurança e da ordem.
A personagem Judy Hopps, embora pertença a um grupo socialmente visto como inofensivo, reproduz em determinados momentos essa lógica de desumanização. Ao aceitar e reiterar discursos biologizantes sobre os predadores, Judy demonstra como até mesmo sujeitos marginalizados podem internalizar narrativas hegemônicas e atuar como agentes da reprodução do preconceito. Essa dinâmica dialoga diretamente com a análise fanoniana sobre a internalização da opressão, na qual o subalterno, ao buscar aceitação no sistema dominante, acaba reforçando as estruturas que produzem a exclusão (Fanon, 1968). O filme evidencia, assim, que a desumanização não depende apenas de intenções individuais, mas de um sistema discursivo que molda percepções e práticas sociais.
Ao analisar Zootopia, o filme deixa de ser apenas uma narrativa sobre convivência entre diferentes e se revela como uma poderosa crítica das estruturas coloniais que organizam a sociedade atual. As tensões entre predadores e presas refletem hierarquias racializadas, nas quais o medo, o controle e a produção do “outro” como ameaça sustentam relações de dominação simbólica e institucional. Assim como Fanon (2008) denuncia, a desigualdade não se mantém apenas pela força, mas pela narrativa da inferioridade e pela naturalização da opressão.
Nesse sentido, Zootopia expõe como o discurso da ordem e da segurança pode funcionar como instrumento colonial, legitimando práticas de vigilância, exclusão e silenciamento. A animação também sugere que a verdadeira transformação social não ocorre apenas pela integração superficial ou pela boa vontade individual, mas exige a ruptura com estruturas históricas que produzem a marginalização. Ao dialogar com Fanon (2008), a obra convida o espectador a questionar até que ponto a harmonia pregada pela sociedade do filme é, na realidade, uma convivência condicionada à manutenção de privilégios.
Dessa forma, Zootopia se afirma como uma crítica sutil, porém certeira às lógicas coloniais ainda presentes no mundo contemporâneo, reforçando a atualidade do pensamento fanoniano e demonstrando que, mesmo em universos ficcionais e trajados de infantil, a luta pela libertação passa pelo enfrentamento das estruturas que sustentam a opressão.
REFERÊNCIAS
BHABHA, Homi K. O local da cultura. Tradução: Myriam Ávila; Eliana Lourenço de Lima Reis; Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução: Renato da Silveira. Salvador: EDUFBA, 2008.
FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução: Érico Veríssimo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
JACOBS, Guilherme. Zootopia supera US$ 1 bilhão na bilheteria mundial. Jovem Nerd. 2016. Disponível em: https://jovemnerd.com.br/noticias/filmes/zootopia-supera-us-1-bilhao-na-bilheteria-mundial. Acesso em 15 de janeiro de 2026.
SEITZ, Matt Zoller. Zootopia Movie Review. Roger Ebert. 2016. Disponível em: https://www.rogerebert.com/reviews/zootopia-2016. Acesso em 15 de janeiro de 2026.
SILVEIRA, Renato. Zootopia é a nossa utopia. Cinematório. 2016. Disponível em: https://www.cinematorio.com.br/2016/04/zootopia-e-a-nossa-utopia/. Acesso em 15 de janeiro de 2026.Zootopia. Direção: Byron Howard; Rich Moore. Produção: Clark Spencer. Estados Unidos: Walt Disney Animation Studios, 2016. Filme.
