Izabelle Gama (acadêmica do 3° semestre de RI da UNAMA

O campo das Relações Internacionais é marcado por debates teóricos que buscam explicar as dinâmicas de conflito e cooperação em um sistema internacional caracterizado pela ausência de autoridade central. Nesse contexto, o Realismo Ofensivo formulado por John Mearsheimer traz uma das interpretações mais influentes do comportamento das grandes potências. Em The Tragedy of Great Power Politics (2001), a teoria sustenta que os Estados não se limitam à busca por segurança, mas procuram maximizar seu poder relativo como estratégia racional para garantir a sobrevivência em um ambiente anárquico. Dessa forma, o poder material assume centralidade, e a competição torna-se um elemento estrutural da política internacional.

A formulação do Realismo Ofensivo insere-se no debate pós-Guerra Fria, período em que grande parte dos estudos passou a considerar a possibilidade de uma ordem internacional mais cooperativa, ampliada por instituições multilaterais. Porém , Mearsheimer argumenta que o fim da bipolaridade não alterou as condições estruturais do sistema internacional. A anarquia permanece como elemento definidor das relações entre Estados, mantendo a incerteza quanto às intenções alheias e incentivando a competição estratégica (Mearsheimer, 2001; Castro, 2012.).

O modelo teórico de Mearsheimer baseia-se em cinco premissas fundamentais: a anarquia do sistema internacional, a existência de capacidades ofensivas, a incerteza sobre as intenções dos demais atores, a sobrevivência como objetivo primordial e a racionalidade dos Estados. A combinação desses elementos gera um ambiente de desconfiança permanente, no qual a maximização de poder torna-se a estratégia mais segura para reduzir vulnerabilidades. O autor afirma que, os estados reconhecem que quanto mais poderosos eles são em relação aos seus rivais, melhores são suas chances de sobrevivência.

A partir dessas premissas, o dilema de segurança torna-se um mecanismo central da dinâmica internacional. Medidas adotadas por um Estado para aumentar sua segurança são percebidas como ameaças por outros, estimulando ciclos de rivalidade. Nesse sentido, o que um Estado faz para aumentar sua própria segurança geralmente diminui a segurança de outros. Assim, a expansão de poder é frequentemente interpretada como comportamento racional, e não como desvio agressivo. A lógica sistêmica produz incentivos para a competição contínua entre grandes potências.

Nesse contexto, a hegemonia regional é apresentada como a forma mais eficaz de garantir a sobrevivência estatal. Ao dominar sua região, uma grande potência reduz significativamente a possibilidade de ameaças existenciais e passa a atuar preventivamente para impedir o surgimento de rivais em outras áreas do sistema internacional. Essa estratégia explica padrões recorrentes de contenção e formação de alianças voltadas ao equilíbrio de poder (Mearsheimer, 2001).

A impossibilidade prática da hegemonia global é outro elemento da teoria. Segundo Mearsheimer (2001, p.41.), “o melhor resultado que uma grande potência pode esperar é ser um hegemonia regional e possivelmente controlar outra região próxima e acessível por terra”. Dessa forma, as grandes potências adotam estratégias voltadas à consolidação de hegemonia regional e ao “equilíbrio offshore”, intervindo seletivamente em regiões estratégicas para impedir a ascensão de novas hegemonias. Esse padrão permite compreender políticas de contenção, formação de alianças e intervenções militares como respostas à distribuição de poder no sistema internacional.

No âmbito das instituições internacionais, o Realismo Ofensivo sustenta que seu papel na promoção de cooperação entre grandes potências é restrito. Esses arranjos institucionais são moldados pela configuração do poder e funcionam de acordo com os limites impostos pelos Estados predominantes. Regras e mecanismos multilaterais tendem a perder efetividade quando entram em conflito com interesses estratégicos centrais. Assim, a dinâmica institucional permanece condicionada à competição entre as potências, evidenciando o caráter hierarquizado e disputado do ambiente internacional.

As implicações dessa teoria podem ser observadas em dinâmicas contemporâneas de competição entre grandes potências. A ascensão da China tem sido interpretada, sob essa perspectiva, como um processo de busca por hegemonia regional no Leste Asiático, acompanhado pela ampliação de capacidades militares, expansão de influência econômica e estratégica. Em resposta, a atuação dos Estados Unidos na região, por meio do fortalecimento de alianças e da presença militar, pode ser compreendida como uma estratégia de contenção voltada a impedir o surgimento de uma hegemonia regional (Matos, 2019; Bandarra, 2015).

A política comercial recente de Donald Trump também é um exemplo . A ampliação de tarifas com base em argumentos de segurança nacional evidencia a utilização de instrumentos econômicos como recursos de poder estratégico. Embora apresentadas como medidas de proteção da indústria doméstica, tais políticas buscaram reduzir dependências externas e preservar capacidades consideradas essenciais para a competitividade internacional, A vinculação entre comércio e segurança reflete preocupações com a posição relativa dos Estados Unidos  no sistema internacional atual. (Clausing; Obstfeld, 2025).

De forma mais ampla, o Realismo Ofensivo oferece instrumentos analíticos para interpretar conflitos e rivalidades estratégicas como manifestações da competição por poder em um sistema anárquico. Ao demonstrar que a competição entre grandes potências constitui um fenômeno recorrente, Mearsheimer contribui para o debate teórico ao reafirmar a centralidade do poder na análise das Relações Internacionais.

Dessa forma, o Realismo Ofensivo consolida-se como uma das principais vertentes do pensamento realista contemporâneo, oferecendo um modelo explicativo para o comportamento das grandes potências e para a persistência de rivalidades no sistema internacional. Sua abordagem estrutural, aliada ao ceticismo em relação às instituições e à ênfase na hegemonia regional, fornece um arcabouço analítico capaz de interpretar tanto padrões históricos quanto dinâmicas emergentes da ordem global no século XXI.

Referências

BANDARRA, Leonardo Carvalho Leite Azeredo. A ascensão chinesa na nova era sob a perspectiva do realismo ofensivo. Conjuntura Global, v. 4, n. 3, 2015.

CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: FUNAG, 2012.

CLAUSING, Kimberly A.; OBSTFELD, Maurice. Tariffs as Fiscal Policy. Washington, DC: Peterson Institute for International Economics, Working Paper 25-19, 2025.

MATOS, Tiago. Ascensão da China e o realismo ofensivo: a visão de Mearsheimer e o executivo norte-americano. 2019.

MEARSHEIMER, John J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001