Keity Oliveira, Pedro Henrique de Aviz e Stefany Campolungo, internacionalistas formados pela UNAMA

Ficha Técnica:

Ano: 2025

Direção: Haruo Sotozaki

Gênero: Animação, Aventura, Drama

Distribuição: Sony Pictures e Crunchyroll 

País de Origem: Japão

Criado em 2016 por Koyoharu Gotouge, Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba é um dos animes de maiores sucessos da atualidade. A obra conta a história de Tanjiro, um menino que perde quase toda a sua família em um ataque de ONI (raça de demônio) e a única sobrevivente é sua irmã Nezuko, que é contaminada e se torna um demônio. Após tais acontecimentos, Tanjiro entra no esquadrão de caçadores de demônios para se fortalecer e atingir seus principais objetivos: se vingar do demônio que matou sua família e achar uma cura para sua irmã demônio (Vinha, 2025).

O anime conta com quatro temporadas e uma obra cinematográfica, e recentemente ganhou mais uma produção para dar continuidade à história. Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – Castelo Infinito (2025) é o primeiro longa-metragem de uma trilogia que visa adaptar o arco final do mangá para as telas de cinema. O filme fez um enorme sucesso, quebrando vários recordes e passando da marca de 600 milhões de dólares na bilheteria da América da Norte (Crunchyroll, 2025).

Confira o trailer de ‘Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba Castelo Infinito’ (2025)

O anime é conhecido pelas lutas emocionantes, efeitos visuais deslumbrantes e personagens carismáticos. Durante a obra, a autora explora os dilemas individuais de grande parte dos personagens, incluindo os vilões. Na maioria dos casos, os antagonistas da obra, antes de virarem demônios, eram pessoas vulneráveis emocional, física e financeiramente e, consequentemente, eram discriminadas pela sociedade. Pode-se citar como exemplo a história do vilão Akaza em que, ao longo do filme, é mostrado a fragilidade social em que ele vivia, sendo espancado, torturado e discriminado por todos na sociedade.

Essa vulnerabilidade é explorada por Muzan, grande vilão da obra, transformando pessoas como Akaza em demônios e as submetendo em um rígido sistema hierárquico de poder e dominação. Dessa forma, é possível analisar a obra através da Teoria Crítica das Relações Internacionais, estabelecendo paralelos entre o sistema de dominação e hierarquia presente no universo de Demon Slayer e os autores e pensamentos desta corrente teórica.

A partir da perspectiva de Robert Cox (1981), a estrutura do universo de Demon Slayer pode ser interpretada como uma expressão de ordem histórica específica sustentada por relações de poder que se naturalizam ao longo do tempo. Para Cox (1981, p. 128) , “toda teoria é para alguém e para algum propósito”, o que significa que explicações dominantes tendem a servir para a manutenção da ordem vigente. No universo da obra cinematográfica, a dominação de Muzan não é apenas física, mas estrutural: ele organiza hierarquias, distribui funções e produz uma lógica de medo que estabiliza seu poder durante os séculos. 

Assim, o conflito não se reduz a batalhas individuais entre caçadores e demônios, mas revela uma estrutura histórica de dominação que molda comportamentos, expectativas e possibilidades de ação. A luta de Tanjiro, sob essa ótica, adquire um caráter contra-hegemônico ao desafiar não só o líder, mas a própria ordem que sustenta sua autoridade.

Já sob a lente inspirada em Antonio Gramsci (1971), a dinâmica entre Muzan e os demônios pode ser compreendida como uma forma de hegemonia. Para Gramsci (1971), o poder se mantém não apenas pela coerção, mas pela construção do consenso e pela internalização de valores dominantes. Em Demon Slayer, os “Doze Kizuki” (Doze Luas) não obedecem apenas por medo, mas internalizam a lógica de superioridade e sobrevivência imposta por Muzan, reproduzindo-a como verdade. A hegemonia se consolida quando os subordinados passam a agir dentro da racionalidade do dominador. A ruptura ocorre quando a personagem Nezuko, irmã de Tanjiro, desafia essa lógica, mostrando que a identidade demoníaca não é necessariamente sinônimo de submissão à ordem imposta, abrindo rachaduras na hegemonia estabelecida.

Já a abordagem de Andrew Linklater (1982) enfatiza a possibilidade de emancipação por meio da ampliação da comunidade moral. Linklater propõe que a política internacional pode evoluir ao incluir progressivamente aqueles que antes eram excluídos do reconhecimento ético. Em Demon Slayer, Tanjiro encarna essa expansão moral ao reconhecer a humanidade residual dos demônios e ao lamentar suas histórias de sofrimento, ao mesmo tempo em que busca uma espécie de cura para sua irmã, que também se tornou demônio. Esse gesto não elimina o conflito, mas questiona os limites rígidos entre “nós” e “eles”. Assim, a obra permite uma leitura na qual a emancipação não significa a ausência de violência, mas a transformação gradual das fronteiras morais que estruturam o conflito, apontando para a possibilidade de uma ordem menos excludente.

Sendo assim, Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba ultrapassa o status de uma narrativa de ação e fantasia ao oferecer uma rica alegoria sobre poder, dominação e possibilidade de transformação social. A partir da Teoria Crítica das Relações Internacionais, a obra evidencia como hierarquias se constroem e se mantêm por meio da naturalização da violência, do medo e do consenso, ao mesmo tempo em que aponta brechas para a resistência e a emancipação. 

A trajetória de Tanjiro e Nezuko simboliza não apenas a luta contra um inimigo central, mas o questionamento de uma ordem histórica excludente, revelando que mesmo em sistemas profundamente hierarquizados existem espaços para práticas contra-hegemônicas e para a ampliação das fronteiras morais.

Portanto, o anime se consolida como um objeto fértil de análise crítica, capaz de dialogar com debates centrais das Relações Internacionais sobre hegemonia, poder e emancipação.

Referências

COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126–155, 1981.

CRUNCHYROLL. Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba Castelo Infinito se torna o filme internacional de maior bilheteria na América do Norte. José S. Crunchyroll. 2025. Disponível em: <https://www.crunchyroll.com/pt-pt/news/latest/2025/10/16/demon-slayer-kimetsu-no-yaiba-castelo-infinito-maior-bilheteria-internacional-america-norte?srsltid=AfmBOooAxkXiO2QXmqvmK7ilFOsfnJ8jQTQ2ByrJt94PH6ngnaEjmqzI> Acesso em 19 de fevereiro de 2026.

GRAMSCI, Antonio. Selections from the prison notebooks. New York: International Publishers, 1971.

LINKLATER, Andrew. Men and citizens in the theory of international relations. London: Macmillan, 1982.

VINHA, Felipe. Demon Slayer: Castelo Infinito | Sinopse oficial do filme é divulgada. Omelete. 2025. Disponível em: <https://www.omelete.com.br/mangas-animes/demon-slayer-castelo-infinito-sinopse-oficial-do-filme-e-divulgadahttps://www.omelete.com.br/mangas-animes/demon-slayer-castelo-infinito-sinopse-oficial-do-filme-e-divulgada&gt; Acesso em 19 de fevereiro de 2026.