Marcelo Eduardo Alves de Brito – acadêmico do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Em 1958, o primeiro-ministro do Irã Mohammad Mosaddegh foi deposto em um golpe de Estado com apoio da CIA e MI6, após a nacionalização do petróleo iraniano, o que marcou um novo padrão de ingerência externa no contexto político iraniano, marcando profundamente o Estado (BRITANNICA. 2006). Com a Revolução Islâmica, as relações com antigos Estados agressores foram redefinidas e o novo regime teocrático passou a enfrentar sanções internacionais, disputas internas e indiretas pelo controle do poder na região, ou melhor, o controle pelos recursos presentes no território.

No dia 28 de dezembro de 2025, a população iraniana iniciou os protestos contra o governo com o intuito de se opor às condições econômicas vigentes no Estado, criticando o governo pela administração econômica na vida comum dos indivíduos e pela não-contenção as consequências da crise gerada pelas sanções internacionais ao programa nuclear iraniano. Como respostas à ofensiva popular, o governo do país retaliou com violência, o que gerou a inflamação da insatisfação popular, culminando em mais protestos pelo território. O resultado da crise política instaurada foi a morte e a prisão de milhares de manifestantes, sendo parte desses indivíduos considerada “terroristas” pelo Estado iraniano. (G1, 2026)

Oil Reserves by Country (2025)

Fonte: WORLDOMETER, 2025 

O gráfico acima evidencia os países com as maiores reservas de petróleo do mundo, o Estado do Irã está na terceira posição com uma reserva de 208 Bilhões de Barris, somente atrás de Arábia Saudita e Venezuela, que recentemente sofreu com uma investida militar norte-americana que resultou na captura seu presidente e controle das reservas petrolíferas do país pelos EUA. Esta posição torna o Irã um ponto de interesse no sistema internacional e um território estratégico para países com disposições imperialistas e grande capacidade militar.

Durante a crise política instaurada no país após o dia 25 de dezembro, os Estados Unidos enviaram dois porta-aviões e dois destroyers com mísseis guiados para o Oriente Médio, além de alocar soldados de infantaria em alguns países árabes do golfo. Assim, sinalizando uma possível investida militar para conter as medidas do governo iraniano e retalia-lo militarmente após a morte dos manifestantes durante a crise(CNN, 2026).

De acordo com Hans Morgenthau(1978), a política internacional é definida como uma luta pelo poder no sistema, para o teórico, o poder de um Estado no sistema internacional está diretamente ligado à capacidade coercitiva e ao uso potencial da violência, ou seja, a sua força militar, sendo visto como instrumento máximo da política internacional. Portanto, os envios de tropas e equipamentos militares pelos Estados Unidos ao Oriente Médio, representa a sua capacidade de moldar o sistema internacional e impor seus interesses sobre os demais países, dominando territórios, adquirindo recursos e estabelecendo pontos de controle de acordo com as suas próprias “necessidades“.

Ademais, um possível cenário de ingerência estadunidense no território iraniano, também representa a capacidade de instrumentalização discursiva das crises internas nos países do Oriente Médio por potências ocidentais. De acordo com o pensador iraniano Hamid Dabashi(2007), a narrativa de “libertação democrática” é vista como parte de uma tradição de intervenções seletivas e históricas, que servem aos interesses de potências imperialistas. 

Neste caso, a presença dos Estados Unidos no Oriente Médio em resposta à crise política no Irã, representa mais uma instrumentalização narrativa que servirá aos interesses de domínio norte americano das imensas reservas petrolíferas iranianas, medidas que manteriam o país em mais um respiro de poder e inflûencia, diante da queda e desestruturação do império do norte, fornecendo maior capacidade política em relação a principal fonte de energia mundial no momento.   

Portanto, os recentes acontecimentos no Estado Iraniano não devem ser compreendidos apenas como um fenômeno doméstico circunscrito a demandas econômicas e insatisfações sociais legítimas, mas como uma estrutura histórica marcada por disputas em torno da soberania política e do controle de recursos estratégicos. 

Com isso, o cenário internacional caminha para tensões bélicas e disputas entre grupos sociais distintos, transcendendo a esfera doméstica e assumindo contornos na política internacional. Por isso, neste contexto o Irã permanece situado no centro de uma engrenagem estratégica maior, cujo desdobramento ainda se encontra em curso e cujas consequências dependerão da interação entre forças internas e pressões externas. 

Referências: 

BRITANNICA. 2006 coup in Iran. Encyclopædia Britannica. Disponível em: https://www.britannica.com/event/1953-coup-in-Iran

CNN BRASIL. Imagens de satélite mostram 2º porta-aviões que irá para o Oriente Médio. São Paulo, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/imagens-de-satelite-mostram-2o-porta-avioes-que-ira-para-o-oriente-medio/

DABASHI, Hamid. Iran: a people interrupted. New York: The New Press, 2007.

G1. Ativistas dizem que Irã matou ao menos 6 159 pessoas durante protestos. G1 – Mundo, 27 jan. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/27/ativistas-dizem-que-ira-matou-ao-menos-6159-pessoas-durante-protestos.ghtml

MORGENTHAU, Hans J. Politics among nations: the struggle for power and peace. 5. ed. New York: Alfred A. Knopf, 1978.

WORLDOMETERS. Oil Reserves by Country (2025). Worldometers: Population, Life, Health, … Disponível em: https://www.worldometers.info/oil/oil-reserves-by-country/