Rita Polaro – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)

Historicamente, compreende-se que a América Latina é uma região inserida nas disputas hegemônicas globais desde a era das Grandes Navegações, quando os Estados ibéricos iniciaram o processo de colonização do território. Ao longo dos séculos, os interesses externos – inicialmente voltados à exploração de metais preciosos e recursos naturais, e posteriormente à inserção político-econômica estratégica da região – foram se transformando e assumindo novas configurações. No cenário contemporâneo, a América Latina configura-se como uma “encruzilhada” nas tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China. Sob esse viés, é fundamental compreender os fatores estruturais que sustentam esses interesses e a posição da região como semiperiferia do sistema internacional e parte do Sul Global.

A partir da perspectiva materialista inspirada em Karl Marx, o capitalismo pode ser compreendido como sistema expansivo e estruturalmente desigual, cuja internacionalização consolidou uma divisão hierárquica do trabalho entre centros de acumulação e economias especializadas em bens primários. Nessa linha, Raúl Prebisch demonstrou que tal desigualdade se expressa na estrutura centro–periferia e na deterioração dos termos de troca. A atual rivalidade entre grandes potências configura, portanto, uma reacomodação hegemônica no interior do sistema, sem alterar automaticamente a posição estrutural latino-americana.

À luz desse referencial teórico, observa-se que, no contexto de competição estratégica contemporânea, a América Latina passa a dispor de maior margem de manobra diplomática e econômica. A região enfrenta a rivalidade sino-americana equilibrando a dependência histórica de segurança e influência política dos Estados Unidos com a crescente dependência econômica e comercial da China. A presença simultânea dessas duas potências amplia alternativas de financiamento, comércio e cooperação tecnológica, permitindo que governos latino-americanos diversifiquem parceiros e reduzam dependências unilaterais.

Conforme aponta a análise da L21, diante da administração de Donald Trump houve reconfiguração das relações interamericanas, marcada por alinhamentos seletivos e prioridades de segurança (LatinoAmérica21, 2026). A região retornou ao centro da política externa norte-americana, não como prioridade cooperativa, mas como espaço de contenção estratégica. Tal movimento atualiza a tradição associada à Doutrina Monroe, formulada em 1823, passando pelo Corolário Roosevelt, em 1904, reafirmando a concepção do hemisfério como esfera de influência preferencial diante do avanço chinês.

A conjuntura internacional contemporânea revela que as transformações na distribuição de poder global não implicam, necessariamente, a superação das assimetrias históricas que moldam a inserção latino-americana na ordem mundial. A intensificação da competição entre Washington e Pequim produz rearranjos estratégicos e amplia possibilidades de negociação, mas não dissolve os condicionamentos materiais que estruturam o perfil produtivo regional.

Sob uma leitura inspirada em Antonio Gramsci, essa disputa pode ser compreendida como uma concorrência pela direção política e intelectual do sistema internacional. Mais do que uma disputa por mercados, trata-se de uma busca por legitimidade, por definição de agendas e por consolidação de modelos de desenvolvimento capazes de se apresentar como universais. Nesse cenário, a América Latina não figura apenas como espaço de projeção de poder, mas como território estratégico no qual projetos globais concorrentes procuram consolidar influência e construir consensos.

Ainda que persistam limitações estruturais significativas, a presença simultânea de iniciativas rivais cria brechas que podem ser mobilizadas politicamente. A capacidade de formular prioridades próprias, diversificar parcerias e articular posições comuns dependerá não apenas de variáveis econômicas, mas também da construção de coesão regional e da definição de objetivos compartilhados.

É nesse ponto que a noção de Sul Global adquire centralidade analítica. Mais do que uma categoria descritiva, ela pode ser entendida como espaço potencial de articulação política entre sociedades que compartilham experiências históricas de subordinação e desafios semelhantes no desenvolvimento. Ao reconhecer-se como parte desse conjunto mais amplo, a América Latina amplia suas possibilidades de ação coletiva, deslocando-se de uma posição meramente reativa para uma atuação mais propositiva na arena internacional. Dessa forma, a disputa hegemônica em curso não determina automaticamente o lugar da região na hierarquia global; ela abre um campo de possibilidades cuja exploração exige coordenação estratégica, fortalecimento institucional e visão de longo prazo. Inserida no Sul Global, a América Latina pode transformar a condição histórica de vulnerabilidade em base para cooperação e afirmação política, redefinindo gradualmente os termos de sua participação na ordem internacional.

REFERÊNCIAS:

ARAÚJO, Ian Filipe Costa. O lugar da América Latina na disputa hegemônica entre os Estados Unidos e a China. 2021. Monografia (Graduação em Relações Internacionais) – Departamento de Relações Internacionais, Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, 2021.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

LATINOAMÉRICA21. Como está a relação entre os países da América Latina e os Estados Unidos? O mapa dos aliados americanos. O TEMPO, 17 fev. 2026. Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/latinoamerica21/2026/2/17/como-esta-a-relacao-entre-os-paises-da-america-latina-e-os-estados-unidos. Acesso em: 17 fev. 2026.

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MUSA, Estevão. Tendências e desafios para a América Latina à luz das reconfigurações do sistema mundial: Uma análise geopolítica desde o Sul Global. Brazilian Journal of International Relations, Marília, SP, v. 13, p. e024008, 2025. DOI: 10.36311/2237-7743.2024.v13.e024008. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/bjir/article/view/15521. Acesso em: 17 fev. 2026.

PREBISCH, Raúl. Capitalismo periférico: crise e transformação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

TRUMP e América Latina: entre a força e o quintal estratégico. Ceilândia em Alerta, 12 fev. 2026. Disponível em: https://www.ceilandiaemalerta.com.br/noticias/12/02/2026/trump-e-america-latina-entre-a-forca-e-o-quintal-estrategico/. Acesso em: 18 fev. 2026.