
Região: Ásia
Antônio Nascimento – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
“Guerra aberta”, este foi o termo utilizado pelo ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, no dia 27 de fevereiro, para definir a vigente posição do país para com o Talebã, no Afeganistão (PHILLIPS; JAVED; ZUBAIDE, 2026). Apesar da declaração para o conflito se apresentar através de declarações estatais, a sua recorrência possui origens multicausais, podendo ser explicado, por exemplo, pela ingerência europeia do século XIX no território que hoje divide as duas nações. Deste modo, a presente resenha almeja analisar a guerra entre Paquistão e Afeganistão a partir de uma análise estrutural.
Os eventos de outubro de 2025 chamaram a atenção do mundo para o que seria o prenúncio do atual cenário bélico. Na época, o Governo paquistanês acusou o regime talibã afegão, que está no poder desde 2021, de apoiar e ceder bases para “terroristas anti-Paquistão”, como o talibã paquistanês (Tehrik-e Taliban Pakistan), que foi acusado de lançar ataques contra a nação (AL JAZEERA, 2026).
Paralelamente, o Governo Talebã contestou ao afirmar que o território do Afeganistão não estava sendo um meio para ameaçar a segurança de outros países (PHILLIPS; JAVED; ZUBAIDE, 2026). No total, houve cerca de 70 mortes de ambos os lados. A fim de solucionar a desavença, países como Catar e Turquia foram responsáveis por mediar um cessar-fogo que, no entanto, foi rompido (AL JAZEERA, 2026).
Em 27 de fevereiro de 2026, após meses de hostilidades diplomáticas, os confrontos entre os vizinhos atingiram o seu ápice. Na noite do dia 26, foram realizados diversos ataques do Talibã afegão a postos militares paquistaneses na fronteira – denominada de “Linha Durand”. Em seguida, o Governo paquistanês, na madrugada do dia 27, realizou bombardeios sobre Cabul, capital do Afeganistão, e atingiu províncias: Kandahar e Paktika.
Sob essa perspectiva, o que se sucedeu foram ataques militares recíprocos entre as nações e guerras de narrativas quanto à quantidade de soldados e civis mortos: enquanto o porta-voz do Talibã afegão afirmou que 55 soldados paquistaneses foram mortos, o representante do exército paquistanês defendeu um número de 12 (PHILLIPS; JAVED; ZUBAIDE, 2026).
De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU, a escalada de violência na fronteira dos países foi responsável por deslocar quase 66 mil afegãos. Também, segundo a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMAF), 43 civis afegãos foram mortos (AL JAZEERA, 2026). Em relação a segurança alimentar, cerca de 160 mil pessoas foram afetadas pela ausência de suporte do Programa Mundial de Alimentos da ONU, como consequência da escalada nos conflitos (AL JAZEERA, 2026).
Ademais, para compreender de forma abrangente as atuais mudanças geopolíticas na região, é de suma importância investigar os fatores históricos estruturais para tal. No século XIX, especificamente em 1893, o império britânico foi responsável pela criação e imposição da Linha Durand, uma demarcação que dividiu o território tradicional dos pashtuns, grupo étnico islâmico que hoje habita grande parte do Afeganistão e uma parcela do Paquistão (COUTINHO, 2025). Embora a decisão externa tenha gerado descontentamento por parte do talibã afegão, que possui origens pashtuns, o Governo paquistanês legitima a sua existência (Coutinho, 2025).
Nessa perspectiva, é indispensável reconhecer o impacto do imperialismo europeu no que tange à vigente configuração da região, uma vez que a discordância entre os governos foi e é motivo de disputas identitárias e confrontos militares na fronteira. Consoante com isto, é possível fazer uma análise sistemática sobre tais eventos sob a perspectiva de Aníbal Quijano, teórico decolonial das Relações Internacionais.
Conforme a ideia de “Colonialidade do poder”, apresentada pelo teórico em seu artigo “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”, Quijano (2005) sustenta que o eurocentrismo buscou manter o seu poder através de formas mais sutis, como por intermédio de relações de poder, identidade e saber, o que no passado colonial foi necessário para subalternizar alguns povos considerados inferiores.
Nesse viés, a imposição da Linha Durand pelos britânicos é um exemplo clássico do que Quijano (2005) chama de colonialidade do poder, pois foi imposta como um instrumento de imposição territorial e epistêmica. Ao impor um modelo de conhecimento, a cartografia, os britânicos foram responsáveis por desconsiderar os saberes tradicionais, por exemplo, do povo autóctone da região: os pashtuns, a favor da “racionalidade” europeia e do seu principal interesse: tornar o Afeganistão um Estado- tampão para defender a índia britânica (Coutinho, 2025). Assim, é fundamental ter ciência que o passado colonial do país asiático é um dos motores para o atual conflito entre as nações, haja vista que, ao contrário do Afeganistão, o Paquistão acabou adotando o saber europeu ao defender a existência da fronteira.
Portanto, a imposição da Linha Durand em 1893 materializou a colonialidade do poder ao inscrever no território pashtun uma fronteira alheia às suas lógicas étnicas, impondo um padrão cognitivo europeu que persiste na geopolítica regional. O conflito atual entre Paquistão e Afeganistão é a expressão contemporânea dessa ferida colonial.
Como Quijano (2014, p. 887) afirma, “a colonialidade do poder implica um padrão cognitivo” — desafiá-lo exige transformar as estruturas que ainda nos definem. Assim, a violência de hoje está enraizada em decisões imperiais do passado, e a paz duradoura dependerá da superação desse legado epistêmico e territorial.
REFERÊNCIAS
AL JAZEERA. ‘Open war’: Pakistan and Afghanistan’s Taliban claim major casualties. Doha, 27 fev. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/2/27/pakistan-warplanes-bomb-kabul-as-clashes-with-afghanistan-intensify. Acesso em: 6 mar. 2026.
AL JAZEERA. Nearly 66,000 Afghans displaced amid fierce fighting on Pakistan border: UN. Doha, 4 mar. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2026/3/4/nearly-66000-afghans-displaced-amid-fierce-fighting-on-pakistan-border-un. Acesso em: 6 mar. 2026.
COUTINHO, Marco Antonio de Freitas. A Linha Durand: as origens da tensão Paquistão-Afeganistão e seus reflexos no presente. Velho General, 20 out. 2025. Disponível em: https://velhogeneral.com.br/wp-content/uploads/2025/10/A-Linha-Durand-As-Origens-da-Tensao-Paquistao-Afeganistao-e-seus-Reflexos-no-Presente.pdf. Acesso em: 06 mar. 2026.
PHILLIPS, Aleks; JAVED, Farhat; ZUBAIDE, Mahfouz. Paquistão declara ‘guerra aberta’ ao Talebã e bombardeia Afeganistão: o que se sabe sobre novo foco de tensão. BBC News Brasil, Londres, 27 fev. 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cnv6er1y8ndo. Acesso em: 6 mar. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina1. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.
QUIJANO, Aníbal. Cuestiones y horizontes: de la dependencia histórico-estructural a la colonialidad/descolonialidad del poder: antología esencial. Buenos Aires: CLACSO; Lima: Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 2014
