
Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais
Mulher negra, oriunda da favela Chapéu Mangueira, no Rio de Janeiro, Benedita da Silva é uma das políticas mais influentes do Brasil, se destacando pelo seu ativismo no movimento negro e feminista ao ser pioneira na ocupação de uma série de cargos públicos importantes (UFRRJ, 2024). Sua atuação política não pode ser compreendida apenas no plano institucional, mas como expressão de lutas sociais que dialogam com debates centrais das Relações Internacionais.
Nascida em 1942, Bené, como ficou conhecida, cresceu em volta de uma família grande de 14 irmãos, filhos da lavadeira Maria da Conceição e do pedreiro José Tobias. Ainda criança, Benedita precisou trabalhar para garantir a sobrevivência, dentre seus trabalhos, era também entregadora de roupas lavadas por sua mãe, que tinha como clientes a família do presidente da República Juscelino Kubitschek (Memória Feminista, 2023).
Bené iniciou sua atuação política nos anos de 1960 e 1970, como líder comunitária na Associação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro, onde dava aula como voluntária para adultos e jovens com o método Paulo Freire na Escolinha Comunitária da Favela Chapéu Mangueira. Em seguida, foi eleita presidente da Associação de Moradores do Morro do Chapéu Mangueira (UFRRJ, 2024). Sua atuação na comunidade foi fundamental para a construção de uma consciência política voltada à justiça social, à defesa dos direitos humanos e ao enfrentamento das desigualdades estruturais.
Em uma década sob a sombra da ditadura, mas com o surgimento de muitos movimentos sociais, Bené inicia sua atuação na militância dentro da favela mesmo, e se alinha tanto ao movimento negro quanto ao feminismo, compreendendo que as opressões vividas pelas mulheres negras e faveladas eram atravessadas por múltiplas dimensões de exclusão.
Assim, fundou o departamento feminino da Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (FAFERJ) e o Centro de Mulheres de Favelas e Periferia (CEMUF). Anos depois, faz os cursos de Serviço Social e Estudos Sociais na Faculdade de Serviço Social do Rio de Janeiro (1980-1984) e se forma aos 40 anos (FUKS, 2021).
Ao expandir sua atuação das favelas para as massas, Bené integrou o grupo de fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Já em 1982, a partir deste grupo, Bené quebra o primeiro tabu: torna-se a primeira vereadora negra da cidade do Rio, com uma campanha marcada pela articulação das pautas identitárias de gênero, raça e território com o slogan “negra, mulher e favelada” (Ancestralidades, 2023).
Ao longo de sua trajetória, a jornada política de Benedita foi meteórica, pois ocupou os cargos mais altos, estratégicos e inéditos para mulheres negras no Brasil. Em 1986, mais um destaque histórico: torna-se a primeira deputada federal negra na Assembleia Nacional Constituinte (UFRRJ, 2024). Em seu depoimento, não existia banheiros para mulheres, era a única negra entre os deputados (TV Senado, 2018). Lá sua presença foi crucial na luta pela demarcação das terras indígenas, na regulamentação da propriedade da terra nas comunidades remanescentes de quilombos e pelos direitos trabalhistas de empregadas domésticas (UFRRJ, 2024).
Já em 1994, Benedita concorreu ao Senado pelo Estado do Rio de Janeiro, e obteve o primeiro lugar com 22,7% dos votos. Como primeira mulher negra diretamente eleita como senadora a ocupar o parlamento brasileiro do Brasil, Bené defendeu especialmente os direitos humanos, dando especial atenção aos grupos sociais menos favorecidos economicamente, onde inclusive sua carreira passa por um marco importante: sua proposta para regulamentar o trabalho dos empregados domésticos ser aprovada. Tal projeto garantiu a esses trabalhadores o seguro-desemprego, o FGTS e também o tempo fixo de trabalho em 8 horas diárias e 44 semanais (com direito a pagamento de horas extras) (FUKS, 2021).
Em 2002, Benedita também se tornou a primeira mulher a governar o Estado do Rio de Janeiro, depois que o então governador Antony Garotinho renunciou ao cargo, pois ela era sua vice. Para assumir o posto político, ela precisou renunciar a sua cadeira no senado, e durante o governo, teve como destaque a implantação da lei de cotas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). No ano seguinte, Benedita tornou-se Ministra de Estado da Secretaria Especial da Assistência e Promoção Social (2003-2004), durante o primeiro mandato do presidente Lula, pois já eram parceiros políticos desde a fundação do PT (FUKS, 2021).
Em todas essas atuações, Benedita não apenas ocupou espaços de poder, mas tensionou as estruturas institucionais ao levar para o centro do debate político vozes historicamente silenciadas, desafiando a lógica elitista que tradicionalmente caracteriza a política brasileira. Daí, é notório o quanto sua trajetória se destaca pelo caráter representativo: Benedita tornou-se um símbolo de possibilidade e resistência, mostrando que sujeitos historicamente marginalizados podem ocupar espaços de decisão e influenciar agendas políticas nacionais.
Nesse sentido, a jornada de Benedita da Silva como mulher negra na política brasileira dialoga diretamente com aTeoria Feminista que amplia a compreensão dos conceitos das Relações Internacionais, elaborada, principalmente, através de uma perspectiva patriarcal (Penagos, 2018). A autora feminista J. Ann Tickner, em sua obra Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post–Cold War Era (Tickner, 2001), mostra como os paradigmas tradicionais das RI, como o realismo e o liberalismo, refletem posições de poder historicamente associadas a partir de uma perspectiva centrada no homem, no Estado e assim excludente. Ao propor a “generificação” da política mundial, a autora defende a incorporação das experiências das mulheres como fonte legítima de conhecimento, rompendo com a falsa neutralidade que sustenta as teorias tradicionais.
A atuação de Benedita da Silva dialoga diretamente com a crítica de Tickner (2001) ao deslocar o foco da política para temas sistematicamente marginalizados nas análises clássicas das RI, como pobreza, desigualdade social, raça, gênero e proteção social. Embora sua atuação se concentre no plano doméstico, ela evidencia como a segurança humana, conceito importante às abordagens feministas, está intrinsecamente ligada às condições materiais de vida, especialmente das populações periféricas e racializadas.
Além disso, a trajetória de Benedita questiona a centralidade do Estado como ator homogêneo e racional, ao demonstrar que as decisões políticas são atravessadas por assimetrias de poder internas, baseadas em gênero, raça e classe. Assim como Tickner (2001) questiona quem define o que é “segurança” e para quem ela é pensada, Benedita, em sua atuação política, amplia esse conceito ao priorizar políticas públicas voltadas ao bem-estar, à dignidade e à sobrevivência cotidiana do trabalhador marginalizado.
Portanto, é perceptível o quanto a trajetória de Benedita da Silva ultrapassa os limites da política institucional e se consolida como um marco na luta por justiça social, igualdade racial e equidade de gênero no Brasil. Sua atuação evidencia que a política é um espaço de disputa simbólica e material, no qual a presença de mulheres negras redefine prioridades e amplia horizontes democráticos.
REFERÊNCIAS
ANCESTRALIDADE. Benedita da Silva. Ancestralidade, 2023. Disponível em: https://www.ancestralidades.org.br/biografias-e-trajetorias/benedita-da-silva. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
FUNKS, Rebeca. Benedita da Silva. E-biografia, 2021. Disponível em: https://www.ebiografia.com/benedita_da_silva/. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
MEMÓRIA FEMINISTA. Benedita da Silva (11 de março de 1942 – atualmente). Memória Feminista, 2023. Disponível em https://memoriafeminista.com.br/benedita-da-silva-11-de-marco-de-1942-atualmente/. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
PENAGOS, Juliana. Una reformulación desde la crítica: El feminismo de Ann Ticker. PoInt, 2018. Disponível em https://www.icesi.edu.co/blogs/point/2018/12/10/una-reformulacion-desde-la-critica-el-feminismo-de-ann-ticker/. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
TV SENADO. Benedita da Silva relembra luta pelos direitos das minorias durante a Constituinte. TV Senado, 2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EBLwWB3g-q4. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
UFRRJ.Benedita da Silva: resistência, orgulho e quebra de tabus. UFRRJ, 2024. Disponível em: https://portal.ufrrj.br/benedita-da-silva-resistencia-orgulho-e-quebra-de-tabus/. Acesso em 01 de fevereiro de 2026.
TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics: Issues and Approaches in the Post–Cold War Era. 2001. Columbia University Press.
