
Tiago Callejon Santos – Internacionalista formado pela Unama
O ano de 2026 é um ano de grandes expectativas ao mundo no que concerne o âmbito dos esportes, isso porque é um ano em que o calendário esportivo mundial está recheado de grandes competições e atrações ao longo de todo o globo, competições estas dos mais variados esportes e, desta forma, ao se tratar especificamente do futebol, o esporte mais popular do mundo, o ano de 2026 trará consigo a maior competição esportiva de todas: a Copa do Mundo de Seleções da Fifa de 2026.
Dado todas as animosidades deste evento, a Copa do Mundo é um evento de sempre grande prestígio, relevância e influência. Tamanho é o seu alcance e poder que, a título de exemplo, o portal Inside Fifa (2022) realizou um relatório global de engajamento e público, onde demonstrou o engajamento total da competição nas mais diversas plataformas e mídias digitais existentes e, conforme os números demonstrados, foram mais de 5 bilhões de pessoas engajadas midiaticamente pelo evento, dos quais 2,9 bilhões foram engajadas por meio de TV’s lineares, afirmando toda a força da competição por si só.
Para além disso, deve-se ter em mente que, conforme Prates (2026), essa edição da Copa do Mundo será a maior de todas da história até então. Afinal, pela primeira vez na história, a competição contará com a participação de 48 seleções nacionais, divididos em 12 grupos de 4 times cada, totalizando 104 jogos e com uma duração de mais de um mês de competição, portanto, se observa rapidamente o porquê da ansiedade estar tão aflorada com a Copa do Mundo.
No entanto, é válido ressaltar que por mais que haja um grande teor esportivo por trás da Copa do Mundo, porque tal competição é uma competição de natureza esportiva, a mesma também detém grande carga de grau e importância no âmbito da geopolítica e da política internacional, ainda mais tendo em vista os acontecimentos recentes envolvendo os EUA, um dos países-sede do torneio.
Por exemplo, em 3 de janeiro de 2026, os EUA realizaram uma operação militar caracterizada em invadir o território nacional da Venezuela a fim de interceptar e apreender Nicolás Maduro, então presidente do país, devido ao seu histórico de estranhamento com Trump. Essa invasão criou uma crise grave no Sistema Internacional, pois configurou na violação da soberania da própria Venezuela e aprofundou instabilidades ainda mais relevantes no aspecto político da América Latina, gerando impactos negativos à região em si (CNN, 2026).
Esse exemplo é válido de vir à tona, pois mesmo invadindo e perturbando a paz da outra nação, os EUA não foram sancionados pela FIFA, eles ainda se manterão como um dos países-sede da competição e irão administrar o torneio naturalmente, algo que não aconteceu com a Rússia, país este que foi completamente sancionado pela FIFA e pela UEFA em participar de competições oficiais das duas delegações, seja no âmbito dos jogos e partidas de clubes russos, seja por meio dos jogos da seleção nacional da Rússia (Saxena, 2026).
Com efeito, outra perspectiva que está causando grandes polêmicas e preocupações para a realização da Copa do Mundo nos EUA se refere ao ICE. O ICE é um departamento dos EUA focado no serviço de imigração e alfândega dos EUA que, no atual governo de Trump, está se comportando como uma polícia anti-imigratória nas várias cidades dos EUA.
No entanto, o ICE vem tendo grande rejeição e protestos por parte da população devido ao tratamento excessivo e perigoso em que os seus agentes internos estão sujeitando os vários imigrantes nas dependências locais dos EUA. Sua rejeição é tão considerável que o ICE já recebeu a alcunha de “gestapo americana” devido à sua natureza completamente agressiva à essas populações (León, 2026).
Desta forma, as polêmicas envolvendo o ICE também vieram à tona no debate na Copa do Mundo, pois como os EUA são um dos países-sede da competição e estão apresentando uma clara e conturbada relação com imigrantes e com a sua própria população local, agravando crises, conflitos e protestos, essa perspectiva também se fará presente, ao menos potencialmente, às pessoas que irão celebrar e participar ativamente da Copa do Mundo enquanto espectadores, trazendo consigo preocupações necessárias às perspectivas de segurança nacional e logistica durante o evento.
Trazendo tais questões para o âmbito das Relações Internacionais, pode-se compreender minimamente estas perspectivas sob o viés das teorias construtivistas, mas especificamente sob o aspecto das teorias em Alexander Wendt. Wendt argumenta que a estrutura internacional não determina comportamentos de forma automática, ela é determinada e moldada por questões de identidade, normas e saberes e significados compartilhados.
Nesse sentido, como as coisas são configuradas pela maneira identitária que elas foram construídas, as suas construções normativas legitimam algumas questões intrínsecas à sua essência, seja nas percepções identitárias, seja nos processos discursivos que moldam quem ou o quê é visto como um ator legítimo do sistema internacional.
É sob esse viés que se compreende o porquê da Rússia ser sancionada pela FIFA e pela UEFA, mas os EUA não, mesmo tendo agido de maneiras semelhantes no que se refere à violação da soberania dos Estados.
Ademais, quanto ao ICE, a reação pública e os debates sobre direitos humanos também se fazem presentes nessas discussões, porque se discute disputas sobre valores, reputação e reconhecimento internacional, características e perspectivas estas que se encaixam perfeitamente no construtivismo e nas análises de seus autores, como é o caso do referido Alexander Wendt.
Deste modo, é por meio do entendimento lógico de todas estas perspectivas que se compreende a realidade da política e geopolítica da Copa do Mundo. Como já constatado, a importância da competição não é só esportiva, mas também política, então uma análise empírica e racional faz-se necessário para se compreender devidamente todo os graus de importância e relevância que a Copa do Mundo carrega consigo, e isso envolve a natureza política dos Estados, como afirmado pelo Construtivismo e pelas teorias de Relações Internacionais ao longo de seu arcabouço material e teórico.
Referências:
PRATES, Renan; Copa do Mundo de 2026: veja quem está garantido na competição. Portal Olympics – PT. Publicado em 09 de fevereiro de 2026, Brasil. Disponível em https://www.olympics.com/pt/noticias/copa-do-mundo-de-2026-times-classificados
Global Engagement and Audience Report (Executive summary); Portal Inside Fifa. Visitado em 16 de fevereiro de 2026, Brasil. Disponível em https://inside.fifa.com/tournament-organisation/audience-reports/qatar-2022
PORDEUS, Lucas León. Conheça o ICE: polícia migratória de Trump é alvo de protestos nos EUA. Portal Agência Brasil. Publicado em 13 de janeiro de 2026, Brasil. Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-01/conheca-o-ice-policia-migratoria-de-trump-alvo-de-protestos-nos-eua
Especialista: ataque dos EUA à Venezuela extrapola hierarquia internacional. CNN News Brasil. Publicado em 03 de janeiro de 2026, Brasil. Disponível em https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/especialista-ataque-dos-eua-a-venezuela-extrapola-hierarquia-internacional/
PRASHANT, Karan Saxena. Presidente da Fifa apoia fim da proibição imposta à Rússia no futebol. Portal Agência Brasil. Publicado em 03 de fevereiro de 2026, Brasil. Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2026-02/presidente-da-fifa-apoia-fim-da-proibicao-imposta-russia-no-futebol#:~:text=Os%20clubes%20russos%20e%20a,afirmou%20Infantino%20%C3%A0%20Sky%20Sports
