Cainã Alves do Amaral – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)

Grupo regional do Observatório de Segurança Internacional: Ásia em Evidência

Desde meados de novembro de 2025, recentes tensões entre Japão e China foram reacendidas pelo continente asiático, alertando a segurança regional e efetivando um novo marco para a diplomacia bilateral de ambos os países (G1, 2025). Sob um contexto de avanço chinês pelo Nordeste Asiático e fomento da militarização no Mar do Sul da China, o Japão encontra-se dividido em um processo de dualidade sobre as seguintes questões: frear o avanço chinês sob Taiwan e priorizar a segurança nacional com uma realocação de fundos para o âmbito militar ou estender a sua política de pacifismo, sendo esta predominante na política externa do país desde o pós-Segunda Guerra Mundial?

Nessa perspectiva, configura-se como de caráter fundamental uma breve recapitulação das relações entre Japão-China no século XX, onde, em um contexto de crise mundial, ambos os países se encontravam sob grandes empreitadas. Durante a década de 30, o Japão – com uma política externa voltada para a materialização de sua capacidade bélica – adotava uma postura predominantemente militar no continente asiático, expandindo a sua campanha para países como Filipinas, Malásia, Indonésia, e não diferentemente disso: a China (BBC, 2025).

A relação bilateral que já se encontrava deteriorada em meados de 1894, tornou-se cada vez mais insustentável, uma vez que as forças japonesas invadiram, em 1937, a China em larga escala, cercando-a e capturando grandes polos como Pequim, Nanquim e Xangai, resultando no massacre de mais de 40.000 chineses no período pré-Segunda Guerra Mundial (BBC, 2023).

Mesmo com a posterior fragilidade do Japão no final da Segunda Guerra Mundial, a qual corroborou para a devolução de territórios à China e, consequentemente, para o fim da brutal campanha militar japonesa, os laços diplomáticos entre ambos os países nunca mais foram os mesmos, uma vez que as sequelas deixadas por tal campanha japonesa no solo asiático geraram e ainda geram traumas enormes sob a civilização chinesa como um todo (BBC, 2025).

Em contraste com a política externa da primeira metade do século XX, o Japão vinha adotando, desde então, uma postura de pacifismo na Ásia, sendo esta materializada pela cooperação internacional, exportação cultural, fomento do multilateralismo, e, também: um conservadorismo no que concerne a potenciais reinvestimentos no âmbito militar, uma vez que tal conduta iria de desencontro com a Constituição japonesa vigente.

Paralelamente a isso, já na primeira metade do século XXI, temos um novo “jogo de xadrez” sino-japonês se formando, uma vez que as tensões militares entre China e Japão são reacendidas e trazidas à tona após mais de 80 anos, gerando consequências de larga escala no continente asiático.

Nesse sentido, compreende-se, à luz da corrente teórica do Realismo Ofensivo, materializada pelas concepções de John Mearsheimer (2001) – renomado teórico estadunidense – que o Japão, situado sob um contexto de vulnerabilidade externa no que tange à sua segurança nacional e soberania, frente a um investimento exponencial dos chineses em relação à capacidade bélica e mediante a uma realização frequente de exercícios militares próximos a Taiwan – busca por reanalisar a sua política externa vigente com o fito de assegurar a sua sobrevivência no Sistema Internacional, analisando adoções de possíveis estratégias para lidar com a imprevisibilidade por parte do oponente e com interesses alheios desconhecidos.

Com isso, o país comumente reconhecido como a terra da diversidade cultural, dos animes, mangás e do J-Pop, através da consolidação de uma narrativa gerada a partir de uma política de convencimento, isto é, da implementação do conceito neoliberal de soft power, materializado através da hibridização cultural e pacifismo desde o pós-Segunda Guerra Mundial, reestrutura os arranjos que movem os eixos do sistema anárquico mediante a uma potencial ameaça externa em ascensão.

Consonante a isso, o principal ponto de tensão trazido à tona nos últimos tempos, mais especificamente desde meados de novembro de 2025 para cá, foi uma declaração da Primeira-Ministra japonesa recém-eleita pelo Parlamento, a qual sugeriu a possibilidade de uma intervenção armada no Estreito de Taiwan por parte de Tóquio, configurando-a como uma possível resposta militar ao avanço chinês na região (BBC, 2025).

Em sequência, as tensões foram sendo alavancadas gradativamente, especificamente após o recebimento da afirmação supracitada por parte do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, o qual retaliou o posicionamento ofensivo de Sanae Takaichi através do seguinte discurso: “se o Japão ousar intervir militarmente na situação do Estreito de Taiwan, isso constituirá um ato de agressão, e a China reagirá de forma contundente. Quem brinca com fogo caba se queimando” (G1, 2025).

Além disso, o Japão pretende objetivamente implementar, até 2031, mísseis em uma região insular próxima a Taiwan, denominada de Ilha Yonaguni. Tal objetivo foi oficializado pelo respectivo ministro de defesa do país (BBC, 2026). Somado a isto, nesta última semana, o Japão realizou exercícios militares em conjunto com as Filipinas e os Estados Unidos no Canal de Bashi, isto por 6 dias seguidos, através das Atividades de Cooperação Marítima Multilateral (MMCA), em uma região consideravelmente próxima de Taiwan, havendo uma posterior retaliação militar chinesa para com o treinamento exercido previamente pelos três países (ESTADÃO, 2026).

Portanto, ao analisar este panorama consternador, percebe-se uma iminência de múltiplas desavenças que refletem um possível colapso na relação bilateral entre Japão e China, onde fatores como soberania, separatismo e segurança nacional são trazidos à tona. Neste sentido, compreende- se uma necessidade vigente de uma governança conjunta para tratar acerca de questões de cunho transnacional, mediante o avanço da globalização e interconectividade entre os países.

Tal avanço é ressaltado por James Rosenau (1992) – renomado teórico da vertente Neoliberal das Relações Internacionais. Entretanto, transcendendo a esfera do idealismo em si, esta concepção retratada na obra “Governance without government” se desencontra com o cenário vigente no Estreito de Taiwan, uma vez que a diplomacia bilateral entra em colapso mediante a ascensão de conflitos militares na região.

Logo, uma intercalação entre o uso da força militar no que concerne ao Estreito de Taiwan, sendo esta materializada como hard power, e o uso do soft power no que tange a exportação cultural e criação de uma narrativa de convencimento desde 1945, aparenta estar cada vez mais emergente por parte de Tóquio. A dualidade entre essas duas formas de exercer o poder se demonstra cada vez mais ascendente na respectiva relação bilateral, a qual é separada apenas por um estreito marítimo.

REFERÊNCIAS:

CAMPBELL, Joseph; TEO, Angie; LIM, Feline. Entenda a atual crise entre Japão e China após comentários    sobre    Taiwan.    CNN    Brasil,  2025.    Disponível    em:

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/entenda-a-atual-crise-entre-japao-e-china-apos- comentarios-sobre-taiwan/. Acesso em: 27 fev. 2026.

BBC. China country profile. BBC, 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia- pacific-13017877. Acesso em: 27 fev. 2026.

G1. China se enfurece e ameaça Japão por fala ‘ultrajante’ de nova premiê japonesa sobre Taiwan; entenda. G1, 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/13/crise-diplomatica-japao-china-se-enfurece-fala- premie-japonesa-taiwan.ghtml. Acesso em: 27 fev. 2026.

BBC. China country profile. BBC, 2023. Disponível em: https://www.bbc.com/news/world-asia- pacific-13017877. Acesso em: 27 fev. 2026.

ESTADÃO. EUA, Filipinas e Japão realizaram exercício militar conjunto próximo a Taiwan; China reage. ESTADÃO, 2026. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/eua-filipinas- e-japao-realizaram-exercicio-militar-conjunto-proximo-a-taiwan-china-reage-npr/. Acesso em: 27 fev. 2026.

MEARSHEIMER, John. The Tragedy of Great Power Politics. W W Norton and Co, 2001.

NG, Kelly; KHALIL, Shaimaa. Japão implantará mísseis em uma ilha próxima a Taiwan até 2031. BBC, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cd9gj1w2kn1o. Acesso em: 27 fev. 2026.

ROSENAU, James; CZEMPIEL, Ernst-Otto. Governance without government: Order and Change in World Politics. 1992.WANG, Fan. ‘Nunca fomos amigos’: Um massacre na véspera da Segunda Guerra Mundial ainda assombra as relações entre China e Japão. BBC, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cp89ed9j5ygo. Acesso em: 27 fev. 2026