Região: África

Eduarda Aisha e Vitória Santos – acadêmicas do 5º sem. De Relações Internacionais da UNAMA

Nos últimos anos, observa-se um crescimento significativo da presença russa no continente africano. Moscou tem ampliado sua atuação geopolítica na região evidenciando de forma mais clara seus interesses estratégicos no continente, aproveitando contextos de instabilidade política e fragilidade estatal presentes em diversos países africanos.

As relações entre Rússia e África começaram a ganhar maior relevância a partir de 2010 e se intensificaram significativamente após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia em 2022, momento em que Moscou buscou ampliar sua presença internacional e fortalecer alianças fora do eixo ocidental.

O enfraquecimento da influência da França em algumas regiões da África Ocidental abriu espaço para uma maior atuação russa, que passou a estabelecer parcerias mais próximas com governos de países como Burkina Faso, Mali e Níger (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, 2026).

A redução da presença francesa no Sahel contribuiu para a reconfiguração das dinâmicas de poder na região. A Rússia fixou parcerias estratégicas com governos africanos, oferecendo cooperação militar e apoio político. Esta estratégia permitiu que a Rússia ampliasse rapidamente sua presença no continente e se posicionasse como uma alternativa aos antigos parceiros ocidentais (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE,2026).

A estratégia da Russia no continente baseia-se principalmente em três instrumentos centrais: acordos de cooperação militar e treinamento de forças armadas, venda de armas e equipamentos militares e utilização de mercenários ou empresas militares privadas. Durante muitos anos, o principal instrumento dessa política foi o chamado “Grupo Wagner”, um grupo mercenário que atuou em diversos conflitos no continente africano (G1, 2023).

Após a morte de seu líder, Yevgeny Prigozhin, parte dessas operações passou a ser reorganizada pelo Estado russo. Neste contexto, surgiu o chamado grupo Afrika Corps, ligado ao aparato de segurança russo, que contribuiu para expandir rapidamente a presença militar da Rússia em determinados territórios africanos (INSTITUTO POLONES DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS,2026).

Além da dimensão militar, Moscou também ampliou seu apoio político entre os países africanos. O continente reúne 54 Estados e constitui o maior bloco de votação na Organização das Nações Unidas, o que torna o apoio africano relevante em votações internacionais, especialmente em temas relacionados à guerra na Ucrânia.

A Rússia passou a desenvolver e oferecer pacotes de segurança que incluíam treinamento militar, cooperação estratégica e apoio operacional aos governos africanos. Para muitos regimes do continente, preocupados com a instabilidade política interna e com a manutenção de seus governos, essas parcerias são vistas como uma alternativa às políticas ocidentais (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, 2026).

Além da cooperação militar e política, a Rússia busca ampliar sua presença econômica na África em setores estratégicos como mineração, energia, petróleo, fertilizantes, agricultura e exportação de trigo. Em alguns casos, empresas russas obtêm acesso a recursos naturais, como ouro, petróleo, em troca de treinamento militar e proteção a governos locais.

Paralelamente, Moscou também demonstra interesse em apoiar e financiar grupos armados locais que ganharam espaço após a redução da influência francesa no Sahel. Diferentemente da política da França, que frequentemente interferia na dinâmica política da região, a estratégia russa tende a priorizar acordos de segurança e apoio militar sem interferência explícita na política interna dos países africanos, o que é visto por governos locais como forma de manter a autonomia política (CARNEGIE ENDOWMENT FOR INTERNATIONAL PEACE, 2026).

A teoria neorrealista, desenvolvida por autores como Kenneth Waltz e posteriormente aprofundada por John Mearsheimer, analisa o comportamento dos Estados diante de um sistema internacional anárquico. O realismo ofensivo elaborado por Mearsheimer (2001) explica que os Estados são os principais atores das relações internacionais e que sua principal preocupação é a sobrevivência em um sistema ausente de uma autoridade central reguladora entre os Estados.

Mearsheimer (2001), entende que os Estados buscam continuamente a maximização de poder para aumentar suas chances de sobrevivência. A partir desta perspectiva, o crescimento da influência russa no continente africano pode ser analisado à luz dessa estratégia. Tal presença pode ser compreendida como parte de um esforço de expansão da sua própria influência para seu fortalecimento no sistema internacional.

Esse movimento gira em torno de equilibrar a influência ocidental promovendo uma ordem multipolar e, principalmente, garantir recursos estratégicos para se consolidar como um ator relevante na política internacional atual (BADAWI, 2024, p.12).

Portanto, a atuação russa, manifestada por meio de cooperação militar e securitária, pode ser interpretada como mecanismo de projeção de poder. Para Mearsheimer (2001), estas iniciativas refletem a competição de grandes potências, pois os Estados buscam reduzir a atuação de potências rivais em regiões estratégicas.

Ao fortalecer parcerias com países do continente africano, a Rússia aumenta suas capacidades e reduz a predominância de outras potências na região. Além disto, a utilização de meios sutis de interferência militar pode ser entendida como forma indireta do uso de poder sem recorrer a uma intervenção militar formal.

REFERÊNCIAS:

BADAWI, Habib. O redirecionamento estratégico da Rússia para a África: implicações geopolíticas em um mundo multipolar. Revista Brasileira de Estudos Africanos, Porto Alegre.

FERRAGAMO, Mariel. Russia’s growing footprint in Africa. New York: Council on Foreign Relations, 28 dez. 2023. Disponível em: https://www.cfr.org/backgrounders/russias-growing-footprint-africa. Acesso em: 7 mar. 2026.

G1. O que é o Grupo Wagner, de mercenários ligados à Rússia. G1, 20 jan. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/ucrania-russia/noticia/2023/01/20/o-que-e-o-grupo-wagner-de-mercenarios-ligados-a-russia.ghtml. Acesso em: 7 mar. 2026.

MEARSHEIMER, John J. The tragedy of great power politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001. PBS NEWSHOUR. What to know about Russia’s growing influence in Africa. PBS, [s.l.], 2024. Disponível em: https://www.pbs.org/newshour/world/what-to-know-about-russias-growing-influence-in-africa. Acesso em: 7 mar. 2026.

TRAORÉ, Bah. Russia in Africa: examining Moscow’s influence and its limits. Washington, DC: Carnegie Endowment for International Peace, 2026. Disponível em: https://carnegieendowment.org/research/2026/02/russia-role-west-southern-africa-junta-wagner-africa-corps. Acesso em: 7 mar. 2026.