
Sofia Dias, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama
Ficha Técnica:
Ano: 2000
Gênero: Drama biográfico / Jurídico
Diretor: Steven Soderbergh
Distribuição: Universal Pictures
País de Origem: Estados Unidos
Dirigido por Steven Soderbergh, Erin Brockovich é um filme baseado em fatos reais que retrata a trajetória de Erin Brockovich, interpretada por Julia Roberts, uma mulher de origem humilde, mãe solteira de três filhos e sem formação acadêmica formal, que se envolve em um dos maiores processos judiciais ambientais da história dos Estados Unidos. A narrativa tem início após Erin perder uma ação judicial movida contra um médico, em decorrência de um acidente automobilístico. A partir desse episódio, ela passa a trabalhar para o advogado Ed Masry, responsável por sua defesa no processo (VILLAÇA, 2003).
Inicialmente designada para funções administrativas, Erin Brockovich passa a desempenhar um papel investigativo ao identificar inconsistências na documentação de um caso imobiliário, no qual relatórios médicos aparecem indevidamente associados a contratos de compra de terrenos. A partir dessa constatação, ela inicia uma investigação que revela a possível responsabilidade da corporação Pacific Gas and Electric Company (PG&E) pela contaminação da água subterrânea da cidade de Hinkley, na Califórnia, por cromo hexavalente, substância reconhecida por seu elevado grau de toxicidade e potencial carcinogênico (FACULDADE DE DIREITO DA UFMG, 2021).
Como consequência dessa prática empresarial, a população local apresenta índices alarmantes de doenças graves, incluindo câncer, problemas respiratórios e más-formações congênitas, desconhecendo, entretanto, a origem dessas mazelas. Erin acaba se tornando a principal força investigativa do caso, mobilizando moradores, coletando depoimentos e provas, e enfrentando diretamente o poder econômico e jurídico da corporação.
Nesse viés, a obra pode ser interpretada à luz da Teoria Idealista das Relações Internacionais (RI), vertente que enfatiza a centralidade da ética, do direito e da cooperação como fundamentos para a organização da ordem social e internacional. Ao defender a primazia de valores como justiça, responsabilidade moral e proteção da vida humana, essa abordagem contrapõe a lógica estritamente econômica e utilitarista que orienta a atuação das grandes corporações (FACULDADE DE DIREITO DA UFMG, 2021).
A partir do conflito central retratado, é possível estabelecer um diálogo com o teórico idealista Immanuel Kant, sobretudo com o Suplemento Primeiro de sua obra À Paz Perpétua (2008). Neste, Kant argumenta que, mesmo diante do egoísmo e das inclinações particulares dos indivíduos e instituições, a natureza opera como um mecanismo que constrange os agentes racionais a caminhar em direção a formas mais justas de convivência, ainda que contra suas próprias intenções.
Em À Paz Perpétua, Kant (2008) introduz a ideia de que a natureza, por meio de conflitos e antagonismos, força os seres humanos a desenvolverem instituições jurídicas e políticas capazes de conter a violência e a injustiça. Essa noção pode ser aplicada ao conflito apresentado no filme, na medida em que o dano ambiental causado pela corporação gera uma reação social e jurídica que culmina na responsabilização da empresa.
No caso da Pacific Gas and Electric Company (PG&E), observa-se uma conduta orientada exclusivamente pelo interesse econômico, em detrimento aos princípios morais universais que, segundo Kant, deveriam reger a ação racional. A contaminação deliberada da água e a ocultação de informações científicas configuram ações que não poderiam ser universalizadas sem contradição, violando diretamente o imperativo categórico, fundamento da moral kantiana (Kant, 2008). Assim, a corporação age de maneira incompatível com a razão prática, tratando a comunidade de Hinkley não como um fim em si mesma, mas como mero meio para a maximização do lucro.
A atuação de Erin Brockovich por sua vez pode ser interpretada, sob essa ótica, como uma manifestação desse mecanismo kantiano: embora movida inicialmente por circunstâncias pessoais e contingentes, sua ação contribui para a restauração de um mínimo de racionalidade moral na ordem social, obrigando a corporação a responder juridicamente por seus atos. O conflito, portanto, não é apenas um embate entre interesses privados, mas um processo por meio do qual a razão prática se impõe sobre a arbitrariedade.
Dessa forma, Erin Brockovich pode ser interpretado como uma narrativa que ilustra, em escala local, a tese kantiana segundo a qual os conflitos oriundos do egoísmo humano acabam, por impulsionar, de maneira paradoxal, o avanço do direito e da justiça, uma vez que o embate entre a corporação e a comunidade evidencia os limites da ação norteada exclusivamente pelo interesse particular e reafirma a centralidade da prática racional como fundamento da convivência social.
REFERÊNCIAS
VILLAÇA, Pablo. Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento. Cinema em Cena, 2003. Disponível em: https://cinemaemcena.com.br/criticas/erin-brockovich-uma-mulher-de-talento. Acesso em: 02 jan. 2026.
FACULDADE DE DIREITO DA UFMG. Cine Direito: Erin Brockovich. Biblioteca Prof. Lydio Machado Bandeira de Mello, 2021. Disponível em: https://biblio.direito.ufmg.br/cine-direito-erin-brockovich/. Acesso em: 02 jan. 2026.
KANT, Immanuel. À paz perpétua: um projeto filosófico. Tradução de Marco Antônio Zingano. Porto Alegre: L&PM, 2008.
