Alciane Carvalho Dias 

Internacionalista formada pela UNAMA 

​Nascida em Solna, Suécia, em 1997, Zara Larsson emergiu como um fenômeno da indústria fonográfica global, transcendendo a imagem de produto da eficiente “máquina de hits” escandinava para se tornar uma das vozes mais politicamente assertivas do pop contemporâneo. Sua trajetória, iniciada precocemente ao vencer o reality show sueco Talang, consolidou-se internacionalmente com álbuns como So Good (2017) e Venus (2024). 

Entretanto, Larsson rapidamente demonstrou que sua agência artística não se limitaria ao Soft Power tradicional. Através de uma sonoridade que funde o electro-pop vibrante com vocais potentes, ela construiu uma plataforma onde a estética de massa e o ativismo radical coexistem, desafiando a neutralidade comercial esperada de artistas de seu calibre (ENLOE, 2014).

​A evolução artística de Larsson atingiu um novo patamar de sofisticação com o lançamento de seu projeto mais recente, encabeçado pelo hit “Midnight Sun”. A faixa não é apenas um sucesso de streaming, tendo estreado na Billboard Hot 100 e recebido indicação ao Grammy em 2026; ela encapsula uma fase de maturidade onde a metáfora do sol que nunca se põe reflete a recusa da artista em permanecer nas sombras da complacência política. 

Em “Midnight Sun”, a sonoridade polida serve como veículo para uma identidade soberana, reforçando temas de clareza e autorreflexão que ecoam sua postura pública. Para a análise das Relações Internacionais, a música de Larsson funciona como uma ferramenta de ação comunicativa, transformando o consumo cultural em um ato de engajamento com as tensões do sistema mundial contemporâneo (COX, 1981).

​Sob a ótica da Teoria Crítica das Relações Internacionais, a postura de Zara Larsson representa uma busca contundente pela emancipação. Segundo a premissa de Robert Cox (1981, p. 128), “a teoria é sempre para alguém e para algum propósito”. Larsson atua como uma intelectual orgânica da era digital ao utilizar sua influência transnacional para questionar frontalmente o ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement). 

Ao denunciar abertamente a desumanidade na gestão das fronteiras e a detenção de imigrantes — chegando a rotular agentes como “criminosos” e “sequestradores” em declarações públicas — ela desafia a legitimidade do poder coercitivo estatal. Para teóricos críticos como Andrew Linklater (1998), a verdadeira política internacional deve buscar a libertação dos indivíduos de estruturas opressoras que priorizam a soberania do Estado em detrimento da dignidade humana básica.

​Essa análise é aprofundada quando interceptada pelas Teorias Feministas das Relações Internacionais. Zara Larsson, autodeclarada feminista radical, subverte o estereótipo da popstar passiva ao aplicar o que Cynthia Enloe (2014) define como a percepção de que “o pessoal é internacional”. Suas críticas incisivas à masculinidade tóxica dentro das instituições policiais e sua recusa em silenciar-se diante de injustiças estruturais revelam como as hierarquias de gênero são fundamentais para a manutenção da ordem mundial. 

Para Enloe (2014), o sistema internacional é militarizado e masculinizado; Larsson, ao confrontar essas normas, propõe uma renegociação do poder que valoriza a autonomia dos corpos e a segurança humana acima dos interesses geoestratégicos tradicionais (TICKNER, 2001).

​A postura de Larsson é, inerentemente, interseccional. Durante o auge do movimento Black Lives Matter e em discussões sobre direitos trans e justiça reprodutiva, ela não apenas demonstrou solidariedade, mas utilizou sua plataforma para educar o público sobre o racismo sistêmico, conectando essas pautas à exploração global. J. Ann Tickner (2001) argumenta que a segurança nacional é frequentemente uma construção que ignora as vulnerabilidades de grupos marginalizados.

Ao atacar as políticas do ICE e o racismo institucional, Larsson evidencia que a luta pelos direitos das mulheres é indissociável da luta contra a xenofobia e o racismo, defendendo uma ética de solidariedade transnacional que ignora as fronteiras geográficas para proteger a vida (TICKNER, 2001). Dessa forma, a discografia de Zara Larsson, culminando no brilho revelador de “Midnight Sun”, opera como um arquivo de resistência dentro do capitalismo fonográfico. Ela utiliza a estrutura da indústria cultural como um “cavalo de Troia” para disseminar ideais emancipatórios e desestabilizar o senso comum conservador.

Larsson prova que a agência artística no século XXI exige o compromisso de iluminar as falhas do sistema, transformando a audiência em uma força coletiva capaz de imaginar uma ordem mundial mais justa. Sua trajetória reafirma que a música pop, quando dotada de consciência crítica, é uma das ferramentas mais potentes para a transformação política e para a construção de uma sociedade livre de opressões estruturais (COX, 1981; TICKNER, 2001; ENLOE, 2014).

Referências

​BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

​COX, Robert W. Social Forces, States and World Orders: Beyond International Relations Theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126-155, 1981.

​ENLOE, Cynthia. Bananas, beaches and bases: making feminist sense of international politics. 2. ed. Berkeley: University of California Press, 2014.

​LINKLATER, Andrew. The transformation of political community: ethical foundations of the post-westphalian era. Cambridge: Polity Press, 1998.

​SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

​TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics: issues and approaches in the post-cold war era. New York: Columbia University Press, 2001.