Albert Juan Lima Tavares – acadêmico do 7º Semestre

A musicalidade amazônica tem sido cada vez mais reconhecida pela sua riqueza cultural de sons e ritmos. O Calypso, o Carimbó, a Guitarrada, a Lambada, o Tecnobrega, são só algumas das inúmeras expressões culturais, que fazem parte da identidade e do cotidiano de milhões de pessoas que vivem na Amazônia. Ritmos herdados por trocas culturais, hibridizações de povos, além das influências de saberes ancestrais; uma cadeia de fatores que faz da Amazônia, um espaço propício à produção de sonorizações tão únicas, que cada vez mais ocupam outros espaços, alcançando diversas regiões do Brasil.

O cenário de concepção da identidade musical amazônica é plural. Liderado pela periferia, o Tecnobrega, que surge num contexto de marginalização, fruto da resistência e da expressão cultural acessível aos moradores das áreas das baixadas de Belém, impressiona pelas estruturas tecnológicas das aparelhagens (Magalhães, 2017).

“Naves” futuristas de luz e som, encantam e desconstroem uma ótica equivocada da construção identitária da população que vive na Amazônia. Nos anos 2000 e 2010, tanto o Brega, quanto o Tecnobrega, se consolidaram nas paradas nacionais, muito pelo protagonismo de mulheres periféricas, como Gaby Amarantos e Viviane Batidão, que utilizaram de seu protagonismo para representar a região amazônica e a cultura das baixadas no cenário musical nacional (Rocha, 2020).

O protagonismo periférico, é só um dos responsáveis pela magnitude da riqueza musical da Amazônia. O intercâmbio cultural, foi também um dos pilares fundamentais na construção dessa identidade. Ao contrário de outras regiões do país, a musicalidade latino-caribenha, esteve presente por décadas e até hoje na cena musical dos estados do Norte, mais especificamente no Pará e no Amapá.

A importância da difusão cultural da Pan-Amazônia, se deu pelas trocas interculturais, pelo contato de pessoas, e pelos rios, que neste contexto se reafirma como um canal que desempenha não só uma importância econômica, mas uma zona franca de troca de saberes culturais (Oliveira, 2021).

A proximidade geográfica do Norte do país com o Caribe, permitiu que fossemos sintonizados nas ondas de rádios latino-caribenhas nos anos 1970, incorporando ritmos em nossa cultura, não encontrados em outras regiões do Brasil. Ritmos que nascem em contextos marginalizados: portos, bares e danceterias da periferia de Belém.

Neste contexto, tais influências perpetuaram na difusão dos sons que conhecemos hoje como Calypso, Lambada e Merengue, onde o Caribe foi fundamental nessa construção identitária, influenciando até outros ritmos já consolidados como o Carimbó e o Brega, muito impactados pela musicalidade da Cumbia, que tem como base de sua sonorização contribuições indígenas e africanas (Rocha, 2020).

Toda essa riqueza presente na formação identitária da musicalidade amazônica, pode ser analisada sob a ótica do sociólogo peruano Aníbal Quijano, a partir da Teoria Decolonial das Relações Internacionais. Neste contexto, a cultura musical amazônica resiste aos processos de colonialidade ao colocar em protagonismo na sua formação a troca de saberes culturais entre povos marginalizados e o hibridismo musical com países caribenhos, superando estigmas e criando de maneira única uma rica relação identitária entre Caribe-Amazônia, valorizando a nossa territorialidade e superando as amarras do colonialismo.

Quijano, debate que as dinâmicas do sistema colonial ainda estão presentes no nosso cotidiano, assim como as estruturas de dominação de diversos povos, entre eles os que vivem na Amazônia. Todo este contexto de formação musical da região, simboliza a resistência em meio a um cenário que perpetua mecanismos de exclusão, imposição de padrões e silenciamento culturais (Quijano, 2005).

Portanto, se considera que a pluralidade da musicalidade amazônida se dá pela junção de elementos que envolvem diversas culturas, povos e tradições, que vai desde contribuições indígenas e de matrizes africanas, até a inserção de sonorizações tecnológicas influenciadas por ritmos mais recentes como o eletropop.

É imperativo reconhecer a Amazônia como um território único de fonte de produção de conhecimento cultural, que valoriza suas heranças e respeita manifestações locais influenciadas pelas relações socioculturais de suas populações. Tal conjuntura evidencia a riqueza historiográfica responsável pela formação da identidade dos povos amazônicos, reconhecendo sua importância sociopolítica para a conexão entre o território, a natureza e outras formas de resistências.

REFERÊNCIAS

ROCHA, FLÁVIA. O arrasta povo do Pará. Jornal Beira do Rio, 2020. Disponível em: https://www.beiradorio.ufpa.br/index.php/nesta-edicao/435-o-arrasta-povo-do-para. Acesso em: 20 jan. 2026

MAGALHÃES, RODRIGO. Experiências do lugar: Uma etnografia de festas de aparelhagem nas periferias de Belém do Pará, focada em seus frequentadores. Universidade Federal de Minas Gerais: Belo Horizonte, 2017.

OLIVEIRA, LORENA. A relação entre a Pan-Amazônia é marcada pela música. Festival Psica.Disponível em: https://festivalpsica.com.br/2025/02/05/a-relacao-entre-a-pan-amazonia-e-marcada-pela-musica/. Acesso em 22 Jan. 2026 QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina1. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires:Clacso, 2005.