
Daiany Lima Duarte – acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
Quando se pensa em carnaval, imagina-se, primeiramente, em uma das maiores manifestações culturais brasileiras. Entretanto, sua história tem início nos meados do *século XIII, na Europa, com o envolvimento ainda da igreja católica. Esse envolvimento tinha como principal objeto o rito de abstenção de práticas “pecaminosas” segundo a religião católica. A palavra “carnaval”, por exemplo, vem de Carna Vale, ou seja, “adeus à carne”.
No Brasil, chega com as caravanas imperiais de Portugal, em 1723. Na época, a principal piada consistia em jogar água uns nos outros, entre pessoas mais humildes ou no meio do povo escravizado.. Era então conhecido pela denominação Entrudo. Em 1899, Chiquinha Gonzaga compôs a primeira marcha-rancho, Ó Abre-Alas, que tornou-se um hino extremamente importante durante esse período, muito reproduzido nos bailes da alta sociedade carioca. (riocarnaval.org e musicabrasilis.org )
Em um período não muito distante do presente, o carnaval tornou-se algo para além de uma brincadeira. Durante a época sombria da democracia brasileira (1964-1985), as escolas de samba estavam sob forte vigilância por serem categorizados grupos marginalizados. Escolas como Vai-Vai, Camisa Verde e Branco e Unidos do Peruche, em São Paulo, e Império Serrano, no Rio de Janeiro, além de verem suas quadras invadidas, tiveram que buscar meios para manter seus enredos e as atividades em comunidade. Viram seus compositores, diretores e brincantes serem coagidos e/ou perseguidos e seus instrumentos furados e quebrados (Agência Brasil, 2024).
Para além dessa mancha que muitos tentam relativizar, existiu um Paraíso do Tuiuti que, bravamente, em 2018, saiu em defesa da primeira mulher eleita presidencialmente na história do país. Nesse desfile, Tuiuti traz uma reflexão acerca das consequências deixadas pelas mazelas políticas que reverberam no meio social. (Observatório da Imprensa, 2018)
Nessa perspectiva, Achille Mbembe, um importante teórico da atualidade, traz a ideia de necropolítica, ou seja, um poder maior decide quem deve viver ou morrer. (Necropolítica, 2018). Ele mostra que a ideia colonial e racista que cimentou nas estruturas sociais realizam mortes, físicas ou sociais, simbólicas. Quando olha-se para zonas de trabalho condenáveis, é perceptível que ali foi dito, sem dizer, que é reservado para pessoas negras.
Quando o carnaval, que sai do eixo Europa e chega no Brasil, ele não dialoga somente com as elites da época, mas sim com a população marginalizada. Quando nascem as escolas de samba, quem está no meio ajudando nas sua fundação e manutenção é o povo preto – não à toa que a maioria das comunidades nascem nas periferias.Durante os blocos de ruas, por exemplo, quem vende bebidas é esse povo que não teve direito ao descanso. Mas no carnaval, com certeza, haverá uma escola de samba que gritará as súplicas destes irmãos.
Mesmo proibido, olhai por nós (Beija-flor, 1989).
Referências:
AGÊNCIA BRASIL. Escolas de samba foram espaço de resistência à repressão da ditadura. Por Cristina Índio do Brasil. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-04/escolas-de-samba-foram-espaco-de-resistencia-a-repressao-da-ditadura. Acesso em: 11 fev. 2026.
FERNANDES LADEIRA, Francisco. A cobertura do carnaval carioca na Rede Globo. Observatório da Imprensa, 2018. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/qualidade-na-tv/cobertura-do-carnaval-carioca-na-rede-globo/. Acesso em: 12 fev. 2026.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MÚSICA BRASILIS. A história do Carnaval. Disponível em: https://musicabrasilis.org.br/pt-br/artigos/historia-do-carnaval/. Acesso em: 1 fev. 2026. RIO CARNAVAL. História do Carnaval no Brasil. Disponível em: https://www.riocarnaval.org/pt/carnaval-pelo-brasil/historia-do-carnaval. Acesso em: 11 fev. 2026.
