Rafael de Souza Corrêa – acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais

No cenário contemporâneo das Relações Internacionais, a cultura deixou de ser um elemento secundário para se tornar um pilar estratégico na projeção de influência e poder entre as nações. Dentro desse contexto, o espetáculo audiovisual protagonizado por Bad Bunny no Super Bowl LX deixa de ser apenas um evento de entretenimento para se tornar um objeto de estudo estratégico. A análise foi baseada nas ferramentas teóricas da diplomacia cultural e no conceito de soft power de Joseph Nye e foca em como essa performance de alcance massivo opera como influência simbólica, utilizando símbolos e narrativas para negociar espaços de poder e representatividade.

Ao ser o primeiro artista latino masculino a liderar o evento cantando majoritariamente em espanhol, o intérprete utiliza a cenografia para articular um pertencimento que desafia hegemonias. O artigo investiga como o show mobiliza conceitos de Soft Power (Joseph Nye), identidades híbridas (Nestor García Canclini) e identidades fronteiriças (Gloria Anzaldúa), buscando compreender como a apresentação se insere nas epistemologias do Sul e no reconhecimento cultural global.

Para compreender o impacto desta performance, é fundamental situá-la sob a ótica do Soft Power, conceito formulado por Joseph Nye para descrever a capacidade de influenciar percepções e moldar preferências internacionais através da atração cultural e ideológica, em oposição à coerção do Hard Power. No entanto, cabe ressaltar que o poder mobilizado neste caso não se configura como uma estratégia estatal clássica, mas como uma manifestação simbólica transnacional exercida por um ator não estatal. Assim, o músico opera como um vetor de significação, na qual a indústria cultural e a circulação midiática global permitem impactar imaginários políticos para além das estruturas formais de política externa.

A Diplomacia Cultural manifesta-se no espetáculo como uma forma de gerir e comunicar identidades em uma arena de visibilidade transnacional. Segundo a World Polity Theory (Boli & Thomas, 1999), a cultura global funciona como um sistema de significados compartilhados que moldam a ação política e social. O show torna-se uma “arena de cidadania simbólica” no qual a agência latina é reafirmada para desestabilizar o monopólio linguístico anglo-saxão.

Além da influência política, o show deve ser lido como um “texto cultural” que, conforme Clifford Geertz (1989), exige uma thick description (descrição densa). Cada elemento do palco reforça uma camada de sentido sobre a experiência latina contemporânea, transformando a identidade em um processo dinâmico de negociação. Como propõe Stuart Hall (2006), a cultura é um campo de luta de significados; logo, o performer mobiliza símbolos do cotidiano caribenho para inserir narrativas de resistência em uma vitrine historicamente excludente.

A análise do espetáculo protagonizado pelo expoente latino exige uma observação atenta da narrativa visual e sonora. Ao performar praticamente todo o show em espanhol, o artista transformou o idioma em um vetor de afirmação identitária que projeta o Sul Global para o centro do debate, rompendo com a tradição de apenas cantar em inglês no evento.

Isso posto, o estudo da cenografia revela um profundo simbolismo territorial, em que a incorporação de elementos como “La casita” e as palmeiras evoca a estética porto-riquenha. Essa escolha visual não é meramente decorativa, mas estratégica, pois transporta a identidade latina para o centro do império norte-americano. Nesse cenário, o protagonista do espetáculo demonstra sua influência cultural ao mencionar nominalmente diversos países das Américas, desafiando o eixo exclusivo dos Estados Unidos e afirmando uma unidade que atravessa fronteiras geográficas e políticas.

A construção do espetáculo finaliza em uma narrativa de unidade transcontinental, explicitada no encerramento do evento. Com a frase “The only thing more powerful than hate is love” e o uso de uma bola de futebol com a inscrição “Together, We Are America”, o show propõe uma redefinição semântica e política do termo “América”. Assim, a obra deixa de ser apenas uma performance para se tornar um manifesto de pertencimento e resistência cultural.

Para além da estética, a apresentação visa reformular a identidade latina no imaginário global, criando um espaço de identificação e visibilidade. O show se consolida, portanto, como uma forma de diplomacia indireta capaz de fortalecer o capital simbólico do Sul Global. Essa estratégia transforma o palco em uma arena de disputa política, onde a representatividade molda novas formas de influência internacional.

Tal convergência cultural materializa-se no palco, onde o artista se faz acompanhar por ícones de diferentes vertentes da arte latina. A composição desse grupo atua como um mapa geopolítico da influência contemporânea: ao reunir nomes com raízes no Chile, Porto Rico, Colômbia e nas diásporas nos EUA, Bad Bunny estabelece uma zona de contato multinacional.

Essa “coligação estética” – que integra figuras como Miguel e SZA – demonstra uma hibridez cultural em que a identidade latina se funde a gêneros globais. O resultado consolida sua hegemonia tanto no Norte quanto no Sul Global, transformando a performance em um vetor de projeção identitária.

A eficácia desta diplomacia cultural pode ser medida pela resistência que provoca. No caso desta arena de audiência planetária, a recepção antagônica expõe como a performance tensionou o status quo. Em vez de um consenso passivo, gerou-se um atrito ideológico: grupos marginalizados encontraram validação, enquanto discursos conservadores reagiram à perda da hegemonia cultural. Essa tensão reflete o embate entre hegemonia e contra-hegemonia nas Relações Internacionais, provando que eventos culturais não são neutros, mas espaços onde identidades são contestadas em tempo real.

Este gesto de redefinir o conceito de “América” dialoga com a teoria das identidades fronteiriças de Gloria Anzaldúa, onde a fronteira é um espaço de diálogo. Ao colocar o espanhol no centro de um evento com predomínio histórico da língua inglesa, utiliza-se a plataforma para promover as epistemologias do Sul (Santos, 2006), reivindicando o reconhecimento de identidades colocadas em posição de alteridade. Entretanto, a análise crítica aponta para um paradoxo: o show está inserido em uma lógica de consumo de massa que pode esvaziar o potencial político da mensagem em favor do entretenimento. O uso de símbolos de resistência corre o risco de ser absorvido pela indústria como um “produto exótico”.

Conclui-se que, apesar dos limites do mercado e das reações polarizadas, tais espetáculos se consolidam como arenas fundamentais de cidadania simbólica. A principal contribuição deste trabalho reside na compreensão de que a cultura, manifestada em eventos de massa, é um campo dinâmico de disputa política onde o reconhecimento e a representatividade moldam novas formas de influência no espaço global contemporâneo.

Referências:

ANZALDÚA, Gloria. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. San Francisco: Aunt Lute Books, 1987.

BOLI, John; THOMAS, George M. Constructing World Culture: International Nongovernmental Organizations Since 1875. Stanford: Stanford University Press, 1999.

CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

NYE, Joseph S. Soft Power: The Means to Success in World Politics. New York: PublicAffairs, 2004.