
Gabriele Nascimento Ribeiro, acadêmica do 5º semestre de R.I da UNAMA.
A Teoria Realista das Relações Internacionais defende que o Sistema Internacional é marcado por uma estrutura anárquica na qual o conflito e a guerra são características inerentes e duradouras. Considerando essa abordagem, o Realismo Ofensivo, protagonizado por Jonh Mearsheimer, baseia-se em que, devido a constante incerteza e desconfiança do S.I, as grandes potências disputam por influência e hegemonia, uma vez que possuir poder dominante é o melhor meio de garantir a sobrevivência e segurança em um ambiente anárquico.
De acordo com Mearsheimer, os Estados realizam esforços para aumentarem a quantidade de poder usufruindo de meios econômicos, diplomáticos e militares para expandirem sua quota de poder e alterarem o equilíbrio a seu favor. Segundo Mearsheimer (2007, p. 37),como o ganho de poder de um Estado é a perda de outro, as grandes potências tendem a ter uma mentalidade de soma zero quando lidam entre si. O truque, claro, é ser o vencedor desta competição e dominar os outros Estados do sistema. Em suma, as grandes potências têm intenções agressivas.
De acordo com Mearsheimer (2007), uma hegemonia é um Estado dominante sobre os demais Estados, no entanto, o autor faz distinção entre hegemonias globais, que dominam o mundo, e regionais, as quais dominam regiões distintas, como Ásia, Europa e as Américas. Nesse sentido, J. Mearsheimer expõe o domínio estadunidense nas Américas, pois segundo ele:
Os Estados Unidos têm sido uma hegemonia regional no Hemisfério Ocidental pelo menos nos últimos cem anos. Nenhum outro estado nas Américas tem poder militar suficiente para desafiá-lo, razão pela qual os Estados Unidos são amplamente reconhecidos como a única grande potência na sua região. (Mearsheimer, 2007, p. 42).
O ataque ao território venezuelano, em janeiro de 2026, não foi um evento isolado, representa um passo importante no desejo de “retomada” da Doutrina Monroe apresentado pelo governo estadunidense em sua National Security Strategy, publicada em novembro de 2025, na qual se expõe:
Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger a nossa pátria e o nosso acesso a geografias-chave em toda a região. Negaremos a competidores extra hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, no nosso Hemisfério. Este ‘Corolário Trump’ da Doutrina Monroe é uma restauração de senso comum e potente do poder e das prioridades americanas, consistente com os interesses de segurança americanos. (The White House, 2025, p. 15, Tradução Nossa).
Após o sequestro do líder venezuelano, Nicolas Maduro, o Department of the Theasury do governo estadunidense flexibilizou as regras de investimentos estrangeiros com a Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA) e com o governo venezuelano. Segundo a licença geral nº 46, todas as transações proibidas pelo Regulamento de Sanções à Venezuela, 31 Cfr parte 591, envolvendo a PDVSA ou o governo da Venezuela relacionadas a extração, exportação, reexportação, venda, revenda, fornecimento, armazenamento, comercialização, compra, entrega ou transporte de petróleo de origem venezuelana, incluindo o refino desse petróleo, por uma entidade estabelecida nos EUA, estão autorizadas desde que atendam requisitos solicitados pelos EUA, como a jurisdição do governo norte-americano referente a qualquer contrato para transações com o governo da Venezuela (Department of the Treasury, 2026, Tradução Nossa).
Ademais, o documento prevê que a flexibilização não autoriza qualquer transação envolvendo pessoas ou entidades localizadas ou organizadas sob as leis da Rússia, Irã, Coreia do Norte ou Cuba, nem mesmo uma transação envolvendo entidade localizada ou organizada sob as leis da Venezuela ou dos EUA, que sejam de propriedade ou controlada por joint venture, sendo este último, especificamente no caso de leis chinesas. (Department of the Treasury, 2026, Tradução Nossa).
A Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, porém não é somente isso que é interessante para os EUA, de acordo com uma matéria publicada pela BBC NEWS BRASIL, escrita por Alonso (2026), o governo venezuelano afirma possuir reservas de terras raras e de minerais estratégicos como coltan, ferro, ouro, bauxita e entre outros, sendo estes minerais críticos e que apresentam valores estratégicos para diversos setores industriais do globo, como de baterias.
Diante do exposto, à luz do pensamento de Mearsheimer, a atual disputa geopolítica global entre grandes potências como China e EUA abrem espaço para conflitos por influência e colocam regiões estratégicas nos centros de disputa por poder. Ao realizar uma ingerência direta ao território venezuelano, o governo estadunidense feriu normas do direito internacional ao realizar uma demonstração de força para seus adversários políticos globais e regionais.
Para fazer frente a China, os EUA procuram aumentar o poder às custas de outros Estados, no caso os Estados sul-Americanos, os quais configuram-se, para o governo estadunidense, como zonas de influência, sendo uma região favorável para o uso e expansão da força, possibilitando a projeção hegemônica estadunidense frente ao cenário político global.
Além disso, a supervisão de remessas e comercialização de petróleo venezuelano por parte dos Estados Unidos representa uma espécie de tutela que dita as regras de venda e controla o fluxo econômico do país, impactando diretamente o abastecimento energético de Estados dependentes do combustível sul-americano, como no caso de Cuba.
Portanto, as manobras e violações realizadas pelo governo norte-americano demonstram a capacidade de influência dos Estados Unidos sobre a América Latina e representa a manutenção do status dos EUA como hegemon incontestável nas Américas, afastando o apoio geopolítico das potências rivais na região, instrumentalizando o petróleo venezuelano como ferramenta política e evidenciando a falha das instituições internacionais em garantir o direito internacional.
REFERÊNCIAS:
ALONSO, Juan Francisco. As outras riquezas naturais da Venezuela que são ‘críticas’ para os EUA. BBC NEWS BRASIL. Publicado em: 15 fev. 2026. Disponível em:< https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy8g732jvv8o>. Acesso em: 28 fev. 2026.
ESTADOS UNIDOS. DEPARTMENT OF THE TREASURY. Venezuela Sanctions Regulations 31 CFR part 591 GENERAL LICENSE NO. 46. WASHINGTON, D.C, 2026. Disponível em: < https://share.google/O0Q1IHOuXv5uC5M9W >. Acesso em: 28 fev. 2026.
ESTADOS UNIDOS. National Security Council. National Security Strategy 2025. Washington, DC: The White House, 2025. Disponível em: < https://share.google/H78mcBAyQlcEEJaAH > . Acesso em: 27 fev. 2026.
MEARSHEIMER, John J. A tragédia da política das grandes potências. Tradução de Tiago de Oliveira Pinto. Lisboa: Gradiva, 2014. Disponível em: < https://share.google/ACoL63jyBlHUaWMjV >. Acesso em: 27 fev. 2026.
