
Sofia Dias, acadêmica do 3° semestre de Relações Internacionais da Unama
Ficha Técnica:
Ano: 2001
Direção: Hayao Miyazaki
Gênero: Animação, Fantasia, Aventura
Distribuição: Toho
País de Origem: Japão
A Viagem de Chihiro (2001), dirigido por Hayao Miyazaki, é amplamente reconhecido como uma das mais relevantes animações de longa-metragem da história do cinema. Desde seu lançamento, a obra alcançou expressivo reconhecimento crítico e institucional, sendo laureada com o Urso de Ouro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, em 2002, e com o Oscar de Melhor Filme de Animação no Academy Awards, em 2003 (RIBEIRO, 2021).
Além de seu impacto no circuito de premiações, o filme consolidou-se como um fenômeno comercial, permanecendo por quase duas décadas entre as maiores bilheterias da animação japonesa. Destaca-se, ainda, o fato de ter sido a primeira produção não-anglófona a conquistar o prêmio de Melhor Animação no Oscar, marco que ampliou significativamente a visibilidade do cinema de animação japonês no Ocidente e reforçou sua projeção no cenário cinematográfico internacional (RIBEIRO, 2021).
A obra narra a história de Chihiro, uma menina de dez anos que, durante a mudança para uma nova cidade, adentra acidentalmente um mundo habitado por espíritos da tradição japonesa. Após a transformação de seus pais em porcos ao consumirem alimentos destinados às entidades daquele espaço, Chihiro vê-se sozinha e obrigada a permanecer nesse universo paralelo.
Para sobreviver e encontrar uma forma de libertar seus pais, Chihiro vê-se compelida a trabalhar na casa de banhos administrada por Yubaba, uma poderosa feiticeira que exerce controle rigoroso sobre seus empregados. A autoridade de Yubaba estende-se a praticamente todos os aspectos da vida daqueles que ali laboram, uma vez que a casa de banhos constitui simultaneamente espaço de trabalho e moradia. Nesse contexto, seu domínio ultrapassa a dimensão material e alcança a esfera simbólica, manifestando-se, por exemplo, na apropriação dos nomes de seus funcionários.
A transformação de seus pais em animais em decorrência do consumo desenfreado — como uma metáfora para desumanização –, bem como a perda de seu nome e identidade, a constante ameaça de perda de humanidade caso não se submeta ao trabalho e a própria condição de Haku, — um garoto que como Chihiro está preso no labor da casa de banhos e passa a se dedicar à auxilia-la em sua busca pela liberdade — que, embora ocupe posição hierarquicamente superior na casa de banhos, permanece igualmente submetido a regras e em estado de alienação, configuram elementos centrais para uma interpretação crítica da obra.
Tais aspectos evidenciam dinâmicas de exploração, subordinação e esvaziamento subjetivo que viabilizam a análise do filme à luz da Teoria Marxista das Relações Internacionais, especialmente no que concerne às estruturas de poder e às formas de dominação que organizam o sistema social representado na narrativa.
Nesse sentido, trajetória de Chihiro pode ser interpretada, à luz da obra Manuscritos Econômico-Filosóficos (2010), como uma dramatização da alienação do trabalho. Marx sustenta que, no capitalismo, o trabalhador se torna estranho ao produto que produz, ao processo produtivo, aos outros indivíduos e, sobretudo, à sua própria essência. No filme, a perda do nome da protagonista — rebatizada como “Sen” — simboliza essa ruptura com a identidade, evidenciando a separação entre sujeito e essência (MARX, 2010).
O trabalho na casa de banhos não se configura como atividade de autorrealização, mas como condição de sobrevivência, o que aproxima a experiência da personagem da concepção marxiana segundo a qual o labor alienado deixa de ser expressão da vida e converte-se em meio coercitivo de subsistência (MARX, 2013).
Já em O Capital (2013), Karl Marx direciona sua análise ao funcionamento estrutural do modo de produção capitalista, enfatizando a exploração da força de trabalho e o fetichismo da mercadoria como fundamentos da sociabilidade moderna. Sob essa perspectiva, a casa de banhos administrada por Yubaba pode ser interpretada como uma microestrutura orientada por lógica mercantil, na qual as relações são mediadas por trabalho, pagamento e hierarquia. (MARX, 2013).
Sendo assim, A Viagem de Chihiro constitui-se como possibilidade de metáfora crítica das dinâmicas de exploração e alienação próprias da sociedade capitalista. O filme evidencia como a perda da identidade, a centralidade coercitiva do trabalho e a mercantilização das relações operam como mecanismos estruturais de dominação. Desse modo, a obra afirma-se como um objeto relevante para a Teoria Marxista das Relações Internacionais, ao articular dimensão subjetiva e estrutura sistêmica na crítica às formas contemporâneas de poder.
REFERÊNCIAS:
RIBEIRO, Pedro Henrique. A Viagem de Chihiro mudou a maneira como olhamos para filmes animados japoneses. Omelete, 20 jul. 2021. Disponível em: https://www.omelete.com.br/anime-manga/viagem-de-chihiro-20-anos. Acesso em: 01 de março de 2026.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo: Boitempo, 2010.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.
