
Região: América do Norte
Maria Luiza Garcia, Rita Polaro e Sathya Lobato – 5º semestre de Relações Internacionais
Inicialmente, observa-se que a presença chinesa tem se consolidado em diversos países do continente americano, sobretudo pela expectativa de investimentos e projetos de infraestrutura capazes de ampliar a capacidade produtiva regional. Em contrapartida, os Estados Unidos têm buscado conter essa influência para preservar sua predominância na América Latina. Neste contexto, esta resenha busca analisar a disputa diplomática entre China e Taiwan, a influência estadunidense na região e o uso do comércio e dos investimentos como instrumentos de política externa, com destaque para o papel da América Central no reconhecimento diplomático de Taiwan.
De acordo com Robert W. Cox (1981), a política internacional deve ser compreendida a partir das estruturas históricas que condicionam as ações dos Estados. Países com menor poder estrutural tendem a ter suas decisões de política externa condicionadas por pressões econômicas e políticas provenientes do sistema internacional. Assim, a posição de Honduras revela como Estados periféricos frequentemente precisam equilibrar interesses externos e demandas internas ao redefinir suas relações diplomáticas e econômicas.
Em 2023, durante o governo do então presidente Xiomara Castro, Honduras rompeu relações diplomáticas com Taiwan e passou a reconhecer a República Popular da China, seguindo o princípio da política de “Uma Só China”, que considera Taiwan parte do território chinês. Antes dessa mudança, o país mantinha relações diplomáticas com Taiwan por mais de sete décadas (The Guardian, 2023). Este reposicionamento também acompanha um movimento observado em outros países da América Latina nas últimas décadas.
A aproximação com a China foi motivada principalmente por expectativas econômicas, como a atração de investimentos, ampliação do acesso ao mercado chinês e implementação de projetos de infraestrutura capazes de impulsionar o desenvolvimento nacional. Contudo, os resultados não corresponderam às expectativas iniciais, especialmente no setor de produção de camarão, um dos mais relevantes para as exportações hondurenhas. Este cenário passou a gerar questionamentos internos sobre os efeitos concretos da mudança diplomática.
Dados indicam que as exportações de camarão para Taiwan caíram de mais de 100 milhões de dólares em 2022 para cerca de 16 milhões em 2025, enquanto o mercado chinêsnão compensou essas perdas. Como consequência, aproximadamente 95 fazendas foram fechadas, resultando na perda de mais de 25 mil empregos e na redução das receitas externas. Diante disso, produtores do setor passaram a pressionar o governo hondurenho para que reavalie a ruptura diplomática com Taiwan (Associated Press, 2026).
Paralelamente, o cenário político interno também passou por mudanças. Em 2026, Nasry Asfura assumiu a presidência do país e determinou a revisão de acordos econômicos firmados com a China. Sua eleição contou com apoio político do então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o que reforçou especulações sobre uma possível reavaliação da aproximação hondurenha com Pequim. Este contexto reflete a competição geopolítica entre os Estados Unidos e a China pela influência na América Latina.
Entretanto, uma eventual reversão da política diplomática hondurenha não seria simples, pois o país firmou diversos acordos com Pequim, recebeu investimentos significativos e passou a integrar a Belt and Road Initiative. O caso hondurenho evidencia como disputas diplomáticas envolvendo China e Taiwan ultrapassam o reconhecimento formal entre Estados, refletindo dinâmicas mais amplas da política internacional contemporânea e a importância estratégica da América Central na competição entre grandes potências.
REFERÊNCIAS:
ASSOCIATED PRESS. Honduras’ Trump-friendly president weighs shift in China-Taiwan ties. AP News, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/honduras-asfura-trump-chinataiwan-shrimp-farmers 78b00ac7a11b86174a32754de9de75bc. Acesso em: 8 mar. 2026.
CNN EN ESPAÑOL. Honduras: Asfura evalúa cambio en las relaciones con China y Taiwán mientras Trump impulsa influencia de EE. UU. 5 mar. 2026. Disponível em: https://cnnespanol.cnn.com/2026/03/05/latinoamerica/honduras-asfura-china-taiwan-trumporix. Acesso em: 8 mar. 2026.
COX, Robert W. Production, power and world order: social forces in the making of history. New York: Columbia University Press, 1987.
COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, 1981.
HE GUARDIAN. Honduras says there is ‘only one China’ as it officially cuts ties with Taiwan. The Guardian, 26 mar. 2023. Disponível em:https://www.theguardian.com/world/2023/mar/26/honduras-says-there-is-only-one-china-asit-officially-cuts-ties-with-taiwan. Acesso em: 8 mar. 2026.
