
Caira Queiroz, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais
A ascensão de Tânia Maria e seu reconhecimento internacional aos 78 anos, após sua atuação em “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, foi celebrada como uma história inspiradora de superação. Mulher nordestina, artesã durante grande parte da vida, distante dos grandes centros do audiovisual brasileiro, se tornou símbolo de reinvenção e talento descobertos na terceira idade, por começar sua carreira artística aos 72 anos.
Natural de Parelhas, no interior do Rio Grande do Norte, Sebastiana, seu nome original, construiu sua vida profissional longe dos palcos e estúdios. Mãe solo, hoje bisavó, ao longo dos anos trabalhou como artesã e costureira, tendo sua arte aplicada ao cotidiano, sem glamour e sem plateia, vivendo à margem dos circuitos formais de produção cultural. “Eu só pensava na costura. Não pensava em mais nada”, diz Tânia em entrevista à BBC (Pina, 2025).
Seu primeiro contato com o cinema aconteceu de forma inesperada. Em 2018, a equipe de Bacurau estava na região em busca de figurantes locais quando Tânia decidiu apenas observar as filmagens (Lobo, 2026). A curiosidade, no entanto, transformou-se em oportunidade: percebida pela produção como alguém com presença autêntica para a cena, ela foi convidada a integrar o elenco de figurantes do filme, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Segundo a própria Tânia, em entrevista, aceitou o convite com simplicidade: “Ganhando R$50,00 todo dia, eu achei bom demais” (Pina, 2025).
O que poderia ser apenas uma participação pontual tornou-se o início de uma trajetória improvável no audiovisual. Sua inserção tardia no cinema já desmonta processos tradicionais: ela não percorreu o caminho das escolas de teatro, testes e agenciamento profissional. Sua presença não nasce do circuito institucionalizado, mas de uma inserção periférica. Enquanto o mercado cultua rostos jovens que envelhecem ao longo da sua trajetória em frente às telas, Tânia Maria rompe esse sistema com um olhar vívido e pela força da naturalidade do cotidiano (Lobo, 2026).
Em O Agente Secreto, Tânia Maria confirma sua presença ao interpretar Dona Sebastiana, personagem que conquistou público e crítica. Segundo Kleber Mendonça Filho, também diretor e roteirista da obra, ele escreveu a personagem “pensando nela”. Dito e feito, sua atuação foi elogiada pela naturalidade, presença cênica e adjetivos únicos (Faria, 2025).
Mídias a descreveram como “revelação do cinema brasileiro aos 78 anos”, portais críticos como o jornal The New York Times destacaram sua atuação como uma das melhores de 2025 (Pina, 2025), e revistas especializadas como Variety e The Hollywood Reporter passaram a incluí-la em listas de apostas para a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Faria, 2025).
Nesse sentido, a jornada de Tânia Maria e sua inserção tardia no cinema pode ser analisada à luz da Teoria Crítica, desenvolvida pela Escola de Frankfurt, especialmente nas reflexões de Theodor Adorno sobre a indústria cultural. Para esses autores, a cultura, nas sociedades capitalistas avançadas, deixa de ser apenas expressão estética para tornar-se também mercadoria.
A chamada “indústria cultural” opera por meio da padronização, da repetição e da produção de narrativas que reforçam estruturas sociais existentes. Não se trata apenas de entretenimento, mas de um mecanismo de reprodução simbólica de hierarquias (Adorno, 1969, p. 17).
Nesse sentido, o reconhecimento tardio de Tânia Maria revela tensões estruturais. A indústria audiovisual brasileira, inserida em uma lógica global de mercado, historicamente privilegia juventude e centralidade geográfica, algo que vem sendo desmontado nos últimos anos. Corpos envelhecidos, periféricos e fora do eixo dominante raramente ocupam posições centrais de visibilidade. O fato de sua ascensão aos 78 anos ser tratada como “extraordinária” evidencia a norma implícita: a exclusão é estrutural; a inclusão é excepcional, pois quem assiste se identifica com os trejeitos cotidianos da artista.
Ou seja, a trajetória de Tânia Maria evidencia tanto a potência transformadora da arte quanto as limitações estruturais do mercado cultural. Sua revelação aos 78 anos não é apenas um caso de talento descoberto tardiamente, é também um reflexo das barreiras que impediram esse reconhecimento antes. Sob a lente da Teoria Crítica, sua história revela que o problema nunca foi ausência de talento, mas ausência de acesso.
REFERÊNCIAS
ADORNO, Theodor W. Indústria cultural e sociedade, 1969. 5. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
FARIA, Ana Elisa. De figurante em “Bacurau” a estrela em “O Agente Secreto”: conheça Tânia Maria, a dona Sebastiana. Gama Revista, 2025. Disponível em: https://gamarevista.uol.com.br/cultura/de-figurante-em-bacurau-a-estrela-em-o-agente-secreto-conheca-tania-maria-a-dona-sebastiana/.
LOBO, Kika Gama. Tânia Maria, a senhora nada secreta que deu um baile na idade. Veja, 2026. Disponível em:https://vejario.abril.com.br/coluna/kika-gama-lobo/tania-maria-a-senhora-nada-secreta-que-deu-um-baile-na-idade/#google_vignette.
PINA, Rute. A atriz de ‘O Agente Secreto’ que começou no cinema aos 72 e chegou ao radar do Oscar. BBC News Brasil, 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cgqzppvvxy8o.
