
Enzo Di Lucca Souza Alcantara Da Costa – acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Às margens do 56º Fórum Econômico Mundial, em janeiro de 2026, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, formalizou seu projeto para uma estrutura internacional privada batizada de Board of Peace (Conselho da Paz). Na ocasião, ele assinou a carta de fundação da organização com outros 26 líderes. Segundo Trump, a instituição visa promover a estabilidade e garantir uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos. Entre suas primeiras missões declaradas, destaca-se a reconstrução e a recuperação econômica da Faixa de Gaza como parte de um plano de paz. Seu propósito real, no entanto, revela-se muito mais complexo, estratégico e contraditório do que um gesto puramente altruísta de seu fundador.
A organização, que consiste em uma estrutura multinível altamente centralizada, é, como descreve o professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) Oliver Stunkel, profundamente personalista (G1, 2026). Donald Trump, figura central do Conselho, é designado em seu estatuto como chairman (presidente) vitalício, detendo amplos poderes. Stunkel prossegue em sua análise caracterizando a iniciativa como uma abordagem unilateral que concentra autoridade na figura de Trump, a quem caberia influência decisiva e poder de veto sobre o funcionamento do órgão.
Ao analisar a condução da política externa estadunidense no contexto do estabelecimento do Conselho da Paz, contradições insólitas tornam-se evidentes, embora o governo dos EUA demonstre pouco esforço em ocultá-las. Apenas nos primeiros meses de 2026, episódios como o bombardeio e a subsequente invasão da Venezuela, somados à pressão política e econômica sobre Groenlândia, ilustram essa realidade. Esse histórico recente, somado ao mais amplo de episódios de intervenção e coerção internacional dos EUA, testemunha contra os preceitos que a instituição busca promover.
Ademais, embora cerca de 60 nações, incluindo o Brasil, tenham recebido convites para integrar o Conselho, apenas 26 aceitaram a adesão até o momento (AL JAZEERA, 2026; REUTERS, 2026), com países como França e Alemanha se recusando a participar (CNN, 2026), enquanto países da África Subsaariana sequer foram convidados. Para países governados por aliados ideológicos de Donald Trump, como Hungria e Argentina, e outros com notórios históricos de violações de direitos humanos, como Arábia Saudita, Azerbaijão e Belarus, a adesão à organização revela-se como um alinhamento estratégico aos EUA, a adesão de Israel ao Conselho (AL JAZEERA, 2026) escancara a organização como uma manifestação concreta da Hipocrisia Organizada, conforme definido por Krasner (1999).
O conceito de hipocrisia organizada, importado por Stephen Krasner dos trabalhos do sociólogo sueco Nils Brunsson, busca entender como as organizações modernas lidam com demandas conflitantes e normas contraditórias. Em sua obra, A Organização da Hipocrisia: Discurso, Decisões e Ações nas Organizações (1989), Brunsson argumenta que as organizações não são entidades puramente racionais e coerentes, mas sim sistemas que precisam equilibrar a necessidade de ação eficiente com a necessidade de legitimidade social. A hipocrisia, na definição de Brunsson, refere-se a uma inconsistência fundamental entre o que uma organização diz, o que ela decide e o que ela efetivamente faz.
Stephen Krasner importa esse conceito para desconstruir o conceito de “soberania de Vestfália”. Ele argumenta que a soberania funciona sob a lógica da hipocrisia organizada. Em sua perspectiva, os princípios soberanos vestefalianos, a não intervenção, respeito à integridade das nações, o reconhecimento dos Estados e de seus povos, são normas duradouras que os governantes endossam publicamente para manter a ordem e a legitimidade, mas que são violados sempre que o interesse material ou a sobrevivência no poder exigem uma ação contrária.
A tese central de Krasner é apresentada de forma mais aprofundada em sua obra Soberania: Hipocrisia Organizada (1999). O autor define o conceito, no contexto das Relações Internacionais, como a persistência de normas de longa duração que são rotineiramente ignoradas ou violadas na prática. Para Krasner, a hipocrisia organizada se manifesta por meio de princípios duradouros que, embora frequentemente desrespeitados, constituem uma característica persistente das relações globais (KRASNER, 1999, p. 24).
O apoio e o financiamento à campanha militar em Gaza, seguidos pelo convite para que Israel integre o Conselho da Paz para a reconstrução, reforçam a percepção da institucionalização da hipocrisia organizada de Krasner sob a forma de uma organização internacional.
Ao analisar essas contradições, torna-se evidente que a função prática que o Conselho da Paz virá a desempenhar não será a de promover a estabilidade, mas sim servir como uma alternativa de poder. Quando questionado se o órgão substituiria as Nações Unidas, Trump afirmou que “pode ser” (REUTERS, 2026), alegando que a ONU simplesmente não tem sido muito útil. Analistas já apontam preocupações recorrentes de que o Conselho venha a se configurar como uma estrutura institucional paralela às Nações Unidas, esvaziando normas consolidadas de governança global.
REFERÊNCIAS
AL JAZEERA. Who is part of Trump’s Board of Peace for Gaza. Al Jazeera, 18 jan. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/1/18/who-is-part-of-trumps-board-of-peace-for-gaza. Acesso em: 3 fev. 2026.
AP NEWS. Trump launches peace board as Gaza war dominates Davos. Associated Press, 22 jan. 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/trump-davos-peace-board-zelenskyy-gaza-f3b265cff4032d51cb5f14bc1cd2d2a3. Acesso em: 3 fev. 2026.
BRUNSSON, Nils. Organizing for inconsistencies: on organizational conflict, depression and hypocrisy as substitutes for action. Scandinavian Journal of Management Studies, v. 2, n. 3–4, p. 165–185, 1986.
BRUNSSON, Nils. The organization of hypocrisy: talk, decisions and actions in organizations. Chichester: John Wiley & Sons, 1989.
CNN. Trump launches Gaza “Board of Peace” amid concerns over UN rivalry. CNN, 20 jan. 2026. Disponível em: https://edition.cnn.com/2026/01/20/politics/trump-gaza-board-of-peace-united-nations. Acesso em: 3 fev. 2026.
G1. ONU paralela? Por que o “Conselho da Paz” de Trump está gerando temor entre lideranças mundiais. G1, 20 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/20/onu-paralela-por-que-o-conselho-da-paz-de-trump-esta-gerando-temor-entre-liderancas-mundiais.ghtml. Acesso em: 3 fev. 2026.
KRASNER, Stephen D. Sovereignty: organized hypocrisy. Princeton: Princeton University Press, 1999.
REUTERS. Trump launches Board of Peace that some fear rivals UN. Reuters, 22 jan. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/europe/trump-launch-board-peace-that-some-fear-rivals-un-2026-01-22/. Acesso em: 3 fev. 2026.
