Região: África

Eduarda Aisha e Vitória Santos – Acadêmicas do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Descrita como “Epicentro mundial do sofrimento humano” pela Le Monde Diplomatique, o autor Arnaud Julien-Thomas torna Sudão o símbolo de uma catástrofe humanitária na qual o país se desintegra em uma guerra civil total e a população civil paga o preço maior (JULIEN-THOMAS, 2026).

Desde abril de 2023, o Sudão enfrenta um dos conflitos armados mais violentos do continente africano. O embate ocorre entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), refletindo fragilidades estruturais do país. Tais tensões se originam de grandes conflitos ocorridos nos anos 2000 em Darfur, onde grupos historicamente marginalizados, como Zaghawa e Fur, sofreram violência extrema ao se oporem ao governo da época, ampliando vulnerabilidades estruturais do Estado que persistem até os dias de hoje (ONU, 2026).

No que tange ao desencadeamento da guerra atual, suas raízes encontram-se no processo de transição política iniciada com a queda do Omar al-Bashir, em 2019, quando foi criado o Conselho Soberano de Transição, órgão político desenvolvido para conduzir o país até as eleições democráticas. Composto por lideranças civis e militares, o conselho tinha como objetivo principal administrar o país pós-regime autoritário (VEJA, 2019).

Entre seus principais membros estavam o general Abdel Fattah al-Burhan, comandante das Forças Armadas Sudanesas (SAF) e Mohamed Hamdan Dagalo, líder das Forças de Apoio Rápido (RSF). De início, essa aliança representava uma cooperação durante um momento de transição de poderes em prol da estabilidade, porém a relação entre ambos se deteriorou após diferenças sobre a devolução de poder à população e, sobretudo, sobre a integração das RSF ao Exército.

Como resultado dessa dificuldade, houve um golpe militar em 2021, tornando o Conselho Soberano em um palco de guerra entre as duas principais forças armadas do país e evoluindo para o posterior conflito armado de 2023 (ONU, 2026). A região que mais sofre com esse conflito atualmente é El Fasher, capital de Darfur do Norte.

A cidade tem apresentado características de genocídio, incluindo assassinatos direcionados, violência sexual generalizada, desaparecimentos forçados e ataques às condições mínimas de sobrevivência dessas populações (ONU, 2026). O conflito no Sudão pode ser analisado, à luz da Teoria Pós-Moderna, não apenas como um conflito entre SAF e RSF, mas como uma forma de reconfiguração das relações de poder na organização interna do Estado.

Para Michel Foucault (1979), o poder não é algo que se possui, mas sim, que se exerce a partir de instituições e práticas sociais. Assim, mesmo diante dos problemas e fragilidades estatais, o que acontece é uma reorganização agressiva das formas de governar, em especial na região como El Fasher, que ocorre o controle do território e da população por meio da coerção armada (ONU, 2026). Ao analisar o conceito de biopoder, é possível compreender como a violência ultrapassa o campo militar e atinge diretamente as condições de vida da população (FOUCAULT, 1976). A violência sofrida no país revela uma lógica de gestão de quem vive e quem morre, na qual determinados grupos, historicamente marginalizados, tornam-se mais vulneráveis.

É possível observar um exercício de poder que decide quais vidas devem ser protegidas e quais podem ser expostas à morte. Além disso, a noção de racismo de Estado ajuda a interpretar o genocídio não como um evento isolado, mas como uma forma política de fragmentar a população e legitimar a eliminação de parte dela em nome da preservação de outra. A governamentalidade militarizada do Sudão, evidencia que o conflito funciona como uma forma de reorganizar a sociedade, tornando a violência como instrumento central de administração política, fazendo assim, ser real as desigualdades históricas e o aprofundamento da vulnerabilidade estrutural do Estado (FOUCAULT, 2008; ONU, 2026).

Diante desse cenário, observa-se que o conflito no Sudão não se trata apenas de uma guerra civil motivada por disputas militares e políticas, e sim de uma forma de expressar a crise estrutural profunda, marcada pela fragilidade institucional, pela militarização do poder e pela histórica marginalização de alguns grupos sociais. A violência após a queda de Omar al-Bashir demonstra que o processo de transição política não conseguiu romper com as lógicas autoritárias anteriores, mas, ao contrário: permitiu a reorganização das disputas de poder no interior do Estado. Nesse contexto, a população civil permanece como a principal vítima de um conflito que combina interesses políticos, disputas militares e exclusão de uma parcela da sociedade.

A partir da teoria de Michel Foucault, é possível compreender que a violência que acontece atualmente não representa apenas o colapso do Estado, mas a consolidação de uma forma específica de exercer o poder, na qual escolhe quem morre e quem vive tornando-se instrumento central de governamentalidade. O biopoder e o racismo de Estado ajudam a compreender como determinadas populações passam a ser tratadas como descartáveis, legitimando práticas que apresentam características de genocídio. Assim, o caso do Sudão coloca em foco que conflitos contemporâneos podem funcionar como tecnologias políticas de reorganização social, formando ciclos de vulnerabilidade estrutural que dificultam a construção de uma paz duradoura.

REFERÊNCIAS:

FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975–1976). São Paulo: Martins Fontes, 1999.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

JULIEN-THOMAS, Arnaud. O Sudão, “epicentro mundial do sofrimento humano”. Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, 8 jan. 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Human Rights Council hears ongoing risk of further genocidal violence in Sudan. Genebra, 2026.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Sudão: Investigadores da ONU encontram “marcas de genocídio” em El Fasher. ONU News, 2026.

STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Michel Foucault. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/foucault/. Acesso em: 27 fev. 2026.

VEJA. Militares e manifestantes têm acordo sobre transição no Sudão. Veja, 5 jul. 2019.