
Região: América do Norte
Maria Luiza Garcia, Rita de Cássia Polaro, Sathya da Silva Lobato – Acadêmicas do 5º semestre e Relações Internacionais da UNAMA
Desde o final da Guerra Fria, a dinâmica do narcotráfico entre América do Norte e América Central se consolidou como um dos principais eixos de instabilidade regional no ocidente. No eixo que conecta os Estados Unidos à América Central, especialmente ao México e aos países do chamado Triângulo Norte — Guatemala, Honduras e El Salvador — se formou um corredor estratégico de produção, trânsito e redistribuição de drogas ilícitas e armas de fogo.
Segundo o World Drug Report (UNODC, 2023), a América Central permanece como a rota central da cocaína destinada ao mercado norte-americano, enquanto o México se tornou o polo estratégico na produção e exportação de drogas sintéticas, sobretudo o fentanil. A partir de 2019, se intensificou nos Estados Unidos o debate político e jurídico sobre o enquadramento de cartéis mexicanos como organizações terroristas estrangeiras.
Em 2025, o United States Department of Justice formalizou acusações contra lideranças do Cartel de Sinaloa com base em dispositivos associados ao terrorismo, ampliando o escopo jurídico do combate ao narcotráfico. Este movimento mostra uma reconfiguração estratégica do problema: o tráfico deixa de ser tratado apenas como questão criminal transnacional e passa a ser interpretado como ameaça à segurança nacional.
À luz do Neorrealismo Estrutural, formulado por Kenneth Waltz (1979), o sistema internacional é definido pela anarquia, ou seja, a ausência de autoridade superior aos Estados, e pela distribuição desigual de capacidade entre os atores estatais. Neste contexto, os Estados buscam prioritariamente a sobrevivência, ajustando seu comportamento conforme as pressões estruturais do sistema. Assim, a política externa não decorre exclusivamente de decisões domésticas, mas da posição relativa do Estado na estrutura internacional.
Aplicando essa perspectiva ao caso em análise, observa-se que os Estados Unidos, enquanto potência hegemônica regional, percebem o narcotráfico como fator de desestabilização estrutural. A crise dos opioides, com impactos profundos na saúde pública e na ordem social norte-americana, altera o cálculo de segurança do Estado. Segundo Waltz (1979), quando uma ameaça compromete a estabilidade interna, ela passa a integrar o núcleo das preocupações estratégicas.
Nesse sentido, a militarização das fronteiras, o fortalecimento da cooperação em inteligência e a ampliação de instrumentos legais de repressão configuram respostas coerentes com a lógica da autopreservação. A América Central, por sua vez, ocupa uma posição estruturalmente periférica no sistema hemisférico. Estados com capacidades militares e institucionais limitadas se tornam mais vulneráveis à atuação de organizações criminosas transnacionais.
Estudos recentes publicados na revista Geoforum (2026) indicam que as políticas de combate militarizado ao narcotráfico em Honduras e Nicarágua geraram efeitos contraditórios: embora tenham ampliado a presença estatal em regiões marginalizadas, também se intensificaram conflitos armados, autoritarismo, violência contra comunidades locais e modalidades perversas de controle territorial. Sob a ótica neorrealista, essa vulnerabilidade decorre da desigual distribuição de poder no sistema regional.
Além disso, o controle territorial exercido por cartéis representa uma fragmentação prática da soberania estatal. Quando organizações criminosas assumem o domínio de rotas estratégicas e zonas fronteiriças, ocorre uma redistribuição informal de capacidades coercitivas. Para Waltz (1979), a estabilidade do sistema depende da manutenção de unidades políticas capazes de exercer controle sobre seus territórios. A fragilidade institucional na América Central, portanto, ganha importância na estratégia da potência dominante.
Nesse contexto, o apoio financeiro e logístico norte-americano aos governos centro-americanos pode ser interpretado como mecanismo de restauração do equilíbrio regional. Ao reforçar capacidades locais, os Estados Unidos busca reduzir fontes de instabilidade próximas às suas fronteiras. Este comportamento confirma a premissa waltziana de que os Estados ajustam suas estratégias conforme percebem alterações na estrutura de poder.
Desse modo, o enquadramento do narcotráfico como ameaça equiparável ao terrorismo se mostra coerente com a lógica de sobrevivência estatal descrita por Waltz. Em um sistema internacional anárquico, a potência hegemônica tende a reagir de forma contundente diante de riscos que afetam sua estabilidade interna. Todavia, a ênfase excessiva em estratégias coercitivas pode produzir efeitos colaterais que reforçam ciclos de violência e fragilidade institucional na periferia regional.
Em suma, à luz do Neorrealismo Estrutural, o narcotráfico entre a América do Norte e a América Central cria instabilidade regional, influenciando as políticas de segurança e as respostas adotadas pelos Estados no cenário internacional. A distribuição desigual de capacidades molda tanto a vulnerabilidade centro-americana quanto a postura intervencionista norte-americana. Contudo, a superação do problema exige iniciativas que supere o imperativo estrutural da segurança, incorporando dimensões sociais e econômicas que o neorrealismo, por si só, não contempla.
REFERÊNCIAS:
BROUGHTON, J. Richard. Fentanyl, narco-terrorism, and national security politics. San Diego Law Review, v. 61, n. 4, 2024. Disponível em: https://digital.sandiego.edu/sdlr/vol61/iss4/4/. Acesso em: 27 fev. 2026.
BLUME, L. R.; SAULS, L. A.; GALEANA, F. Militarized margins: counternarcotics policy and the struggle for territorial governance in Central America. Geoforum, v. 170, 104535, 2026. DOI: 10.1016/j.geoforum.2026.104535.
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME. World Drug Report 2023. Vienna: United Nations, 2023. Disponível em: https://www.unodc.org/unodc/en/data-andanalysis/world-drug-report-2023.html. Acesso em: 27 fev. 2026.
UNITED STATES DEPARTMENT OF JUSTICE. Sinaloa Cartel leaders charged with narcoterrorism, material support of terrorism and drug trafficking. Washington, DC, 2025. Disponível em: https://www.justice.gov/usao-sdca/pr/sinaloa-cartel-leaders-chargednarco-terrorism-material-support-terrorism-and-drug-0. Acesso em: 27 fev. 2026.
WALTZ, Kenneth N. Theory of International Politics. Boston: McGraw-Hill, 1979.
