Ana Victória Padilha Carneiro (acadêmica do 5º semestre de R.I. da UNAMA)
Rodrigo Lobato dos Prazeres (acadêmico do 7º semestre de R.I. da UNAMA)

A busca por minérios em territórios indígenas remonta ao passado colonial brasileiro no qual colonizadores avançavam sobre esses territórios com o objetivo de explorar minérios raros, especialmente o ouro. Desse modo, é importante analisar que a “febre do ouro” não deve ser compreendida apenas como um acontecimento puramente histórico.


Conforme o historiador John Hemming (2007) afirma, embora a ambição pela exploração mineral seja antiga, a lógica exploratória permanece vigente, ainda que as ferramentas tenham se transformado, passando a envolver redes transnacionais, tecnologia pesada e o uso intensivo de mercúrio.


Essa evolução tecnológica integra o ouro extraído ilegalmente em terras indígenas (TIs) a um sistema de criminalidade transnacional que alimenta mercados de luxo globais, operando à margem da legalidade. O chamado ‘Ouro de Sangue’ deixa de ser apenas um recurso mineral para se tornar um ativo que compromete a soberania dos países amazônicos e ignora limites éticos. Assim, o impacto sofrido pelos povos da floresta escala para uma profunda crise de governança, colocando em risco a integridade física e cultural dessas comunidades (Amazon Watch, 2022).


O território que abrange a floresta amazônica em sua totalidade enfrenta uma grave crise ambiental e social complexa ocasionada pelo aumento do garimpo ilegal de ouro e da mineração, um fenômeno que vai além da exploração mineral local ou nacional, mas integra cadeias globais de comercialização que alimentam mercados internacionais, reforçando a complexidade geopolítica e transnacional desta problemática não apenas para povos indígenas e sim para comunidade amazônida em geral.


Embora muitos debates públicos enfatizem apenas a perda da floresta em áreas abertas, estudos científicos recentes destacam o papel crucial das TIs como mecanismos de proteção do ambiente frente à mineração predatória, atuação essa que é característica dos povos originários de todos os países amazônicos.


A pesquisa Indigenous Lands inhibit mining-induced deforestation, realizada por Luiz Guilherme dos Santos Ribas e Mauro Galetti (2025), publicada na revista Global Ecology and Conservation, demonstra que as terras indígenas reduziram o desmatamento induzido pela mineração na Amazônia Legal Brasileira, impedindo uma perda acumulada de cerca de 25 milhões de hectares de floresta entre 2004 e 2019 em comparação com cenários em que essas terras não existissem.


Os autores também afirmam que, apesar de a eficácia na mitigação desse desmatamento tenha diminuído, a presença dos povos indígenas ainda representa um filtro de proteção ambiental substancial frente às atividades mineradoras. Cenário esse que fora corroborado pelo avanço violento na ocupação das terras por parte dos garimpeiros junto ao enfraquecimento das políticas de conservação e dos órgãos ambientais brasileiros, tornando assim os indígenas mais vulneráveis a tal prática.


Como afirma SILVA et al. (2023), esse contexto ambiental está intrinsecamente ligado a impactos sociais e de saúde das comunidades indígenas, que frequentemente habitam regiões onde a mineração ilegal se infiltra. A presença de atividades mineradoras, principalmente as clandestinas, contribui para a contaminação por mercúrio (Hg), um subproduto tóxico da extração de ouro artesanal que se acumula ao longo dos rios da floresta e afeta diretamente a saúde humana.


Estudos anteriores como o artigo de PESTANA et al. (2022), demonstram que o mercúrio liberado por essa atividade pode alcançar níveis prejudiciais, com efeitos neurotóxicos, especialmente entre ribeirinhos que consomem peixe contaminado como parte regular de sua dieta. Estima-se, então, que nos anos entre 2020 e 2022, foram despejadas cerca de 195 toneladas de mercúrio no bioma da floresta, tornando a população amazônica uma das mais vulneráveis à exposição crônica ao mercúrio.


O estudo realizado por TEIXEIRA et al. (2021), constatou que os rejeitos de Hg mais presentes no solo da Amazônia são os tipos G1 e G2, ou seja, tais rejeitos estão classificados na categoria de maior manejo e risco à saúde ambiental e humana, apresentando concentrações mais elevadas de mercúrio, correspondendo a 1,88 e 2,29 mg kg⁻¹, com tempo estimado de exposição de 13 e 7 anos, respectivamente dentro do bioma.


Além da contaminação química, VALLEJOS et al. (2020) no relatório internacional Undermining Rights: Indigenous Lands and Mining in the Amazon, aponta que a presença contínua de mineradores ilegais em territórios indígenas desestabiliza redes sociais e promove ambientes marcados por violência e conflitos, como riscos de confronto com as populações locais, prostituição forçada, tráfico de substâncias, além de outras formas de exploração social e econômica.


Tais impactos territoriais da mineração ilegal também se manifestam na perda direta de cobertura florestal e fragmentação de ecossistemas, condicionando a alterações críticas no ciclo hídrico, perda de biodiversidade e enfraquecimento da resiliência ecológica. Assim também, como o aumento da criminalidade na região, envolvendo tráfico humano e de trabalhadores em situação análoga a escravidão.


Esses problemas de saúde não são isolados ao Brasil. Em toda a Amazônia Internacional, como já mencionado, o fluxo ilegal de mercúrio e do próprio ouro é alimentado por redes criminosas transnacionais. Segundo uma investigação da Mongabay(2024), 70 pontos de mineração ilegal ao longo do rio Cenepa, onde máquinas e dragas operam continuamente, devastando florestas e contaminando corpos d’água com sedimentos e toxinas relacionados à extração aurífera.


O afluente Cenepa cruza a fronteira entre o Peru e o Equador, fronteira essa que tem sido palco de expansão desenfreada de garimpo clandestino apresentando um alto risco ao modo de vida das comunidades locais, como é o caso do povo Awajún, que enfrentam a destruição iminente do ambiente natural que sustenta suas vidas, como rios, áreas de pesca e espaços de cultivo tradicionais, como também a exploração laboral e ameaças de abuso sexual contra mulheres.


Em suma, o atual cenário da Amazônia Transnacional revela que a mineração ilegal é um processo altamente complexo que afeta profundamente as dinâmicas ecológicas, as relações socioeconômicas e a saúde dos povos que dependem desse território. A proteção das Terras Indígenas emerge como elemento central na mitigação desses impactos, ainda que enfrente desafios crescentes diante de pressões políticas e econômicas que podem minar seu papel conservacionista.


Portanto, é necessário que haja um rompimento desse ciclo de exploração, no qual o garimpo contemporâneo não respeita barreiras éticas e ambientais, reverberando atitudes coloniais com o extrativismo desenfreado, agora sob o controle de redes transnacionais. Torna-se urgente uma ação governamental que estabeleça fiscalizações rigorosas e mecanismos de rastreabilidade, asfixiando o “Ouro de Sangue” e garantindo a integridade desses territórios, assim, salvaguardando o futuro da Amazônia.

Para uma análise aprofundada acerca do extrativismo colonial e como a busca desenfreada por metais preciosos moldou a violência contra povos originários desde o início da colonização, recomenda-se a leitura do livro “Ouro Vermelho: A Conquista dos Índios Brasileiros” por John Hemming, escrito em 2007. Disponível para compra em livrarias físicas e onlines.

Além disso, indica-se o estudo do relatório “Yanomami sob ataque” publicado em 2022 pela Hutukara Associação Yanomami. O estudo aborda os impactos diretos do garimpo em territórios Yanomami, tratando de temas como a desestruturação sociocultural da comunidade, contaminação por mercúrio e a crise sanitária.


Disponível em: < https://acervo.socioambiental.org/acervo/documentos/yanomami-sob-ataque-garimpo-ilegal-na-terra-indigena-yanomami-e-propostas-para >

Por fim, o dossiê “Ouro de Sangue” publicado pela organização Amazon Watch em 2022, analisa como existem falhas no sistema financeiro e como essas falhas permitem que o ouro extraído ilegalmente seja “lavado” e comercializado legalmente, devido aos problemas de rastreabilidade que o ouro tem, conectando assim, o mercado global com crimes ambientais.

Disponível em: < https://amazonwatch.org/assets/files/2022-cumplicidade-na-destruicao-v-ouro-de-sangue.pdf >

Referências:

AMAZON WATCH. Cumplicidade na destruição V: ouro de sangue. [S. l.]: Amazon Watch, 2022. Disponível em: https://amazonwatch.org/assets/files/2022-cumplicidade-na-destruicao-v-ouro-de-sangue.pdf. Acesso em: 22 fev. 2026.

EXPOSING the impact of mining on Indigenous and local communities, Mongabay, mai. 2024. Disponível em: https://mongabay.org/impact/exposing-the-impact-of-mining-on-indigenous-and-local-communities-mongabay-impacts/ . Acesso em: 20 fev. 2026.

HEMMING, John. Ouro Vermelho: a conquista dos índios brasileiros. Tradução de Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2007.

PESTANA, Inácio Abreu; REZENDE, Carlos Eduardo de; ALMEIDA, Ronaldo; LACERDA, Luiz Drude de; BASTOS, Wanderley Rodrigues. Let’s talk about mercury contamination in the Amazon (again): The case of the floating gold miners’ village on the Madeira River, ScienceDirect, set. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.exis.2022.101122 . Acesso em: 19 fev. 2026.

VALLEJOS, Patricia Quijano; VEIT, Peter; TIPULA, Pedro; REYTAR, Katie. Undermining Rights: Indigenous Lands and Mining in the Amazon, WRI, out. 2020. Disponível em: https://www.wri.org/research/undermining-rights-indigenous-lands-and-mining-amazon?utm_source=chatgpt.com . Acesso em: 19 fev. 2026.

RIBAS, Luiz Guilherme dos Santos; GALETTI, Mauro. Indigenous Lands inhibit mining-induced deforestation. Global Ecology, mar. 2025 Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.gecco.2025.e03540 . Acesso em: 19 fev. 2026.

SILVA, Carlos Fabricio Assunção; ANDRADE, Mauricio Oliveira de; SANTOS, Alex Mota dos; FALCÃO, Viviane Adriano; MARTINS, Suelen Farias Soares. The drivers of illegal mining on Indigenous Lands in the Brazilian Amazon, ScienceDirect, set. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.exis.2023.101354 . Acesso em: 19 fev. 2026.

TEIXEIRA, Renato Alves; PEREIRA, Wendel Valter da Silveira; SOUZA, Edna Santos de; RAMOS, Silvio Junio; DIAS, Yan Nunes; LIMA, Maurício Willians de; NETO, Hamilton Ferreira de Souza; OLIVEIRA, Éder Silva de; FERNANDES, Antonio Rodrigues. Artisanal gold mining in the eastern Amazon: Environmental and human health risks of mercury from different mining methods, ScienceDirect, jun. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.chemosphere.2021.131220 . Acesso em: 19 fev. 2026.