Caio Farias Martins

Marcelo Eduardo Alves de Brito

O acrônimo BRIC nasceu em 2001, pelo economista Jim O’Neill, membro do banco de investimentos Goldman Sachs em reconhecimento ao dinamismo de crescimento econômico de Brasil, Rússia, Índia e China. Em 2006, estas nações iniciaram os diálogos com o intuito de fortalecer posições comuns,  democratizar, legitimar e equilibrar a ordem internacional e, em 2011, o então novo bloco internacional teve sua primeira adesão: a África do Sul. Nos anos seguintes, o grupo aprofundou sua coordenação política e econômica, processo que culminou na ampliação de sua composição, com a incorporação de novos membros a partir de 2024 (BRICS, 2024).

Com o desenvolver da primeira década do século XXI, o bloco demonstrou firmeza política, diversificou as oportunidades internacionais e inseriu a voz do sul global no sistema internacional, principalmente após a crise de 2008, na qual os então quatro países buscaram atuar de forma concertada, no âmbito do G20, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, com propostas de reforma da governança econômica e financeira internacional, de modo a refletir o aumento do peso relativo dos países emergentes na economia mundial (BRICS, 2024).

Fonte: O GLOBO, 2024. 

O gráfico acima apresenta o peso econômico e demográfico do BRICS+ após sua expansão, destacando a participação conjunta do bloco no Produto Interno Bruto mundial e na população global. Segundo os dados, o BRICS ampliado passa a concentrar aproximadamente 27% do PIB mundial, o equivalente a US$ 28,27 trilhões, e cerca de 43% da população global, totalizando 3,5 bilhões de pessoas.

Logo, a combinação entre capacidade produtiva, mercados consumidores amplos e diversidade de estruturas econômicas fortalece o potencial de aprofundamento do comércio Sul-Sul, reduzindo a dependência de fluxos tradicionais orientados pelo Norte Global e ampliando as possibilidades de integração econômica entre países em desenvolvimento (OZCAN, 2016).

Ademais, a entrada de países estratégicos dos setores energético, financeiro e geopolítico confere ao BRICS+ maior margem de manobra na construção de alternativas ao padrão monetário internacional vigente. Assim, o bloco possibilita a coordenação econômica entre os membros, criando condições favoráveis para a utilização de moedas nacionais em transações comerciais e financeiras, e contribuindo para a gradual redução da centralidade do dólar. 

Neste sentido, a atual configuração dos BRICS+,  sustenta a interpretação de que a organização representa um vetor relevante de reconfiguração da ordem econômica mundial, ao articular maior autonomia, cooperação Sul-Sul e contestação das assimetrias estruturais do sistema internacional. (LIMA, 2025).

Segundo Wallerstein (1974), a economia-mundo capitalista se organiza a partir de uma divisão internacional do trabalho que hierarquiza os Estados entre centro, semiperiferia e periferia, mantendo relações assimétricas de produção, comércio e poder. Sendo assim, os BRICS+ buscam ampliar sua margem de manobra sistêmica ao fortalecer mecanismos de cooperação econômica, financeira e política entre si, reduzindo a dependência estrutural em relação aos países centrais.

Neste sentido, a intensificação do comércio Sul-Sul, diversificação de parceiros comerciais e a substituição dos mecanismos de troca refletem, assim, uma consequência direta da quebra do Status Quo no sistema internacional, uma estratégia de contestação à lógica centro-periferia, ao mesmo tempo em que revelam o enfrentamento dos limites impostos pelo próprio funcionamento do sistema. 

Sendo assim, o bloco atua como um vetor de reorganização gradual da economia-mundo, expressando uma tentativa de maior autonomia sistêmica do Sul Global e evidenciando as contradições e disputas que marcam a atual fase de transição da ordem econômica internacional.

Com isso,  os BRICS+ se firmam como um instrumento essencial de ampliação da autonomia sistêmica dos países da periferia e da semiperiferia global, ao oferecerem uma resposta concreta à lógica historicamente excludente da economia-mundo capitalista. A continuidade e o fortalecimento do bloco são fundamentais para a construção de espaços de coordenação econômica, política e financeira capazes de reduzir vulnerabilidades estruturais, ampliar a voz do Sul Global e tensionar as hierarquias que sustentam a centralidade dos países do núcleo do sistema internacional.

Portanto, a vigência do BRICS+ não se limita a um arranjo conjuntural, mas expressa uma necessidade histórica para a periferia global, ao representar uma possibilidade real de maior autonomia, cooperação horizontal e inserção mais equitativa na ordem econômica mundial.

Referências: 

BRICS Brasil. Sobre o BRICS. Disponível em: https://brics.br/pt-br/sobre-o-brics

BRICS se expande como força antagônica aos EUA e com agenda pela desdolarização. O Globo, 1 jan. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2024/01/01/brics-se-expande-como-forca-antagonica-aos-eua-e-com-agenda-pela-desdolarizacao.ghtml

LIMA, Lara. INTERNACIONAL DA AMAZÔNIA. BRICS e Sul Global: uma nova ordem mundial? Internacional da Amazônia, 22 ago. 2025. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2025/08/22/brics-e-sul-global-uma-nova-ordem-mundial/

OZCAN, Rasim. The South-South Trade: A Structural Change Transforming Economies. Jeddah: Islamic Development Bank, 2016. Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=3144364

WALLERSTEIN, Immanuel. O sistema mundial moderno, v. 1. Porto: Edições Afrontamento, 1974.