
Região: Oceania
Krigor Lüthemeier – Acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Localizada no Oceano Pacífico, ao leste de Papua-Nova Guiné, Bougainville é marcada por uma trajetória de disputas coloniais e pela busca persistente de autodeterminação. “Descoberta” por navegadores holandeses em 1616, recebeu o nome em homenagem ao almirante francês Louis Antoine de Bougainville, que percorreu sua costa em 1768. No século XIX, foi anexada ao Império Alemão e, após a Primeira Guerra Mundial, passou à administração australiana sob mandato da Liga das Nações. Em 1949, foi incorporada a Papua-Nova Guiné e, às vésperas da independência papuásia em 1975, declarou unilateralmente sua própria soberania, ignorada por Camberra e Port Moresby (Barkhausen, 2025).
A reintegração em 1976 não eliminou as tensões, culminando na guerra civil de 1988, quando o Exército Revolucionário de Bougainville iniciou uma insurreição armada contra o governo central. O conflito resultou na morte de cerca de 15 a 20 mil pessoas e encerrou-se com um acordo de paz mediado pela Nova Zelândia e pela Austrália (Barkhausen, 2025). Este pacto estabeleceu um governo autônomo e garantiu a realização de um referendo sobre a independência. O pleito ocorreu em 2019, com 98% dos votantes favoráveis à separação, mas o processo aguarda ratificação pelo parlamento papuásio com prazo máximo até 2027, enfrentando resistências políticas e desafios econômicos (The Guardian, 2025).
A relevância estratégica de Bougainville está diretamente ligada à mina de Panguna, uma das maiores reservas de cobre e ouro do mundo. Operada pela Bougainville Copper Limited, subsidiária da Rio Tinto, entre 1972 e 1989, a exploração mineral foi o principal estopim da guerra civil. A mina gerava 45% das exportações de Papua-Nova Guiné, mas os proprietários locais recebiam menos de 1% dos lucros (The Guardian, 2025). Além disto, quase um bilhão de toneladas de rejeitos foram despejados nos rios Jaba e Kawerong, devastando ecossistemas e comprometendo a subsistência das comunidades.
O modelo de exploração reproduzia práticas coloniais, com segregação racial e privilégios para trabalhadores estrangeiros. Segundo Aníbal Quijano (2000), esta lógica pode ser interpretada a partir do conceito da “colonialidade do poder” que evidencia a persistência de estruturas coloniais na apropriação de recursos e na marginalização das populações locais. Bougainville exemplifica, assim, a dinâmica centro-periferia, em que riquezas locais são extraídas para sustentar o capital global, enquanto populações colonizadas são tratadas como descartáveis (Quijano, 2000) e seus territórios transformados em zonas de sacrifício.
Atualmente, a liderança política de Bougainville considera a reabertura da mina de Panguna essencial para financiar a independência e garantir a autossuficiência econômica. Estima-se que o local ainda contenha cerca de 5,3 bilhões de toneladas de cobre e 547 toneladas de ouro, avaliados em aproximadamente 60 bilhões de dólares (The Guardian, 2025). O governo autônomo já construiu uma refinaria de ouro e planeja criar um fundo soberano para sustentar a futura nação. Contudo, os impactos ambientais persistentes e as memórias do conflito geram divisões internas entre proprietários de terras, alguns favoráveis à reabertura mediante compensações e outros receosos de novas tensões sociais (Barkhausen, 2025).
A incapacidade técnica e financeira local para operar a mina de forma independente transforma Bougainville em palco de disputa geopolítica. Investidores chineses oferecem pacotes de desenvolvimento condicionados à independência e ao acesso às reservas minerais, enquanto relatórios indicam que Bougainville teria cogitado oferecer aos Estados Unidos uma base militar em troca de apoio técnico e financeiro.
A Austrália, por sua vez, observa com preocupação a possibilidade de que um Estado vizinho se torne dependente da China, comprometendo seu “arco interno de segurança” regional (ABC Pacific, 2025). Esse cenário reflete a crítica de Quijano (2000) sobre a rearticulação da colonialidade do poder, em que a independência política pode resultar apenas na substituição de um domínio externo por outro.
Sob a ótica da teoria da securitização da Escola de Copenhague, o processo de independência de Bougainville transcende a esfera administrativa e assume caráter existencial (Rudzit, 2005; Tanno, 2003). Para os habitantes da ilha, a soberania é percebida como condição de sobrevivência após décadas de exploração e guerra civil. Já para Papua-Nova Guiné, a secessão representa ameaça à integridade nacional, podendo desencadear movimentos separatistas em outras províncias (RNZ News, 2025). Austrália e China elevam a questão ao nível da segurança regional, vinculando-a a seus interesses estratégicos no Pacífico.
Em síntese, Bougainville exemplifica como a busca pela autodeterminação pode ser securitizada por diferentes atores, transformando-se em questão de vida ou morte para instituições, territórios e influências regionais (Rudzit, 2005; Tanno, 2003). Contudo, sem uma efetiva descolonização das estruturas sociais e econômicas, a independência corre o risco de perpetuar a dependência histórica (Quijano, 2000). Inserido na lógica extrativista do mercado mundial, o novo Estado pode tornar-se refém de uma armadilha da dívida, convertendo-se em mais um peão na disputa geopolítica entre China e Estados Unidos.
REFERÊNCIAS
ABC Pacific. Bougainville wants independence. China’s support for a controversial mine could pave the way. 2025. Disponível em: https://www.abc.net.au/pacific/bougainville-wantsindependence-china-s-support-for-a controvers/105377502.
BARKHAUSEN, Barbara. A new country in the Pacific — Bougainville. 2025. Disponível em: https://www.ips-journal.eu/topics/foreign-and-security-policy/a-new-country-in-the-pacificbougainville-8400/
DOHERTY, Ben. ‘No one will stop our people’: Bougainville president defiant in push for independence. The Guardian, 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/jan/10/no-one-will-stop-our-people bougainvillepresident-defiant-in-push-for-independence
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2000. p. 201-246.
RNZ News. Bougainville independence process enters ‘final leg’ amid lingering uncertainty. 2025. Disponível em: https://www.rnz.co.nz/news/pacific/580995/bougainvilleindependence-process-enters-final-leg-amid-lingering uncertainty
RNZ News. Six years after referendum, Bougainville’s quest for independence still faces roadblocks. 2025. Disponível em: https://www.rnz.co.nz/news/pacific/569426/six-years-afterreferendum-bougainville-s-quest-for-independence-still faces-roadblocks
RNZ News. Bougainville 2025 election: What’s at stake?. 2025. Disponível em: https://www.rnz.co.nz/news/pacific/571471/bougainville-2025-election-what-s-at-stake
RUDZIT, Gunther. O debate teórico em segurança internacional: mudanças frente ao terrorismo?. Civitas: revista de Ciências Sociais, v. 5, n. 2, p. 297-323, 2005.
TANNO, Grace. A contribuição da escola de Copenhague aos estudos de segurança internacional. Contexto Internacional, v. 25, p. 47-80, 2003.
