Manuelle Catunda Gaia, internacionalista formada pela Universidade da Amazônia.

No cenário contemporâneo do sistema alimentar global, resultado direto da globalização neoliberal, os alimentos ultraprocessados emergem como um grupo distinto caracterizado por formulações hiper industriais cujo objetivo principal é manipular os atributos sensoriais dos alimentos in natura e prolongar a validade comercial (Monteiro et al., 2016).

É de conhecimento global que a existência de vastas evidências científicas consolida a associação entre o consumo desses produtos e a maior vulnerabilidade a agravos à saúde e mortes prematuras. Ainda assim, esta forçosa transição dietética, marcada pela conveniência baseada em concentração de poder econômico e pelo monopólio publicitário, deteriora o bem-estar populacional e promove uma distorção cultural das tradições alimentares locais (Nyéléni Newsletter, 2024).

O debate acerca dos perigos dos alimentos ultraprocessados pode e deve ser entendido não apenas como um debate nutricional, mas como de um campo de tensão onde interesses econômicos transnacionais, políticas públicas de saúde e o direito humano à alimentação adequada se confrontam, demandando uma análise crítica holística. Conforme destaca Almeida (2019), enquanto consumidores reféns da oligopolização capitalista internacional, perdemos autonomia na forma que escolhemos o que e como nos alimentar.

Se perdemos isso, perdemos, enquanto seres coletivos, nossa soberania alimentar. Diante disto, a instrumentalização ao redor da garantia desta soberania alimentar se apresenta como um marco conceitual fundamental. Concebida em rejeição à agenda neoliberal, esta soberania busca garantir o direito dos povos à autodeterminação alimentar, propondo a construção de políticas e estratégias sustentáveis definidas localmente que garantam o direito de escolha e acesso pleno à alimentação adequada e soberana para toda a população (Via Campesina, 2001).

Em acordo com a Via Campesina (2001), a dificuldade de manter nossa soberania alimentar se dá pelo fato de que a atual dominação dos ultraprocessados e do modelo que os produz não é um fenômeno espontâneo, mas sim uma consequência de políticas econômicas, agrícolas e comerciais específicas, impostas em múltiplos níveis por potências e corporações em sua busca por manter e expandir sua hegemonia no processo de reestruturação econômica global.

Diante disto, resgata-se a teorização marxista das Relações Internacionais. Este enfoque permite compreender a alimentação não como uma esfera isolada, mas como um fenômeno radicado nas relações de produção, propriedade e poder do capitalismo global. A produção de alimentos constitui, historicamente, um ponto estratégico crucial para a análise marxista, pois, como assinalou Marx (1982), a propriedade do solo é a fonte original de toda riqueza, e sua disposição é questão decisiva para o futuro das relações sociais.

Este processo assegura a continuidade de ciclos de acumulação, transformando um direito humano fundamental em uma mercadoria altamente lucrativa e padronizada. A globalização da dieta ultraprocessada é a expressão concreta de um regime alimentar corporativo transnacional, no qual a concentração de capital e o controle sobre cadeias produtivas extensivas permitem a hegemonia de um modelo que prioriza o valor de troca em detrimento da qualidade de uso dos alimentos.

A compreensão desta arquitetura de poder, à luz do pensamento marxista, auxilia o entendimento de que sua superação exige um enfrentamento direto das relações de propriedade e produção que a sustentam. Neste sentido, como propõe Gaia (2025):

“[…] a soberania alimentar não pode ser plenamente compreendida sem referência às críticas estruturais do marxismo ao Estado capitalista e ao sistema mundial imperialista, posicionando-a, assim, como um projeto de transformação radical das relações de poder no sistema alimentar global” (Gaia, 2025, p. 14).

Compreender, através de Marx (1990), que a alimentação foi convertida em um veículo de valorização financeira e dominação, é reconhecer que a verdadeira solução requer uma reivindicação coletiva dos meios de produção e do direito de lutar para estar à mesa, e não no menu. Para recuperarmos a soberania sobre nossos pratos, é imperativo olhar além deles e engajar-nos na complexa tarefa de reformular o sistema alimentar em sua totalidade.

Esta reformulação, inspirada pelos princípios da soberania alimentar, implica necessariamente uma ruptura com o modelo agroindustrial hegemônico, cuja dependência de monoculturas e das longas cadeias de comércio global gera impactos ambientais devastadores. A transição rumo a alternativas viáveis demanda a implementação de políticas públicas robustas que fomentem a agroecologia, circuitos de comercialização mais justos e diversificação produtiva (Nyéléni Newsletter, 2024).

Portanto, enfrentar os perigos dos alimentos ultraprocessados exige a adoção de uma perspectiva crítica que una a compreensão das determinações econômicas do capitalismo global à luta concreta pela soberania alimentar, entendida como um passo fundamental na construção de um projeto de sociedade que coloque o bem-estar coletivo no centro das decisões sobre o que, como e para quem produzimos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, Mário Tito Barros. A dinâmica eco-geopolítica da fome e as relações de poder na governança global da segurança alimentar: a soberania alimentar como resistência. Tese de Doutorado (Programa de Estudos Pós-Graduados em Relações Internacionais) – Instituto de Relações Internacionais, Universidade de Brasília, Brasília, 2019.

GAIA, Manuelle Catunda. Uma revolução à mesa contra o imperialismo: O Estado socialista cubano e a construção da soberania alimentar. Monografia (Bacharelado em Relações Internacionais) – Curso de Relações Internacionais, Universidade da Amazônia, 2025. Disponível em: https://www.academia.edu/Uma Revolução À Mesa contra o Imperialismo: O Estado Socialista Cubano e a Construção da Soberania Alimentar.Monografia.pdf.

MARX, Karl. A nacionalização da terra. Moscou: Editorial Avante!, 1982.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Moscou-Lisboa: Editorial Avante!,1990.

MONTEIRO, Carlos A et al. Classificação dos alimentos. Saúde Pública. World Nutrition Volume 7, n. 1-3, Janeiro-Março, 2016.

Nyéléni Newsletter. Ultra-processed food, a “corporate diet”. Nyéléni Newsletter, Global, n. 55, março de 2024. Via Campesina. Declaración Final del Foro Mundial sobre Soberanía Alimentaria. Habana, 2001. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/documents/t1d00123.pdf.