
Antônio Vieira do Nascimento – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama
Sob o avanço das mudanças climáticas, o Ártico destaca-se por ser a região que sofre os impactos do aquecimento global de forma mais acelerada (WWF, s.d). Dentre as populações afetadas estão os povos indígenas inuit, que habitam há séculos o território da Groenlândia. Apesar do panorama ser crítico para a vida na terra, alguns países veem no derretimento do gelo Ártico uma vantagem competitiva, o qual facilita a abertura de novas rotas marítimas, a exploração de commodities – como minérios e petróleo -, e a implementação de bases militares (VLADIMIROV; PETROVA, 2026).
Nesse sentido, a atual disputa geopolítica na região é protagonizada por grandes potências como Rússia, China, EUA e Dinamarca. Nações como a Rússia, por exemplo, investem na região há décadas e detém cerca de 80% da produção de gás e petróleo no Ártico. Além disso, o país possui dois terços de suas reservas de terras raras na zona Ártica, minérios que são essenciais para a transição energética contemporânea (VLADIMIROV; PETROVA, 2026).
Aliado a isso, a Groenlândia abriga uma considerável quantidade desses minerais críticos, que são grandes atrativos para o mercado verde chinês. Outrossim, o país asiático tem como estratégia geoeconômica na zona ártica o que foi denominado de “Rota da Seda do Ártico”, por ser uma rota marítima 40 % mais rápida e com menos conflitos em comparação a rotas como o canal de Suez, no Egito (SOUZA, 2024)
Nesse contexto, devido a proximidade com a América do Norte, o território da Groenlândia também se tornou um dos principais focos do Governo Trump, que afirma reconhecer a região como um pilar da defesa nacional contra possíveis ataques russos e chineses (KOLA, 2026). À luz disso, entre as afirmações recentes do presidente, ele declara o desejo de construir o que ficou conhecido como o “sistema de defesa Domo de Ouro”. Contudo, ele não foi enfático quanto aos interesses sobre os minérios groenlandeses (KOLA, 2026). Paralelamente, sob o interesse de adquirir o território groenlandês, ele afirmou no Fórum Econômico em Davos: “Apenas os EUA podem proteger essa enorme massa de terra, esse gigantesco bloco de gelo, desenvolvê-lo e melhorá-lo” (ZURCHER; EDGINGTON, 2026).
No entanto, os groenlandeses não demonstram estima pelas declarações do chefe de Estado. De acordo com o ex-presidente do Conselho Circumpolar Inuit, Aqqaluk Lynge, em janeiro de 2025, quando Trump declarou as suas intenções para com a aquisição da ilha, uma pesquisa pública resultou na desaprovação de 85% dos groenlandeses em relação a anexação norte-americana. Em 2026, Lynge tem certeza de que a porcentagem aumentou (INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 2026).
Em relação à história moderna da Groenlândia, a região enfrentou a colonização dinamarquesa durante dois séculos e, embora tenha adquirido a sua autonomia em 1953, é considerada parte do reino dinamarquês e dependente da sua economia (DW, 2026). Além disso, apesar do Governo dinamarquês ter se oposto às declarações de Trump, parte da população groenlandesa se opõe ao domínio da Dinamarca, haja vista que a independência da ilha é um desejo de décadas pelos povos inuítes (INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 2026).
Segundo a obra “A Política Entre as Nações” – do teórico das Relações Internacionais Hans Morgenthau – livro que visa sistematizar o comportamento dos Estados no período da guerra, Hans define seis princípios para analisar as interações interestatais. Todavia, aqui serão destacados apenas 3. Dessa maneira, de início o autor afirma que assim como o homem, os Estados vão seguir leis naturais, como, por exemplo, o desejo de sobrevivência. No que concerne ao segundo princípio, Morgenthau destaca que os interesses dos Estados são sempre definidos em termos de poder. Por fim, o quarto salienta que, para uma nação garantir os seus interesses, não é necessário que ela siga os mesmos dilemas morais do ser humano (MORGENTHAU, 1948).
Nessa perspectiva, depreende-se que o cenário de disputa pelo controle da Groenlândia está marcado pela necessidade de sobrevivência econômica e política dos Estados envolvidos. Os EUA, por exemplo, enxergam na região dois interesses fundamentais: a segurança nacional diante da hegemonia russa no Ártico, e a necessidade de se tornarem competitivos em relação à China, no que concerne ao controle das terras raras.
Enquanto o Estado chinês detém 44 milhões de toneladas dos minérios raros, os EUA possuem apenas 45 mil toneladas (INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS, 2025). Vale ressaltar que tais minerais raros são essenciais para a nova cadeia do comércio global, baseada na produção de telefones celulares, carros elétricos, e sistemas de inteligência artificial (KOLA, 2026).
Consoante a isso, o segundo princípio de Morgenthau também se adequa a essa realidade, uma vez que, tanto os EUA, China, e Rússia almejam expandir o seu poder na região de forma racional. O Domo de Ferro serve como dissuasão, junto com a tentativa de Trump em comprar a ilha. Para a Rússia, ter controle da Groenlândia significa contornar a proibição da União Europeia às importações de gás natural liquefeito russo, que entra em vigor a partir de 1° de janeiro de 2027. Ou seja, o acesso livre ao Mar Ártico – considerada uma rota marítima de menor distância – é crucial para o Estado russo redirecionar as suas exportações para a Ásia, uma importante aliada comercial ((VLADIMIROV; PETROVA, 2026).
Por conseguinte, é de suma importância destacar que a vigente disputa interestatal pelo controle do território da Groenlândia está aquém ao dever moral para com as populações Inuítes, que veem o seu lar sendo ameaçado pela conduta neocolonial do Governo Trump. No início de 2026, O Governo norte-americano impôs novas tarifas à Dinamarca e a outros sete países que se opuseram ao seu plano de aquisição do território (ZURCHER; EDGINGTON, 2026). Aqui é possível ver o quarto princípio de Morgenthau em prática, uma vez que a abordagem de Trump não se absteve do uso de ameaças e do desrespeito à história dos nativos groenlandeses.
Sob essa ótica, a obra de Hans Morgenthau ajuda a entender uma das perspectivas do atual conflito diplomático entre os países que buscam a hegemonia sobre o ártico. Infelizmente, em um sistema internacional marcado pela ausência de uma entidade reguladora eficaz, o que se observa são as potências usando discursos securitários e econômicos para subalternizar vidas humanas. Ademais, o futuro da Groenlândia ainda não está definido, porém, algo é certo: os recursos do Ártico moldarão os mercados globais pelas próximas décadas.
“Uma invasão americana da Groenlândia aniquilaria nosso povo”, diz líder inuit. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), São Leopoldo, 10 jul. 2026. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/662113-aqqaluk-lynge-lider-inuit-uma-invasao-americana-da-groenlandia-aniquilaria-nosso-povo. Acesso em: 8 fev. 2026.
Climate change. WWF. Disponível em: https://www.arcticwwf.org/threats/climate-change/. Acesso em: 8 fev. 2026.
Groenlândia – Entre a Dinamarca e Trump. Deutsche Welle (DW), 16 jan. 2026. Disponível em: https://www.dw.com/en/greenland-between-denmark-and-trump/a-75533481. Acesso em: 8 fev. 2026.
KOLA, Paulin. Donald Trump e a Groenlândia: o que se sabe sobre ‘estrutura de um futuro acordo’ para o território. BBC News Brasil, 22 jan. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czx11p0ppr2o. Acesso em: 8 fev. 2026.
MORGENTHAU, H. J. Politics Among Nations: The Struggle for Power and Peace, 1948.
O que são elementos de terras raras e por que estão no centro do conflito entre as potências. Instituto Humanitas Unisinos (IHU), São Leopoldo, 30 out. 2025. Disponível em: https://ihu.unisinos.br/categorias/659218-o-que-sao-elementos-de-terras-raras-e-por-que-estao-no-centro-do-conflito-entre-as-potencias. Acesso em: 8 fev. 2026
SOUSA, Wagner. Ártico: a geopolítica do extremo Norte do mundo. Outras Palavras,São Paulo, 23 fev. 2024. Disponível em: https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/artico-a-geopolitica-do-extremo-norte-do-mundo/. Acesso em: 8 fev. 2026.
VLADIMIROV, Martin; PETROVA, Vanya. Estados Unidos e Europa ficam para trás na corrida pelo controle do Ártico. Reuters, 30 jan. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/markets/commodities/us-europe-fall-behind-race-control-arctic-2026-01-30/. Acesso em: 8 fev. 2026.
ZURCHER, Anthony; EDGINGTON, Tom. O novo argumento de Trump para anexar a Groenlândia — e ele faz sentido? BBC News Brasil, 21 jan. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/czdqgzqyd44o. Acesso em: 8 fev. 2026.
